Amostra do Livro

Alagoas, 2 de junho de 2009

Os detentos do Presídio de Segurança Máxima de Alagoas, localizado no município de Satuba, eram divididos entre duas facções que lutavam pelo comando do lugar. Uma das facções era o CCA, Comando Central de Alagoas, e a outra o GDE, Guardiões do Estado, originária do Ceará. O procedimento para novos detentos era sempre o mesmo. Ao ingressar na penitenciária, o sujeito era obrigado a definir o lado que apoiaria, e assim, enquanto estivesse no presidio, conseguia proteção e benefícios dependendo do grupo de que fizesse parte. Mas com Hermano foi diferente.

A má fama do bandido havia gerado uma grande expectativa em ambos os grupos, e antes mesmo de passar pelos altos portões de ferro da penitenciária, os líderes das facções já brigavam pela “posse” do ilustre preso. 

O líder do CCA conseguiu vencer seu opositor em uma luta de facas, onde o líder do GDE foi ferido gravemente no abdômen e perdeu a “propriedade” do novato. Isso foi há onze meses, logo após a sua prisão nos arredores da fazenda do coronel Britto. 

Desde que Hermano entrara na penitenciaria para cumprir sua pena, ele elaborava um plano para escapar da cadeia. Logo a ideia chegou aos ouvidos dos líderes da facção, que aproveitaram para alterar o esquema, prometendo ajudá-lo se outros tantos comparsas fossem incluídos na empreitada.

O ano que Hermano passou no presídio foi bastante intenso. Enquanto planejava sua fuga, ele foi condenado a trinta e quatro anos de prisão em regime fechado, depois de um julgamento relâmpago quando tinha apenas quatro meses de cárcere. Seu forte temperamento e sua personalidade psicótica o fizeram se envolver em diversas brigas internas, responsabilizando-se por muitas mortes de bandidos rivais. 

Quando a rebelião se iniciou na noite do dia primeiro de junho, ele estava armado com um facão roubado da cozinha do complexo. A arma seria usada para sua defesa contra bandidos que o haviam jurado de morte, e também para livrá-lo de qualquer obstáculo que o impedisse de atingir o seu objetivo. 

Horas mais tarde, os bandidos conseguiram trancar alguns integrantes da facção rival na área leste do presídio e atearam fogo em colchões. O fogo rapidamente se espalhou, formando imensas labaredas que iluminavam o céu. Agentes penitenciários, certos de que haviam perdido o controle da situação, corriam desesperados tentando escapar da fúria dos bandidos do CCA antes que eles ocupassem o prédio administrativo. 

Do lado de fora do complexo, os policiais que haviam conseguido sair aguardavam reforços enquanto emissoras de televisão e familiares dos detentos chegavam para acompanhar as negociações com os rebelados. 

Hermano e os outros bandidos envolvidos na fuga chegaram à cela 348 do bloco A, onde, nos últimos meses, se revezavam para construir um túnel de pouco mais de 50 metros de comprimento que desembocava do outro lado do muro. O túnel era apertado e os detentos precisavam se arrastar pelo chão. A falta de oxigênio também era um desafio para eles, que saíam do ambiente a ponto de desmaiar, precisando de alguns minutos para recuperar o fôlego.

Enquanto o incêndio se alastrava, mantendo policiais e bombeiros ocupados, um grupo de trinta detentos conseguiu concretizar o plano que levou dez meses para ser executado. 

Do lado de fora do presídio, os fugitivos partiram. Cada um seguiu um destino, e Hermano, sem olhar para trás, correu sozinho em busca de sua liberdade. 

Queria se afastar o máximo que pudesse, pois sabia que prontamente a polícia descobriria a fuga dos trinta presos e iniciaria uma varredura nas imediações. Ele seguiu sua fuga por algumas horas no meio do matagal, até chegar ao município de Pilar. Lá conseguiu roubar algumas roupas que secavam no varal de uma casa simples na periferia da cidade. 

Sem dinheiro, entrou pela porta traseira de um ônibus de onde planejava sair pela mesma porta para não pagar a viagem, e se sentou para descansar do imenso esforço que havia realizado aos seus quarenta e cinco anos de idade. 

Durante o trajeto, deu-se conta de que, no decorrer da sua fuga, pela primeira vez desde que fora preso, havia deixado de pensar na mulher responsável pela sua prisão. Betina havia se tornado seu passatempo predileto e pensar em se vingar dela o ajudou a tolerar os insuportáveis meses de confinamento. 

