Hora da Xepa – Capítulo 8 – Madrugada

⏤ Eu estou faminto! ⏤ Carlos rompeu o silêncio às 3h da manhã.

Ao escutá-lo queixar-se, Iolanda percebeu que também tinha fome. 

Ela recostou-se no encosto da cadeira e esticou os braços para o alto, espreguiçando-se com intensidade. Não se melindrou de demonstrar o cansaço que sentia. Esfregou os olhos com os dedos e olhou para o relógio, constatando que já estavam há oito horas trabalhando nas instalações do prédio da ABI ⏤ Associação Brasileira de Imprensa.

O funcionário que os acompanhava dormia debruçado em uma mesa próxima e precisava ser despertado sempre que os inspetores necessitavam de algum documento novo do acervo. Mas já fazia um tempo que eles não o importunavam. 

Iolanda e Carlos haviam conseguido importantes informações sobre a droga. O acervo jornalístico a respeito da substância era grande, o que ajudou os inspetores a entenderem um pouco mais sobre aquele universo, até então desconhecido. 

Carlos conseguiu um telefone para tentar achar algum bar nas regiões do Centro, da Lapa ou da Glória que pudesse entregar alguma coisa para comerem. Por vários minutos, ele teve dúvidas sobre o que era mais difícil achar, informações sobre a escopolamina ou um restaurante aberto àquela hora da madrugada. Felizmente, quase meia hora depois, havia conseguido uma pizza de um boteco chamado “Colado no Inferno”, nome dado em referência ao fato de o estabelecimento ficar ao lado de um bordel, o qual, por coincidência, Carlos havia invadido uma vez, quando participava de uma operação para prender um gigolô.

⏤ A boa notícia é que consegui uma pizza. A má notícia é que vai demorar. ⏤ Ele falou, assim que retornou ao seu posto de trabalho. 

Iolanda deu de ombros, pegou um papel e disse:

⏤ Olha isso que encontrei em um jornal colombiano. ⏤ E começou a ler.

“A droga que foi desenvolvida a partir da substância C17H21NO4 é conhecida como escopolamina e utilizada como base de medicamentos há décadas.

É sabido que se tornou uma substância psicotrópica perfeita para agressores, pois provoca um automatismo no cérebro da vítima, causando um estado de submissão diante de qualquer ordem. 

Dessa maneira, alguns delinquentes e agressores sexuais expõem as vítimas à substância de maneira oral, nasal ou cutânea. Aproveitam ao fato de a droga ser destituída de odor e sabor para ministrá-la de maneira imperceptível. 

Uma vez exposta à substância, a vítima fica totalmente desprotegida.” 

Iolanda deu uma parada para ver a reação de Carlos, que a escutava com atenção, e então voltou a ler.

⏤ Em outro documento, achei isso sobre a origem da escopolamina.

“A substância foi isolada pela primeira vez por um cientista alemão chamado Albert Ladernburg, em 1980.”

⏤ Ou seja, se a substância isolada tem tão pouco tempo assim e, seguindo a sua teoria de que bandido de galinha não lê jornais, só posso concluir que quem desenvolveu a substância tem acesso a esses estudos, além de ser antenado no mercado. 

⏤ Um farmacêutico, um químico?! ⏤ Exclamou Carlos.

⏤ Exato. Precisamos descobrir eventos em que o tema tenha sido abordado. Temos que saber mais sobre essa descoberta e investigar quais são os profissionais brasileiros que conheçam o trabalho desse cientista alemão. ⏤ Ela falou. 

⏤ Uma coisa não fecha nessa história, Iolanda. ⏤ Carlos disse, intrigado. ⏤ Tudo indica que o acesso a essa informação é exclusivo, somente alguém com instrução teria conhecimento do fato. Se for isso, por que estão usando a droga para assaltar apartamentos em Copacabana? 

Iolanda incomodou-se com o questionamento do parceiro. Percebeu que ele tinha um ponto. Realmente não fazia sentido imaginar que um cientista antenado usaria o seu conhecimento para cometer delitos tão tolos. 

⏤ Você tem toda a razão. Não faz o menor sentido essa elucubração doida que cogitei. Acho que estou cansada. ⏤ Ela falou, apoiando a testa sobre as mãos. 

⏤ Vamos embora. Precisamos descasar. Amanhã é domingo, aproveita para relaxar. Segunda-feira vamos ao Instituto Oswaldo Cruz, talvez eles possam nos ajudar. ⏤ Carlos falou. 

Iolanda concordou que já não adiantava trabalhar àquela hora da madrugada. Passava das quatro horas da manhã, tinham fome e estavam exaustos. Juntaram os documentos que levariam com eles, acordaram o funcionário, que babava sobre a mesa, ao dormir com a boca semiaberta, e entraram no elevador. 

⏤ Eu te deixo em casa. ⏤ Carlos disse, referindo-se ao fato de estarem em um único carro, uma viatura da Polícia Civil. 

Iolanda gesticulou positivamente e agradeceu.  

Ao passarem pelo segurança da portaria, Carlos entregou um cheque no valor de 525 mil cruzeiros e disse que ele poderia ficar com a pizza que havia pedido. Seu gesto chamou a atenção dela, que havia esquecido do pedido que tinham feito, e achou simpático da parte do parceiro. 

No trajeto para Copacabana, os inspetores mantinham-se em silêncio. Talvez fosse pelo cansaço, pela fome ou até mesmo por estarem formulando em pensamentos as possíveis hipóteses sobre o caso. O fato é que, enquanto Carlos mantinha os olhos voltados para a frente, observando o movimento da rua, Iolanda olhava para o alto dos edifícios da Praia do Flamengo. Àquela hora da noite, poucos eram os apartamentos que mantinham luzes acesas; a maioria desfrutava da escuridão total. 

Assim que atravessaram o túnel novo e chegaram ao bairro de Copacabana, Iolanda e Carlos avistaram juntos o restaurante Cervantes, que ainda mantinha as portas abertas. Simultaneamente eles se olharam, sabendo o que pensavam naquele momento. 

Iolanda achava curiosa a sintonia que desenvolvera com o parceiro. Essa não fora a primeira vez em que sabia o que lhe passava na cabeça apenas olhando para ele. Pensar no tradicional sanduíche de pernil com abacaxi lhe deu água na boca e, momentos depois, ambos os inspetores o degustavam com apreço junto ao balcão. Enquanto devoravam o alimento, só eram capazes de balbuciar sons de satisfação. Conversavam despretensiosamente aguardando a conta chegar, quando Iolanda tirou duas folhas de guardanapo de papel do dispenser em cima do balcão de vidro e limpou a boca. Em seguida, tirou outras duas e, inconscientemente, fez o mesmo movimento, agora em Carlos, que foi pego de surpresa e riu. 

Ao perceber o que acabara de fazer, Iolanda ficou sem jeito e pediu desculpas. 

⏤ Não precisa se desculpar, Iuiú! ⏤ Ele respondeu, com ar travesso. 

⏤ Não acredito que você ainda se lembra desse apelido infeliz! ⏤ Iolanda exclamou, indignada, dando um empurrão em seu ombro. 

⏤ Eu nunca esquecerei. ⏤ Ele respondeu.

⏤ Pensando bem… é melhor Iuiú do que Pitéu. ⏤ Ela comentou, dando uma piscadela. ⏤Vamos, já não me aguento em pé! Preciso dormir. ⏤ Iolanda completou.  

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