Hora da Xepa – Capítulo 9 – Os Quatros

Na manhã da segunda-feira, Iolanda e Carlos fizeram contato com a Fundação Oswaldo Cruz. O clima era harmônico entre eles, apesar da dificuldade que tinham em localizar uma pessoa que pudesse responder aos seus questionamentos. Por fim, conseguiram falar com um pesquisador chamado Gilberto Sá. 

O doutor Gilberto recusou-se a prestar qualquer informação por telefone, mesmo Iolanda se apresentando como inspetora da 12ª DP de Copacabana.  Então, marcaram de se encontrar no mesmo dia, no final da manhã, mas, antes, os inspetores foram chamados pelo delegado Cardoso para que ele fosse atualizado sobre o andar da investigação.  

Enquanto escutava o que os inspetores diziam, Cardoso percebeu uma afinidade anormal entre eles. Achou curiosa a cordialidade existente. A conversa seguia sem hostilidade, competição de egos ou insultos em entrelinhas.

Assim que os inspetores terminaram de relatar o desenvolvimento do caso e os seus próximos passos, levantaram-se para deixar a sala do delegado, entre risos e elogios. Mas Cardoso pediu para que ela permanecesse, pois precisava falar-lhe em particular. 

Iolanda e Carlos se entreolharam surpresos com a ordem do delegado. Afinal, eles eram parceiros, trabalhavam juntos no caso, não deviam ter segredos um do outro, mas Carlos assentiu e os deixou sozinhos, fechando a porta ao sair. 

⏤ Sente-se, inspetora. ⏤ O delegado falou.

Desconfiada e em silêncio, ela obedeceu.

⏤ O que está acontecendo entre vocês? ⏤ O delegado perguntou, apontando discretamente para Carlos, que, do lado de fora, não escondia o interesse em saber o que sucedia na sala do superior. 

⏤ Como assim, Cardoso!? Do que você está falando?

⏤ Desculpa me intrometer em sua vida, Iolanda. Nos conhecemos há muito tempo e acho que temos intimidade para que eu lhe faça essa pergunta. Você e Carlos estão se relacionando além do trabalho? ⏤ Cardoso perguntou sem se inibir, ao contrário de Iolanda, que sentiu seu rosto corar por ter sido pega de surpresa com a pergunta de cunho pessoal. 

Iolanda não sabia o que responder e demorou alguns segundos para formular uma frase que fizesse sentido. Como era possível o delegado ter notado? “Será que está tão visível o que sinto por ele?”, ela pensou, perplexa. Nem ela própria estava segura sobre os seus sentimentos. 

⏤ Cardoso, não sei porque você chegou a essa conclusão. Minha relação com o inspetor Carlos é estritamente profissional. Mas por que você está me perguntando isso? ⏤ Ela devolveu a pergunta.

⏤ Porque sinto que vocês estão mais tolerantes um com o outro, coisa rara de presenciar. Mas não é somente isso, percebo como vocês se olham. Esse comportamento vem chamando a minha atenção há alguns dias. Não se esqueça de que, antes de ser delegado, fui investigador. E dos bons. ⏤ Ele concluiu. 

Iolanda sentia seu rosto queimar, não sabia como reagir aos questionamentos de Cardoso. Nunca se preocupara com o regimento interno da corporação sobre relacionamentos entre colegas, pois não imaginava que passaria por essa situação. Mas de repente se via obrigada a se preocupar com isso, a não ser que desistisse de alimentar suas ilusões e sentimentos, colocando um basta no assunto e transformado tudo aquilo em ex-futura relação.  

⏤ Não se preocupe, Cardoso! Não tem absolutamente nada acontecendo. Acho que você precisa voltar à ativa. Como investigador, suas habilidades estão duvidosas. ⏤ Iolanda falou, com ironia, mas visivelmente abalada, enquanto se levantava para se afastar o quanto antes daquela conversa incômoda em que o delegado a havia colocado. 

Antes de abrir a porta, ele insistiu. 

⏤ Inspetora, caso eu esteja certo, preciso ser o primeiro a ser informado. Nunca tivemos uma situação similar e é melhor garantir que eu não tenha problemas com você por quebra de estatuto. 

Iolanda não acreditava no que estava sendo obrigada a escutar e sentia uma raiva imensa se apoderar de suas entranhas. Ela revirou os olhos e saiu sem dizer nada. 

Precisava afastar-se da delegacia para se acalmar. Viu Carlos de costas, procurando algum documento no arquivo que ficava encostado na parede no fundo da sala e, antes que ele pudesse vê-la, ela saiu. 