Hermano era esperto e sabia que para conseguir sobreviver precisaria deixar de lado sua obsessão por Betina e sumir do mapa. Da mesma maneira que Juan David Perez fugiu da Colômbia 17 anos antes, tornando-se o terrível capanga Hermano, ele, agora, se via obrigado a fazer o caminho de volta. Precisava deixar o Brasil antes que a polícia o capturasse, mas a incerteza do que encontraria em sua terra natal o fez buscar outro destino. 


Capítulo 1 – Boda

Ilhas Maurício, final de abril de 2009

Corria velozmente em uma mata fechada. Seguia com toda a velocidade que minhas pernas podiam alcançar, mas mesmo assim não parecia ser suficientemente rápido. A cada segundo, Hermano chegava mais perto de mim e mais cedo ou mais tarde acabaria me alcançando. 

Eu corria e chorava como uma presa frustrada, capaz de imaginar meu trágico destino. Me desviava dos grossos caules da densa floresta que não tinha saída. As árvores eram muito altas, e suas encorpadas copas dificultavam a entrada de luz solar. 

Tentava desbravar a vegetação, típica das florestas tropicais, que feria minhas pernas e braços, arranhando minha pele. Corria descalça, a pressa não me permitiu colocar meus sapatos para fugir, e as raízes externas das plantas, junto com pedras e rígidos gravetos, perfuravam meus pés provocando dores excruciantes.

Enquanto corria, olhava para trás e percebia a presença cada vez mais próxima de meu perseguidor. A cada passo meu, ele dava dois, e rapidamente ia se aproximando; cada vez mais, e mais, e mais…

— Betina! — exclamou Bruno com um olhar preocupado, enquanto sacudia meus ombros para me despertar.

Ainda com os olhos cheios de lágrimas e com o coração acelerado, me sentei. 

— Mais um pesadelo? — Ele me perguntou. 

Esfreguei os olhos e respirei fundo, tentando acalmar meus batimentos cardíacos enquanto movia minha cabeça para baixo e para cima, respondendo sua pergunta. Ele me abraçou com força.   

— Seus pesadelos estão muito frequentes, pequena! — Ele falou preocupado.

— Sim, eu sei — respondi.

— A mesma coisa? A perseguição na floresta? — Ele me perguntou, já conhecendo todos os detalhes desses sonhos perturbadores. 

— Sim — respondi desanimada. 

— Daria tudo para apagar da sua memória tudo que você presenciou. Não imaginava que você seria testemunha de tanta brutalidade daquele homem. Você precisa procurar ajuda! Você sabe disso, não é? — falou enquanto me envolvia em seus braços.

Concordei, enquanto enterrava meu rosto em seu peito.

Seu corpo forte e quente era a única coisa que me acalmava quando tinha pesadelos com Hermano. Ele havia me jurado de morte ao ser capturado por Mari, minha prima, delegada da Polícia Federal, responsável pela execução da operação batizada de Lei Aurea. As fotos que consegui enviar para ela eram provas claras dos abusos físicos e emocionais cometidos por ele contra os trabalhadores mantidos em regime de escravidão na Fazenda Ponte da Esperança.

— Venha! — Ele falou, afastando seu corpo do meu e me trazendo ao presente. — O café da manhã está servido e o dia está lindo lá fora. 

— Já vou, tomarei uma chuveirada e subo.

Ele partiu, e aos poucos foi desaparecendo na estreita escada que levava até a popa da embarcação. 

Deixei a água fria escorrer por minha cabeça, e com os olhos fechados tentava entender por que e quando os pesadelos com Hermano haviam se intensificado. As persistentes imagens de Hermano violando um rapaz nos fundos da fazenda se tornavam cada dia mais presentes nas minhas lembranças e começavam a me desestabilizar emocionalmente.

Saí do banho e coloquei um maiô branco com flores violeta, uma camisa de linho na altura das coxas e um chapéu panamenho. Estava pronta para um café preto e sentia uma enorme fome que fazia meu estômago tronar.   

Algumas horas mais tarde, enquanto relaxava na proa da embarcação, Bruno terminava uma ligação que havia feito a seu filho. Hoje era a final do campeonato de rúgbi do qual Mark participava com o time da escola e Bruno estava pesaroso por não poder acompanhar esse momento tão importante com ele. Com apenas oito anos de idade, Mark já havia se tornado uma estrela do time, e seu futuro já estava sendo visualizado para representar um importante time juvenil londrino em poucos anos.

