Hora da Xepa – Capítulo 10 – Jogo do Bicho

Duas semanas haviam passado desde a visita que fizeram à Fundação Oswaldo Cruz. Naquele dia, conseguiram os nomes dos quatro cientistas que trabalhavam para descobrir mais sobre os estudos do pesquisador alemão Albert Ladernburg.

Iolanda e Carlos investigavam minuciosamente os integrantes da equipe e vinham descobrindo fatos curiosos a respeito deles. Na tarde de quinta-feira, por fim, sentiam que a investigação tomava um rumo interessante para o desfecho do caso. Ao menos era o que os dois sentiam. 

Encontraram evidências de que Rogério Neves, que integrava a equipe há quase dois anos, poderia ser o responsável por compartilhar dados confidenciais dos efeitos e do uso da escopolamina isolada com contraventores. Isso porque ele vinha se afogando em dívidas com um agiota, para cobrir o passivo que, há tempos, vinha acumulando na banca do jogo do bicho na região do Grajaú, onde vivia. 

Rogério era um homem de 46 anos, divorciado e pai de três filhos. Era um profissional habilidoso e respeitado pelos colegas da fundação, em que trabalhava há 15 anos. Mas o que ninguém sabia era que ele, desde a sua separação, há três anos, buscava encontrar conforto emocional no jogo. 

Após a aprovação do delegado Cardoso, Iolanda e Carlos correram para conseguir, ainda naquela tarde, um mandado de prisão preventiva e outro de busca e apreensão, que seriam usados no dia seguinte, quando amanheceriam na porta da casa do pesquisador. 

Na noite anterior à ação policial, Iolanda jantava uma lasanha que havia pedido do restaurante La Mole. Tomava uma Coca-Cola e, sobre a mesa de jantar, mantinha aberto o jornal do dia.

Levava inconscientemente o talher a boca. Mastigava e engolia a comida sem notar o que estava fazendo. Passava os olhos pelas letras miúdas do jornal e, por mais que sua vista seguisse o percurso natural da leitura, sua mente não assimilava absolutamente nada, precisando retornar dois ou três parágrafos para confirmar o que havia, supostamente, acabado de ler. 

A leitura se embaralhava com a música Who Can It Be Now?, que escutava. O álbum da banda australiana Men at Work era um dos mais tocados ultimamente em sua vitrola. A inspetora era fascinada pela voz suave de Colin Hay e, sempre que podia, fechava os olhos para escutá-lo como se fosse uma espécie de meditação.   

Diferentemente do costume, naquela noite ela mantinha os olhos abertos, e um único pensamento passava pela sua cabeça, Carlos. Desde que tivera a desconfortável conversa com o delegado Cardoso, Iolanda pensava sobre sua vida. Ela já havia aceitado que sentia uma imensa atração por ele e tudo levava a crer que esse sentimento era recíproco. Mas, desde que lhe dera uma dura patada quando estavam a caminho da Fundação Oswaldo Cruz, duas semanas antes, ele mantinha distância. E ela, aproveitando o fato de não saber lidar com as circunstâncias, aproveitou a chance para se distanciar dele também. 

Mas a verdade é que aquela situação a machucava. Ela vinha tentando lutar contra seu desejo, mas sentia que, a cada dia que passava, isso era mais difícil. Sua razão dizia para ela se manter firme em sua decisão. Foram anos dedicados à corporação, anos dedicados à construção da imagem de uma mulher forte e inabalável, mas que ela mesmo duvidava ser real.

 Antes de deitar, ela foi ao aparelho telefônico. Retirou o fone do gancho e discou lentamente os sete números da residência de Carlos, os quais já sabia de cor. 

Pensava no que diria. Qual seria a desculpa esfarrapada para ligar àquela hora da noite? Mas o que ela realmente precisava era escutar a sua voz. Sentia falta das conversas corriqueiras, da sua risada frouxa, das brincadeiras fora de hora, sentia falta dele por completo. Foram precisos três toques para que Carlos atendesse a chamada, e, com a voz firme, porém afetuosa, ele disse “alô”.  

Imediatamente, as pernas de Iolanda perderam forças, enquanto seu estômago revirava como se estivesse descendo uma montanha-russa. Perguntava-se se ele perceberia que ela não tinha nenhum motivo para chamá-lo àquela hora. Se ele saberia que a única razão pela qual ela tinha ligado era escutar a sua voz para poder dormir. 

