Hora da Xepa – Capítulo Final – A Hora da Verdade

13 meses antes…

Rogério Neves deixou a banca do jogo do bicho apavorado. Havia levando uma dura do gerente pela dívida que havia acumulado nas últimas semanas, quando fora atingido por uma onda de azar, e já havia perdido todas as suas reservas financeiras. 

Durante aqueles dias nebulosos, propositalmente, o gerente da banca fazia vista grossa e lhe dava crédito para que não perdesse a “boquinha da vez”, mas, sem perceber, Rogério ficava cada vez mais encalacrado, até receber o ultimato. 

O gerente da banca, um homem de confiança do bicheiro da região do Grajaú, que era braço direito do chefão, Castor de Andrade, não aceitou as desculpas esfarrapadas de Rogério, que havia alegado gastos extras e inesperados com a saúde de um dos filhos. Sem empatia, o contraventor informou a Rogério que ele tinha 24 horas para saldar a sua dívida. Caso contrário, a coisa ficaria feia para o seu lado. 

Com medo, Rogério procurou um agiota. Um dos muitos que ofereciam a solução dos problemas financeiros em frases tentadoras impressas em réplicas de notas de Cruzeiros, que eram distribuídas, sem constrangimento, pelas ruas da cidade. 

Com o dinheiro na mão, no final daquele mesmo dia, ele pôde pagar a dívida com o jogo do bicho, mas a verdade é que só havia transferido o seu problema e o postergado para o mês subsequente. 

Ao final do prazo, ele sabia que teria que encarar a ira de um malfeitor que se camuflava por atrás de um terno maltrapilho, e esse bandido era ainda mais perigoso que seu velho conhecido da banca do bicho. Depois de alguns dias de negociação e de adiamento do prazo, Rogério chegou à linha tênue de seus valores e crenças e, em uma ação desesperada, atravessou a barreira da ética, da qual não havia caminho de volta.

O agiota ameaçava não somente ele, mas os seus filhos também. Em pouco tempo, havia levantado a rotina das três crianças e sabia todos os passos da família. A única solução para protegê-los era compartilhar com o bandido um assunto sigiloso, mas promissor, o qual vinha pesquisando junto com outros três cientistas da fundação na qual trabalhava. 

***

Rogério concordou em falar tudo o que sabia, mas só abriu a boca dois dias depois da sua prisão, quando confirmou que seus filhos estavam em segurança e protegidos pela polícia. 

Acompanhado de seu advogado, ele não se deteve e contou tudo o que sabia aos inspetores Iolanda e Carlos, que o interrogavam. Falou como se envolveu com os bandidos, que em pouco tempo se apoderaram da técnica de produzir o pó de escopolamina, substância que era extraída de plantas do gênero Datura, popularmente conhecidas como estramônio e lírio. 

Em seu depoimento, ele confirmou o acordo que fizera com o agiota. Na época, assim que contou ao homem que não podia pagar a dívida, prometeu que poderia ajudá-lo a ganhar muito dinheiro, e o contraventor encheu-se de expectativas escutando com atenção o poder da nova droga. Disse, também, que havia se envolvido na execução de sete golpes, todos na zona norte da cidade. Mas, assim que conseguiu quitar a dívida que tinha, caiu fora. 

Por mais que quisesse esquecer o seu passado criminoso, os bandidos faziam questão de lembrá-lo da promessa que fizera de manter a boca fechada. Para isso, enviavam com frequência fotos dos filhos em suas atividades rotineiras. 

Sobre os golpes de que confessara ter participado, Iolanda e Carlos só sabiam dos do Grajaú e da Tijuca; os outros cinco não haviam sido denunciados pelas vítimas, pelos motivos que os detetives já conheciam. 

⏤ Como as vítimas eram dopadas? ⏤ Iolanda perguntou.   

⏤ O pó de escopolamina não tem sabor nem cheiro, além de ter um efeito imediato. O planejamento de como atacar as vítimas foi todo feito pelo agiota. Eu não tive nada a ver com isso. Só forneci as informações técnicas de como isolar a droga e de como ela atuava no organismo de quem a consumia. Mas soube que eles misturavam em água com açúcar e a injetavam em melancias que eram servidas de amostra na feira. Até onde sei, o agiota arrumou um comparsa que é dono de uma barraca de melancia que roda de feira em feira pela cidade. 