Enquanto o aguardava trazer notícias sobre a partida, observava o mar azul turquesa que passava rapidamente por debaixo do catamarã. Uma leve espuma branca se formava na lateral da embarcação devido à velocidade em que navegávamos. O barco rasgava os ventos no oceano Índico na parte sul das Ilhas Maurício e a forte brisa circundava meu corpo, camuflando a intensidade do sol que bronzeava a minha pele.  

Na embarcação, além de nós, estavam dois tripulantes e um chef italiano especializado em cozinha mediterrânea. Já podíamos sentir o delicioso aroma que vinha da parte traseira do barco, onde ele preparava nosso almoço: um talharim com mariscos recém-pescados naquela mesma manhã.    

Bruno aproximou-se segurando duas taças de champanhe bem geladas, me entregou uma delas e se sentou atrás de mim, entrelaçando suas pernas ao redor do meu quadril. Eu encostei minha cabeça em seu peito e contemplamos juntos a linda paisagem enquanto ele, muito eufórico, me contava as novidade sobre a partida que seu filho ia disputar em algumas horas. Mark era seu único filho e ele tinha um orgulho enorme do menino. 

— No que está pensando? — Ele me perguntou.

— Em Beto — respondi. 

Daqui a duas semanas estaremos no Rio para a missa de primeiro ano de seu falecimento. Esse ainda era um assunto muito delicado para Bruno. Ele se culpava por sua morte — achava que deveria ter sido mais insistente para que voltasse para o Rio assim que suspeitara o que se passava na fazenda. Mas Beto era jovem, impetuoso e cabeça dura, viu que teria uma boa oportunidade para alavancar sua carreira e decidiu acompanhá-lo na investigação.

— Eu sei que esse tema ainda é muito doloroso para você, mas você precisa parar de se culpar. Vocês sofreram um atentado. Não foi sua culpa. 

Ele me abraçou forte e eu me virei para estar de frente para ele. 

— Não vamos estragar nosso último dia de férias. Temos que aproveitar cada minuto desse paraíso. Afinal, isso é ou não é uma lua de mel? — perguntei enquanto roçava meu nariz contra o seu. 

Ficamos abraçados, curtindo aquela tarde deliciosa. O vento, o Sol e o mar formavam o cenário perfeito para a nossa lua de mel. Confesso que tenho dúvidas se a cerimônia de casamento de dias atrás valeria oficialmente. De acordo com o juiz que a realizou, o processo de reconhecimento, tanto no cartório inglês quanto na embaixada do Brasil, em Londres, seria muito simples.

O casamento não foi planejado; foi simples e espontâneo, sem o testemunho de familiares ou amigos. Havíamos ido a esse paraíso para passar merecidas férias que estavam planejadas desde os eventos no Brasil no ano anterior, mas que tiveram que se postergadas pelas nossas agendas, que ficaram comprometidas devido à repercussão de nosso trabalho em Alagoas. 

A pequena cerimônia civil, realizada dias antes, foi organizada pelo hotel One & Only Le Saint Géran, localizado no lado leste da ilha. O altar junto à praia estava decorado com perfumados lírios brancos e, quando cheguei, Bruno já me aguardava junto ao juiz que oficializou nossa união. Meu vestido? Foi comprado na boutique do hotel, mas parecia uma elegante roupa de praia que me caiu como uma luva ao ser transformado em um despojado vestido de noivas. Era de linho branco, com o comprimento quase na altura dos calcanhares. Coloquei uma rosa por trás do cabelo, que estava preso para o alto com um coque frouxo. Uma flor similar foi presa a uma fita de cetim lilás que rodeava minha cintura. Esse foi o toque especial da vendedora quando descobriu que usaria o vestido para me casar naquela mesma tarde. 

Ao caminhar sem sapatos os 20 metros do tapete que levava até o altar, Bruno me olhava apaixonado, com seus olhos cor de mel acompanhando meus movimentos, ao mesmo tempo em que eu tentava camuflar meu nervosismo. 

O barulho das ondas do mar quebrando na areia da praia criava um arranjo especial para a música que harmonizava o ambiente enquanto pronunciávamos oficialmente a palavra “sim”. 