⏤ Oi, Carlos. Sou eu! ⏤ Ela respondeu com a voz trêmula, com receio de ser pega em flagrante por sua infantilidade. 

Iolanda sentiu uma certa tensão solta no ar, ou talvez esse sentimento fosse fruto da sua imaginação, tentando boicotá-la.

⏤ Fala, Iolanda, beleza! Aconteceu alguma coisa com a operação?

⏤ Não! Nada. Desculpa a hora, só liguei porque estou folheando alguns documentos da investigação… ⏤ nesse momento, ela olhou para a mesa de jantar e viu o jornal ainda espalhado sobre a mesa ⏤ e senti falta daquelas fotos que tiramos do Rogério na banca do jogo. Aquelas em que ele aparece discutindo com o gerente do ponto. Sabe quais? ⏤ Ela disse e ponderou se havia sido suficientemente convincente para que ele acreditasse nela.

⏤ Não, Iolanda, não estão comigo. Devem ter ficado no fichário com o resto dos documentos. Você quer que eu passe lá amanhã, antes de te pegar em casa?

Apesar de simpático, Carlos mantinha a mesma distância dos últimos dias. Há tempos deixara de chamá-la de parceira, tratando-a somente pelo nome.

⏤ Não! Não precisa. Deixa para lá. Eu vejo isso depois, quando voltarmos com Rogério para a delegacia. Muito obrigada de qualquer maneira.

⏤ Iolanda, é tarde. Está tudo certo para a operação. Não existem cabos soltos. Vai dormir, porque vou passar aí para te pegar antes das cinco. 

⏤ Sim, eu sei. Já estou indo. Obrigada novamente, Carlos. 

Iolanda despediu-se e, antes de levar o aparelho ao gancho, ouviu-o falar com a voz aveludada.

⏤ Inspetora! Você pode me fazer um favor? Quando se encontrar novamente com a minha parceira, avisa que estou sentindo a sua falta.  

Iolanda engoliu em seco. Não esperava escutar aquelas palavras. Seus olhos se umedeceram e teve vontade de dizer que também sentia a falta dele, que queria recuperar a cumplicidade que tiveram no passado. Queria contar-lhe os motivos que a levaram a se afastar de forma tão repentina. Mas, em vez disso, desligou o telefone sem pronunciar uma única palavra. 

Na madrugada seguinte, Iolanda acordou ainda zonza de sono. Quase não havia dormido e, durante o pouco sono que conseguiu, sonhou todo o tempo com Carlos. Mas, em seu sonho, ele era o golpista de Copacabana, que ela precisava capturar. 

Tomou uma chuveirada. Vestiu-se com seu uniforme negro da Polícia Civil.  Pendurou o distintivo no pescoço. Prendeu os cabelos longos em um coque firme junto à nuca, passou rímel preto nos cílios e batom claro nos lábios. Antes de sair de casa, ajeitou a areia, a comida e a água do gato Pingo. Prendeu o coldre na perna direita e saiu pela porta da frente. 

Ao descer, viu que Carlos já a aguardava na viatura, na porta do edifício. Um outro carro da polícia, que também participaria da operação, estava atrás da sua viatura. Eles imaginavam que Rogério não resistiria à intimação policial, mas era praxe ter sempre um reforço em qualquer ação tática, por mais simples que fosse.

Ao entrar, eles se cumprimentaram com um “bom dia” seco. Durante o trajeto até o bairro na Zona Norte da cidade, pouco foi dito, mas, quando estavam quase chegando ao destino, Iolanda quebrou o silêncio.

⏤ Me desculpe por ontem, Carlos. Não quis ser rude, só não soube o que te responder.

Ele encarou-a com empatia. 

⏤ Parceira, eu estou no escuro. Mas sei que alguma coisa aconteceu contigo e que, por algum motivo, você não pode dividir comigo. Só quero que saiba que estou aqui para o que você precisar. Valeu?

Ela assentiu com a cabeça, enquanto se encaravam por alguns segundos. Foi uma troca de olhares intensa e desesperada, que provocou uma queimação em seu corpo. 

Às cinco e quarenta da manhã, Rogério Neves deixou o seu apartamento acompanhado de Iolanda e Carlos, um de cada lado.

Assim como previsto, Rogério não resistiu à prisão, tampouco clamou inocência. Sabia perfeitamente por que estava sendo detido.  Bastava decidir se colaboraria com a investigação. Por fim, a distância entre os investigadores e a solução do caso do golpista de Copacabana dependia de quanto ele estaria disposto a dizer.     

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