Anjo Alemão

Aos vinte anos, Rosa vivia uma vida agitada, típica de início de carreira. Uma rotina que envolvia trabalho durante o dia e estudo à noite. Como tantos jovens na mesma situação, ela não tinha muito tempo livre, principalmente para se envolver com projetos sociais, mas a verdade é que ela sentia muita falta disso, pois, desde menina, costumava acompanhar a sua família em diferentes instituições beneficentes.

Um dia, um companheiro de trabalho que conhecia a sua história a convidou para conhecer uma fundação no centro da cidade, localizada junto ao Hospital Federal do Rio de Janeiro. Curiosamente, o lugar fora fundado por um imigrante alemão que chegara ao Brasil ainda na década de 1970. 

A fundação se dedicava a auxiliar pacientes que recebiam alta do hospital vizinho, fornecendo medicamentos, alimentos especiais e ajuda psicológica aos próprios pacientes e, em muitos casos, aos seus familiares também. Profissionais da saúde se revezavam voluntariamente para garantir a continuidade do tratamento. A maioria dos pacientes beneficiados eram crianças, com problemas cardiológicos e pulmonares.

Rosa aproveitou o seu horário de almoço para conhecer as instalações da Fundação Reviver. Levava consigo uma sacola com vários medicamentos que havia comprado seguindo a lista enviada dias antes, pelo próprio fundador da instituição.

O local não era longe do seu trabalho, ficava a apenas dois quilômetros de distância, mas o tráfego intenso da hora do almoço resultou em um percurso de 15 minutos. No caminho, enquanto o motorista parava o carro a cada dez metros, ora devido ao excesso de veículos, ora por conta dos pedestres que atravessavam as ruas congestionadas, ela observava as centenas de pessoas caminhando com pressa e se perguntava o porquê de elas correrem tanto?

O táxi a deixou em frente de um casebre azul claro de arquitetura antiga e precária.  Ao pagar a corrida e sair do veículo, sua primeira impressão não foi positiva. Ao entrar no imóvel, o olor de lavanda de um incenso aceso minimizava o cheiro forte de poluição vindo da rua estreita e movimentada.

A casa, do final do século XIX, ficava entre duas outras construções do mesmo período. O seu único acesso limitava a ventilação no interior da propriedade de 180 metros quadrados. As poucas janelas e luminárias prejudicavam a iluminação do local, tornando-o sombrio.

Na parede do lado esquerdo da entrada principal, umas prateleiras mantinham um pequeno estoque de remédios e algumas latas de leite em pó. Ao fundo, um armário trancado guardava os medicamentos mais caros, assim como as latas de leite especial. 

No teto de pé direito alto, dois ventiladores giravam com velocidade, numa tentativa frustrada de amenizar os mais de quarenta graus no interior do imóvel. A todo momento, o som estridente de ambulâncias invadia o espaço e, por poucos segundos, conseguia abafar o barulho dos ruidosos ventiladores. No lado direito da sala, uma escada levava ao segundo andar. 

Bert, o alemão, a recebeu na entrada principal e fez questão de lhe mostrar todas as instalações enquanto contava a história, não só da fundação, mas também sua. 

Ele resumiu a sua biografia e, com um grande sorriso, confessou que foi o amor que o trouxe ao país, ainda na década de 1970, e o manteve por tantos anos aqui. Na época, Bert ensinava alemão em uma universidade em Berlim que oferecia cursos de idiomas para estrangeiros. Uma de suas alunas se chamava Beatriz, uma engenheira brasileira que buscava aprimorar seu alemão, aprendido ainda no primário. Os dois se apaixonaram e, ao final do curso, ela regressou ao Brasil. Guiado pelo coração, ele não tinha alternativa a não ser acompanhá-la.

Ao chegar ao Rio, por vários meses, procurou um emprego como professor, mas as chances eram escassas devido à barreira do idioma, já que ele não falava nada de português. Decepcionado por tantas portas que se fechavam, ele decidiu aplicar parte de seu tempo livre a algo produtivo.

Ele contou que desde pequeno tinha talento para as artes circenses. Habilidade que foi herdada de seu avô materno, que frequentou aulas de teatro logo após retornar dos campos de batalha da primeira guerra mundial. Deprimido por tantas lembranças ruins que a guerra havia gerado, o avô regressou aos palcos, que eram a sua verdadeira paixão, antes de ser forçado a entrar para as tropas nazistas. A mãe de Bert, apesar de nunca ter sido uma artista profissional, também herdara o talento do pai e costumava fazer mímicas enquanto cozinhava, então Bert acabou aprendendo seus trejeitos artísticos. 

Ainda sem perspectiva de emprego, Bert começou a trabalhar como voluntário no Hospital Federal do Rio de Janeiro e, duas vezes por semana, se caracterizava como Dani, um mímico de rosto pintado de branco e com um nariz vermelho de palhaço. Assim ele entrava ao hospital e iluminava a vida das crianças internadas no setor cardíaco. Durante anos, essa foi a sua rotina, e ele adorava passar as tardes fazendo esses meninos e essas meninas sorrirem. Alguns ficavam meses internados e inevitavelmente ele acabava se envolvendo com as famílias. Comemoravam juntos cada conquista, mas também choravam com cada perda. 

Em uma tarde em novembro de 1978, como de costume, Bert chegou ao hospital às duas horas da tarde. Ainda na recepção, ele avistou o menino Jorge e sua mãe, que parecia preocupada. O garoto de dez anos, por fim, recebia alta depois de três meses de internação devido a um transplante de coração.  Razão da alegria, fisicamente já estava preparado para brincar e se divertir como qualquer criança da sua idade: seu novo coração era a garantia de batidas fortes e rítmicas. O problema era que sua mãe não tinha recursos para comprar os medicamentos necessários para continuar o tratamento em casa, e ela sabia que, ao sair do hospital, o Estado já não cuidaria de seu menino.

Sensibilizado, ele decidiu ajudá-los, mas notou que a situação da família não era isolada. Muitas outras passavam por isso também. Angustiado, ele sentiu um chamado, uma necessidade de ajudar mais pessoas. Vivendo no Brasil há cinco anos, sabia que seu destino era ali e havia encontrado mais um motivo para fortalecer suas raízes em terras brasileiras.

Com o pouco dinheiro que ganhara dando aulas particulares, acrescido da ajuda da esposa e de alguns médicos com quem desenvolveu amizade por seu trabalho voluntário, ele conseguiu alugar o casebre em frente ao hospital e iniciar o trabalho de auxílio às famílias desamparadas, convertendo-se em um verdadeiro anjo alemão.

5 comentários em “Anjo Alemão

  1. Sempre que leio um conto sempre penso de onde vêio a inspiração. Em que momento? Em qual fato? Mas então é outra história…

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