— Pode beijar a noiva — disse o juiz, seguido por aplausos de alguns tantos hóspedes que a uma curta distância testemunhavam, ainda em seus trajes de banho, a nossa felicidade. 


capítulo 2 – milagre

Rio de Janeiro, maio de 2009

Eram 11h da manhã quando ingressamos na igreja São José. O centro do Rio de Janeiro estava bastante tranquilo por ser final de semana, cenário bem diferente do caótico trânsito que se forma todos os dias úteis nas movimentadas ruas da cidade. 

Eu vestia roupas escuras em sinal de luto. Era um domingo, 31 de maio, exatamente um ano depois da trágica emboscada preparada pelo coronel Britto que resultou no falecimento de Beto. 

Entramos na igreja de mãos dadas. Ele estava visivelmente mais abalado do que eu, afinal, eles sofreram juntos o atentado e Bruno ainda se culpava pelo ocorrido.

Por mais que ele tivesse aconselhado Beto a não se envolver, o fotógrafo não quis abandoná-lo nas investigações sobre a exploração de mão de obra escrava na Fazenda Ponte da Esperança. Como todo jovem em início de carreira, ele vislumbrava uma oportunidade importante para seu desenvolvimento profissional. 

Avistamos mais a frente, do lado direito da igreja, Gustavo e Marta, e nos juntamos a eles.  

Não os via há quase um ano, quando deixei a revista de Gustavo para trabalhar em Londres com Bruno, mas claro que constantemente nos falávamos por telefone. Gustavo já não era meu chefe, mas continuava sendo um grande amigo e conselheiro. 

Nos abraçamos fortemente e trocamos algumas palavras antes da missa começar. 

A igreja estava cheia. Muitos familiares e amigos de Beto foram apoiar seus pais e irmãos, que se mostravam muito emocionados. 

Depois da homília, a mãe de Beto se dirigiu ao altar e fez uma linda homenagem ao filho. Suas palavras foram cativantes e Bruno me entregou um lenço de papel enquanto me abraçava. 

Quando a missa finalizou, começamos a caminhar para a saída e por uma fração de segundos tive a impressão de ver João saindo da igreja. Tentei acelerar o passo, mas a aglomeração de gente me impediu que o fizesse. Do lado de fora da igreja, enquanto nos despedíamos de Gustavo e Marta, busquei visualizar João para cumprimentá-lo, mas não consegui encontrá-lo.

Desde que havia chegado ao Rio, três dias antes, fiquei muito envolvida em eventos familiares e na expectativa da missa de Beto, que era o principal motivo para estarmos aqui. Mas confesso que vê-lo, mesmo que muito rápido, aqueceu o meu coração. 

Na manhã seguinte, Bruno arrumava sua pequena mala para retornar à Londres. Precisava voltar com urgência, pois estava no meio de um trabalho importante sobre a última reunião do G20 que havia ocorrido em Londres no mês anterior. Bruno trabalhava em uma reportagem especial sobre o impacto que geraria a injeção de cinco bilhões de dólares na economia mundial, medida que havia sido proposta na reunião do grupo para reativar o crescimento econômico depois do início da crise financeira em 2008. 

O voo 447 da Air France sairia do Rio de Janeiro naquela mesma noite, rumo a Paris, e de lá ele tomaria uma conexão para Londres na manhã seguinte. 

Ele aguardava com ansiedade uma confirmação do escritório de Londres sobre a alteração de seu voo da Air France para um direto a Londres pela British Airways. Um voo sem escalas ajudaria muito sua apertada agenda de trabalho. 

Eu ficaria até o final da semana para aproveitar um pouco mais a companhia de minha família, que não via há um ano. Além disso, tinha decidido alugar meu apartamento, que estava fechado desde minha mudança para Londres, e eu precisava desocupá-lo. Havia muitas coisas para me desfazer, e sabia que pelos próximos três ou quatro dias estaria confinada no apartamento, acompanhada de um bom vinho e uma boa música enquanto me dedicaria a rasgar papeis e encaixotar o que precisaria ser guardado. 

Um pouco antes de sair para o aeroporto, Bruno recebeu a confirmação de que sua viagem havia sido transferida para um voo da British, assim como ele queria — mas precisaria correr, pois esse voo saía uma hora antes do que o voo da Air France e, caso não chegasse a tempo, seria obrigado a embarcar para Paris. Bruno partiu apressado e eu aproveitei para jantar com minha mãe e irmãos. 

