SAGA GRINGA

Nesse tempo de quarentena, além dos muitos trabalhos literários que venho desenvolvendo e da leitura frenética, outra grande atividade que curto muito é assistir séries na Netflix. Confesso que não tenho maturidade para vê-las de forma moderada e nos fins de semana: acabo vendo quatro, cinco, às vezes seis episódios no mesmo dia. Mas esse vício é papo para outra crônica. 

A última série que vi (Dark) e a que estou vendo atualmente (Outlander) tratam sobre viagem no tempo, como se isso fosse algo viável. Em ambas as séries, os personagens procuram reescrever o futuro com mudanças do passado que afetarão diretamente o curso da história vivida.

Sendo assim, andei me questionando sobre o que eu faria se eu pudesse voltar no tempo e me encontrar mais nova. Tal reflexão se mescla um pouco com o tema abordado dois sábados atrás, na crônica “A Ignorância Protege”. Isso porque, a partir desses questionamentos sobre viagem no tempo, me peguei pensando o seguinte. Será que, se eu soubesse de antemão tudo que aconteceria comigo ao longo da vida, eu teria tomado as mesmas decisões? Tenho certeza de que sim, com exceção de uma única coisa que, se eu soubesse como seria difícil, talvez não fizesse. E é exatamente nesse ponto que eu pecaria.

Quando adolescente, desde o momento em que entrei no primeiro ano do Ensino Médio, o antigo Científico, já tinha em mente que eu queria fazer um intercâmbio. Queria morar um ano nos Estados Unidos para aprender inglês. Na época, meu inglês era péssimo, resultado de aulas mal cursadas, tanto na escola, quanto nos cursinhos de idiomas que era obrigada a fazer. Na ocasião, acreditava que o método mais fácil e eficiente para aprender inglês era viajar e ficar imersa no estrangeiro.

Comecei a buscar alternativas, pois em todas as escolas de intercâmbio que ia me informar encontrava portas fechadas pelo meu pouquíssimo conhecimento da língua. Nenhuma delas me aceitava e a resposta era sempre a mesma ao receber o resultado da prova que era obrigada a fazer como pré-requisito. Com tantas recusas, a minha obstinação para morar fora passou a ser ainda maior. Queria provar para todas as pessoas que me fechavam portas que, independentemente de saber ou não a língua, o que valia era a determinação e que eu conseguiria alcançar o meu sonho. 

Chegando quase ao limite do prazo para me inscrever e garantir a matrícula em uma escola americana, consegui encontrar uma empresa que me aceitou. Até hoje, tenho meus questionamentos ao método de avaliação de dita companhia e aos motivos pelos quais fui aprovada no teste. Depois da aprovação, veio a alegria ao receber as informações sobre a família que me adotaria pelo próximo ano escolar. Começaram então os preparativos para a viagem, e quando finalmente subi no avião e apertei o cinto de segurança para decolar, uma única palavra veio à minha cabeça. “F#&%@!” 

A animação dos preparativos foi substituída pelo medo, pelo pavor e pela saudade que ainda não tinha o direito de se manifestar. O desespero, pela primeira vez, revelou ser um sentimento selvagem e indócil. Por mais que eu desejasse essa experiência ou que eu tivesse certeza de que aquela fora uma decisão consciente e certeira, meus batimentos cardíacos acelerados e minhas mãos suadas denunciavam as minhas dúvidas. 

Foi o período mais difícil de toda a minha vida. Chegar a uma casa e viver com estranhos, por mais acolhedores que fossem, era desafiador e incômodo. Para piorar o cenário, assim que pisei em solo americano me dei conta de que realmente não sabia absolutamente nada de inglês. Foram semanas e meses de muita solidão, muitas saudades e muita aprendizagem. Somente depois dos seis primeiros meses foi quando eu comecei a aproveitar mais a experiência, por já dominar um pouco a língua. 

São dezenas de histórias vividas. Algumas engraçadas, outras embaraçosas, mas o fato é que esse ano vivido nos Estados Unidos, longe da minha família, com limitações de comunicação e sem internet, foram os ingredientes necessários e fundamentais para a formação da minha personalidade. O saldo da viagem sem dúvida nenhuma foi positivo. E assim como chorei descontroladamente ao subir no avião a caminho dos Estados Unidos, repeti o mesmo pranto no voo de regresso. Mas hoje, quando me lembro de todos os momentos difíceis desse ano de 1992, uma única coisa passa pela minha cabeça. Será que, se eu soubesse o que eu enfrentaria, mesmo assim, eu teria seguido com esse sonho? A minha resposta, com a vivência que tenho hoje, claramente é positiva. 

Fico feliz que viagens no tempo sejam apenas fantasias para o nosso entretenimento, pois se tivesse ido me fazer uma visita no passado e tivesse me contado os detalhes de toda a minha saga “gringa”, talvez a minha resposta aos 16 anos tivesse sido “não”, e essa infeliz decisão teria mudado o curso da minha vida, transformando-me em uma pessoa diferente da que me tornei.

Para concluir, lá em cima desse texto, quando falei que acreditava que “estar imersa no estrangeiro era o método mais fácil e eficiente”, continuo acreditando que sim, essa ainda é a maneira mais eficiente de se aprender outra língua, mas seguramente não é tão fácil assim.

Assista o texto narrado no Youtube. Clique no link abaixo:

3 comentários em “SAGA GRINGA

  1. Muito boa a crônica de hoje. Uma experiência que te fez crescer mto.
    Tdo contado de maneira simples, mostrando a determinação e coragem
    É, quem se acovarda buscando os ideais, talvez leve pela vida, uma grande frustração.
    Está é a lição que passaste
    Parabéns!

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  2. Luciana. Estou pensando que você podería falar olhando sempre para a câmera. É só prender a câmera através de um orifício numa chapa de acrílico e ler o texto escrito na chapa no entorno. Nunca fiz mas pode dar certo! Quem sabe funciona?

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