Foi até a esquina, onde havia uma loja de sucos, e pediu um de maracujá. Ela era uma mulher forte, mas sentia que estava fraquejando com aquela situação. Sentia-se vulnerável e esse sentimento a incomodava demais.

Retornou uma hora depois, com os pensamentos acalmados. Era hora de encarar Carlos. Ela o conhecia e sabia que ele a pressionaria para saber o que o delegado queria falar com ela, mas não tinha intenção de expor a situação ridícula pela qual o delegado a obrigara a passar. 

⏤ Onde você estava? ⏤ Ele perguntou, furioso. ⏤ Estamos atrasados para a visita à Fundação Oswaldo Cruz. 

⏤ Precisei sair! ⏤ Ela limitou-se a dizer e, indignada com a raiva dele, completou. ⏤ Mas já estou aqui, não estou? Então, para de reclamar e vamos de uma vez. ⏤ Ela falou, pegando uns papéis sobre a sua mesa. 

Eles entraram em uma viatura. Carlos dirigia e não deixava de encará-la, enquanto ela fingia não notá-lo. 

⏤ O que o Cardoso queria contigo? ⏤ Carlos perguntou, enquanto enfrentavam o trânsito da Rua Barata Ribeiro.

⏤ Nada importante. ⏤ Ela falou, olhando para fora do carro. 

⏤ Como nada? Um “nada” não a deixaria assim, nesse estado. ⏤ Ele insistiu. 

⏤ Cacete, Carlos! Não é porque somos parceiros que tenho que falar tudo para você. ⏤ Iolanda estourou, perdendo por completo o controle da situação. 

⏤ Ei, ei! Calma aí, beleza! Não precisa dar explicação nenhuma não. Só queria ajudar. ⏤ Carlos falou, decepcionado. ⏤ Estava tentando entender o que aconteceu que te deixou desse jeito. É só isso. ⏤ Ele completou.  

Iolanda permaneceu calada, olhando para fora da janela. Sentiu os olhos umedecerem e se esforçou para não demonstrar a vulnerabilidade que sentia. Mesmo curioso e incomodado, Carlos achou melhor não insistir.

Chegaram à Fundação Oswaldo Cruz, estacionaram próximo à entrada principal e identificaram-se ao recepcionista. Pouco tempo depois, foram orientados a ir ao centro de pesquisa, onde o doutor Gilberto Sá os aguardava.

Após as apresentações formais eles entraram em uma sala de reunião e se acomodaram ao redor de uma mesa ovalada. Na medida do possível, seguindo os protocolos de sigilo do caso, Iolanda expôs o assunto. Apenas o suficiente para conseguir os esclarecimentos de que precisavam. Então, escutaram o seguinte do pesquisador.

⏤ Sim, a escopolamina é um tema que está em alta no mercado internacional. Estive em um congresso, há poucos meses, no qual se debateu sobre essa pesquisa inovadora do cientista Albert Ladernburg. Até onde sei, nós aqui da fundação somos os únicos no Brasil que estamos desenvolvendo o tema. 

⏤ A escopolamina, que pode ser extraída de diversas plantas nativas do País, tem efeito anticolinérgico, que age na passagem do impulso nervoso para as células musculares. A exposição à substância faz a pessoa perder controle de reação e obedecer a estímulos de terceiros, mesmo contra a sua vontade. 

⏤ Já soubemos que está sendo usada pelo crime organizado em países como Colômbia e Peru. Os delinquentes misturam a substância em bebidas e comidas e, quando as vítimas recobram a consciência, descobrem que foram roubadas, assinaram cheques, tiveram relações sexuais, e por aí vai…

⏤ Quem tem acesso aos detalhes da pesquisa de vocês? ⏤ Iolanda perguntou.  

⏤ Por enquanto, somente um seleto grupo de cientistas, inspetora. ⏤ Ele respondeu. 

⏤ Quantos, doutor? ⏤ Carlos insistiu.

⏤ Somos quatro no total. ⏤ Ele respondeu.

Iolanda e Carlos deixaram a fundação uma hora e meia mais tarde, sabendo que precisariam levantar a ficha dos quatro cientistas. Um deles seria a chave do mistério que envolvia o golpista de Copacabana. 

No caminho de regresso à delegacia, diversos questionamentos sobre o caso surgiam na mente de Iolanda, mas eles não eram maiores do que a incerteza de como o relacionamento com seu parceiro seria afetado após a conversa que tivera com o delegado.

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