Na manhã seguinte, havia muita coisa para arrumar, mas antes, fui correr um pouco na praia de Ipanema. O sol brilhava forte, porem a temperatura de final de outono amenizava a sensação térmica. 

Quando voltava para casa, ainda caminhando pelas ruas do bairro, notei que em diversas lojas do comercio local, que mantinham seus televisores ligados, repórteres de diferentes emissoras transmitiam a mesma notícia. Curiosa com o que se passava, apertei o passo para chegar rápido em casa e me deparei com a notícia sobre o trágico acidente aéreo com o voo 447 da Air France. As equipes de busca haviam encontrado os destroços perto da ilha de Fernando de Noronha, sem sinais de sobreviventes, e Bruno poderia estar entre as vítimas. Ele saíra de casa no dia anterior com a confirmação da alteração do voo, mas nós não tínhamos nos falado depois disso, e eu não tinha a certeza de que ele realmente havia embarcado no voo da British Airways.

Em choque e com o coração disparado, corri para o telefone para tentar me comunicar com ele, mas, como previsto, a chamada foi direto para a caixa postal. Tentei falar com o escritório em Londres e apesar de todos estarem acompanhando o trágico acidente, ninguém tinha notícias de Bruno. Richard me tranquilizava dizendo que tentaria alguma informação com alguém da British Airways — ele tinha muitos conhecidos que trabalhavam na companhia e alguém poderia conseguir a lista de passageiros do voo da noite anterior para confirmar a assistência dele, mas no fundo senti que ele também estava muito preocupado com a possibilidade de Bruno estar entre as vítimas do voo 447. 

Lágrimas de desespero corriam por meu rosto e não havia nada que eu pudesse fazer até ter a confirmação de que Bruno estava bem. 

Com o telefone ainda em minha mão, disquei o número de João e pensei duas vezes antes de apertar a tecla discar. Decidi por não fazê-lo e retornei o aparelho ao seu lugar.   


Capítulo 3 – desvio de olhar

Rio de Janeiro, quarta-feira, 3 de junho de 2009

Tive muita dificuldade em dormir na noite seguinte ao acidente aéreo da Air France, que deixou 228 mortos e que, por milagre, não havia matado Bruno. 

Quando pousou em segurança e soube do acidente do qual escapou, ligou imediatamente para me tranquilizar. Passei as horas seguintes tentando antecipar meu retorno para Londres, que estava planejado para sexta-feira, mas tudo ainda era muito confuso; voos cancelados, com atrasos, e as solicitações para alterações de data de voo estavam com prioridade zero para as companhias aéreas. 

Tomei um comprimido para me ajudar a relaxar. Tinha insônia, já eram duas e meia da manhã e mesmo me sentindo exausta, ainda não havia conseguido dormir. Em algum momento entre quatro e quatro e meia da manhã, finalmente adormeci.

Acordei na manhã seguinte, assustada e com o coração acelerado. Foi mais uma noite tendo pesadelos com Hermano, o mesmo tipo de sonho, que já tinha roteiro e marcação de personagens quadro a quadro. 

Ainda não tinha tido tempo de iniciar as sessões de terapia, e sabia que precisava fazer o quanto antes, pois desde que compráramos as passagens para o Rio para assistir à missa de Beto, os impertinentes sonhos com Hermano haviam se intensificado com uma frequência quase que semanal. 

Levantei, tomei um banho e preparei um café. O dia estava lindo lá fora. Abri as janelas e, segurando a xícara quente, deixei os raios de sol entrarem pela sala do meu apartamento, tomando minha dose de vitamina D. Apoiada ao parapeito da janela do quinto andar, apreciava o tapete verde produzido pelas copas das árvores da rua. Não me cansava dessa vista e sentia muitas saudades dela.

Bruno me ligou entre um compromisso e outro para me dar bom dia. Ficamos ao telefone por alguns minutos, até sermos interrompidos pela secretária da redação chamando-o para a reunião. Despedimo-nos e me sentei no chão da sala com uma gigantesca papelada e algumas caixas para organizar. “Quanta coisa acumulada ao longo dos anos!” — pensei.

