Um tiro em Paris

Era o mês de junho de 1987, Marta e sua mãe Sofia viajavam há duas semanas pela Europa. As duas já haviam tomado vinho na Toscana, navegado em uma gôndola em Veneza e registrado a famosa foto sustentando a torre de Pisa com um único dedo. Agora se encontravam em seu terceiro dia em Paris, a cidade luz.

Sofia, em seus quase 60 anos, era uma mulher ativa e cheia de vida, mas confessou que já estava se cansando de tanto caminhar. Marta encorajou a mãe, lhe dizendo que faltavam poucos dias e que precisavam aproveitar o passeio. Resolveram entrar na loja da companhia aérea brasileira VARIG, onde poderiam se sentar e aproveitar o ar condicionado para amenizar o intenso calor do verão europeu, além de ler as notícias nos jornais brasileiros que os funcionários disponibilizavam aos seus clientes conterrâneos. Apesar das férias, as duas gostavam de estar bem informadas sobre os acontecimentos no Brasil e no mundo.    

Porém, na manhã seguinte, os europeus e seus visitantes foram surpreendidos pela terrível notícia de um atentado realizado pelo grupo basco ETA, ocorrido na cidade de Barcelona. Um carro bomba com 200 kg de material explosivo havia sido posicionado perto de um centro comercial. A potente explosão resultou na morte de 21 pessoas, deixando ainda 45 feridas. 

Nervosas e sem saber ao certo o que estava acontecendo, mãe e filha resolveram voltar à loja da VARIG para ler as notícias sobre o ato terrorista. Talvez, também conseguissem antecipar o retorno ao Brasil, que estava programado para três dias depois. No caminho, perceberam uma atmosfera estranha no ar. O clima estava tenso, carros de polícia passavam a todos os momentos com suas sirenes ligadas. Marta e Sofia caminhavam o mais rápido que podiam e evitaram o metrô, por imaginarem que poderia haver algum atentado na França também. “Terroristas adoram metrô”, Marta falou para sua mãe. 

Na loja da VARIG, as duas se sentaram e folhearam os jornais em busca de informações. O lugar estava cheio de brasileiros que, assim como elas, procuravam consolo e segurança. Sem conseguir antecipar o voo, elas perceberam que não adiantaria de nada ficarem presas no quarto do hotel por três dias, e se convenceram de que o ataque em Barcelona não afetaria a segurança delas em Paris. 

Saíram da loja e abriram o mapa das ruas da cidade, percebendo que a Basílica de Sacre Coeur estava localizada próxima de onde se encontravam, apenas a alguns poucos quilômetros de distância, então caminharam até lá. Exaustas, se depararam com a escadaria que levava ao topo da colina onde a basílica se encontra. O sol era forte, já se aproximava da hora do almoço, e elas decidiram visitar o templo antes de procurar um bistrô simpático para comer alguma coisa.

Antes de iniciar o calvário, Marta comprou uma coca cola gelada de um vendedor ambulante, que mantinha um ponto de vendas ao pé da escadaria. Sem falar bem francês, ela acabou comprando uma garrafa de 1 litro, e claro que as duas não deram conta de acabar com todo o refrigerante. Marta colocou a garrafa inacabada dentro da mochila que, por questões de segurança, carregava em seu peito.

Elas começaram a subir os 300 degraus e foram necessárias algumas paradas estratégicas para a recuperação do fôlego. Com um ar de vitória, elas conseguiram chegar ao topo e, antes de entrar no santuário, voltaram a tomar um pouco mais o refrigerante que a filha guardava na mochila. 

Uma hora depois elas saíram da igreja e tinham muita fome. Fazia muito calor e era possível sentir o suor escorrendo por suas costas. Começaram a descer a escadaria: “descer é fácil, todo santo ajuda”, falou Sofia. 

Quando já se encontravam quase no final, elas escutaram um barulho alto e abafado. Marta sentiu um impacto forte no peito, e imediatamente levou sua mão ao lugar onde fora atingida. Percebeu que sua camisa estava molhada e perdeu o ar. Com a respiração ofegante e os olhos arregalados ela encarou a mãe, imaginando que esses seriam seus últimos minutos junto à mulher que a trouxera ao mundo. Com medo, teve certeza que; o ataque em Barcelona não havia sido um ato isolado; a ameaça terrorista era real e se encontrava em Paris. Com a respiração arrítmica, falou para a mãe com a mão ainda ao peito. 

“Mãe! Levei um tiro”.

“Como, levou um tiro?!”, Sofia perguntou assustada. 

Ofegante, Marta respondeu: “Não sei, mas senti o impacto e estou ensanguentada. Olhe!”, e mostrou a mão ensopada com o líquido escuro. 

“Mas está doendo?”, Sofia voltou a insistir. 

“Não!”, ela exclamou, aliviada. 

Diante do tolo episódio que acabara de protagonizar, Marta não conseguiu controlar o ataque de riso, ao perceber que havia sido vítima de um atentado causado por uma garrafa de coca cola. Com o sacolejar dos movimentos na descida da colina de Montmartre, o gás do refrigerante quente se expandiu, provocando o estouro da garrafa. O impacto sentido por ela, afinal, era apenas a tampa projetada pela explosão. 

Sem conseguir conter as gargalhadas, elas se sentaram na escadaria e concordaram que o ataque sofrido por Marta era digno dos filmes dos “Três Patetas”.

8 comentários em “Um tiro em Paris

  1. Muito bom! Li correndo até o final para saber o que ia acontecer e então a surpresa! Excelente! Adorei! A descrição do passeio por Paris também está maravilhosa, me senti por lá enquanto lia. Muito bom quando lemos algo que consegue nos transportar para outro lugar!

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  2. Eu e Lelena lemos juntos o conto . Ao final a surpresa . Tivemos um ataque de riso ao imaginar o ocorrido. Sempre penso que são casos reais e fico querendo saber quem são as pessoas envolvidas. Obrigado por enviar. Um abraço.

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