⏤ Você tem os nomes dessas pessoas? ⏤ Carlos perguntou.

⏤ Só do agiota, o feirante eu não sei quem é. ⏤ Rogério respondeu.

Depois de finalizar o interrogatório, Iolanda e Carlos passaram vários dias investigando os suspeitos. Então, com uma operação que envolveu dezenas de policiais de diversas delegacias, eles conseguiram prender o agiota, o feirante e alguns outros comparsas, inclusive o homem que era designado a abordar as vítimas quando já drogadas. Esse sujeito foi reconhecido por dona Margarida, a mulher que por sorte teve a sua trajetória cruzada com a da inspetora Iolanda Braga, que nunca duvidou da sua história. 

No final do expediente de uma quarta-feira, depois de ter concluído os trabalhos burocráticos e de ter participado de coletivas de imprensa, Iolanda deixou a delegacia em direção à sua casa. Mas, no caminho, passou em uma lanchonete árabe na Rua Figueiredo Magalhães, a fim de abastecer o freezercom esfirras e quibes para os dias em que tinha preguiça de cozinhar. 

Sentia-se exausta, mas ao mesmo tempo realizada. Há muito tempo não trabalhava em uma investigação tão complicada quanto aquela. Naquela noite, Iolanda poderia dormir em paz, mas paz era algo que ela não tinha desde que havia reencontrado Carlos e começado a trabalhar junto com ele. 

Desde a manhã da prisão de Rogério Neves, eles só pensavam em trabalhar e finalizar aquela investigação, que já se arrastava por semanas. Agora que o caso havia sido concluído, ela lembrou-se da promessa que haviam feito em sua casa. Prometeram que conversariam sobre seus sentimentos quando esse caso fosse finalizado. Mas muitos dias haviam passado, e ela tinha esperanças de que o assunto tivesse se perdido com o tempo.

Horas mais tarde, vestindo uma camisola fresca, ela rolava de um lado para o outro da cama e, toda vez que o fazia, seu gato Pingo era obrigado a se ajeitar, mudando de posição. O ventilador no canto do quarto não aliviava o calor excessivo que sentia. Frustrada, ela sentou na cama e bufou com irritação. Olhou para o relógio na mesinha de cabeceira, que marcava 23:32. Acendeu a luz do quarto e pulou da cama. Seus passos foram seguidos por Pingo, que cambaleou lentamente atrás dela. 

Iolanda foi à cozinha, tomou uma água gelada e, apoiada na bancada da pia. só pensava em uma coisa, enquanto Pingo ronronava no alto do banco à sua frente. 

Em um súbito de coragem, Iolanda deixou o copo sobre a pia e rumou ao quarto, quase correndo. Não queria pensar duas vezes sobre a decisão que havia tomado. Arrumou-se e saiu de casa apressada. Chegou à portaria do prédio de Carlos um pouco depois da meia noite, mas não pensou em quão tarde era, afinal policiais estavam acostumados a viver vidas desregradas. 

Dessa vez, ao ser anunciada, não houve trote dizendo que ele estava acompanhado e pelado. Ao contrário, a subida foi autorizada de imediato, dando a impressão de que ele ansiava pela sua visita. 

Iolanda entrou no elevador, que já estava estacionado no térreo e que morosamente a levou ao sexto piso. Ao chegar ao hall de acesso aos apartamentos, ela deparou-se com Carlos, respaldado na porta de seu lar, esperando por ela. 

Eles se observaram em silêncio por vários segundos. Carlos vestia um short de ginástica e estava sem camisa. Ao encará-lo, Iolanda percebia o seu sangue em ebulição e, ao notar o desejo que sentia pelo homem parado à sua frente, seu rosto corou. Por fim, ela quebrou o silêncio, dizendo:

⏤ Eu não sei por que estou aqui.

Antes mesmo que ela terminasse a frase, Carlos avançou em sua direção com pressa, envolveu sua cintura e a beijou com sede.      

3 comentários em “Hora da Xepa – Capítulo Final – A Hora da Verdade

  1. Ótimo, Lu! Adorei! Perfeito! Pronto para publicação, não acrescentaria nada que pudesse ser mudado para melhor. Parabéns! Bjs

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