As horas passavam e havia conseguido me desfazer de boa parte dos papéis. Olhei para outras duas caixas com desânimo. Antes de abri-las, fiz mais uma xícara de café para poder enfrentar o que quer que estivesse dentro delas, e para minha surpresa, na primeira caixa encontrei uma série de fotos minhas com João, do tempo em que vivíamos juntos. Foi um nocaute nostálgico. O que fazer com aquilo? Não poderia guardar, afinal, como justificar uma coisa dessas? Mas jogar fora? Isso era a história de minha vida, fazia parte de meu passado e não podia simplesmente jogar no lixo. Fechei a caixa e a separei na mesa de canto. Levaria para a casa de minha mãe e pediria para que ela guardasse para mim. 

No final da tarde, depois de ter falado com Bruno mais uma vez, recebi um a ligação que me fez perder o chão. 

Mari, minha prima, que no ano anterior havia prendido Hermano, me avisava que o protagonista de meus pesadelos havia fugido da prisão depois de uma rebelião que acontecera na madrugada daquele mesmo dia. Ele e mais outros tantos detentos haviam conseguido fugir e a polícia trabalhava na busca e captura deles. Já haviam conseguido recuperar vinte e dois presos, mas o restante ainda estava foragido. 

Fiquei petrificada ao saber que o homem responsável pelos meus pesadelos estava à solta. Tentei falar com Bruno, mas não consegui, a chamada era transferida diretamente para sua caixa postal e deixei um recado para que me ligasse assim que pudesse. Queria partir logo, mas meu voo seria somente em dois dias. Precisava me esconder. Estava apavorada. 

Algumas horas depois, ainda sem ter conseguido falar com Bruno, o interfone de meu apartamento tocou e o porteiro avisou que o João estava na portaria. 

Minhas pernas tremeram. Estava segura de que minha relação com Bruno era madura, sabia que eu o amava e que queria passar minha vida com ele. Se no passado houve alguma dúvida a respeito dos meus sentimentos, essa questão havia sido definitivamente esclarecida no momento em que soube do atentado que o deixou em coma no ano anterior. Pensar que poderia tê-lo perdido me assolava o coração. 

Mas… havia algo inexplicável entre mim e João. Uma combinação de amor, cumplicidade e gratidão que me unia a ele. Uma relação de amparo que nutria minha alma, um sentimento que ninguém nunca entenderia. 

João estivera intensamente presente nos momentos mais difíceis da minha vida. Além de ter cuidado pessoalmente da recuperação de Bruno, ele também me assistiu com a enfermidade de meu pai, e com sua intuição médica conseguiu convencê-lo de que alguma coisa errada estava acontecendo. Depois que descobriram o câncer, foi ele quem nos apoiou clínica e emocionalmente. 

Lembro claramente que nessa época nossa relação já não estava muito boa, as brigas e desentendimentos já nos rondavam por algum tempo. Mas quando meu pai recebeu seu diagnóstico, João deixou todas as nossas diferenças de lado e focou em nos ajudar. 

Minha gratidão por ele seria eterna, assim como meu carinho. Com a voz trêmula autorizei sua subida, e em menos de dois minutos a campainha tocou.

Com passos curtos e pausados fui me aproximando lentamente da entrada, tentando formular as primeiras palavras que iria dizer. Nada vinha à minha mente, e ao abrir a porta e vê-lo, apenas lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto avançamos para nos abraçar. 

Com a porta ainda aberta, eu chorava e soluçava em seu ombro. Ele me sustentava com força, pois sentia que minhas pernas estavam perdendo força, e sem entender o que estava acontecendo tentava pronunciar algumas palavras:

– O que foi, Betina? O que está acontecendo?

Não conseguia parar de chorar. Era um choro reprimido por meses de angústia que sentia a respeito de Hermano. Era um choro de medo, de ansiedade, de pavor.

João me afastou de seu peito, fechou a porta e me levou para dentro de casa. Deixou a garrafa de vinho que havia trazido no aparador à esquerda da entrada principal e me acomodou no sofá. Foi até a cozinha e me trouxe um copo de água, sentou ao meu lado e me deu tempo suficiente para me acalmar.

Não sabia o que se passava por sua cabeça e me preocupei ao me lembrar de suas palavras quando nos encontramos pela última vez havia quase um ano, quando fui ao seu consultório me despedir. Nesse dia, antes de sair, ele segurou minha mão e, com o olhar fixo nos meus, falou:

“Betina, quero que saiba que, enquanto eu te vir assim, feliz, vou respeitar a sua decisão. Mas…, se perceber que você está sofrendo, não hesitarei em te reconquistar, compreendido?”

Antes que ele interpretasse meu sofrimento da maneira equivocada, falei:

— Ele está foragido!

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