Hora da Xepa – Capítulo 7 – Autópsia

⏤ O que temos aqui? ⏤ Iolanda perguntou ao perito que já estava junto ao corpo quando ela chegou. 

⏤ Pois é! Pela presença de sangue nas narinas, tudo leva a crer que a mulher foi vítima uma overdose e possivelmente sofreu uma parada cardiorrespiratória. ⏤ O perito falou, enquanto fotografava o rosto da empregada. ⏤ Mas ainda não sabemos qual a substância ingerida. Não existe nenhuma evidência aqui no quarto, não há embalagens de comprimidos ou resquícios de drogas. 

⏤ Podemos considerar envenenamento criminoso? ⏤ Iolanda perguntou, enquanto olhava para Carlos, que já imaginava o que passava por sua cabeça.

⏤ Nenhuma hipótese pode ser descartada… Assim que o corpo for para o IML poderemos ter certeza da substância responsável. 

⏤ Podemos te acompanhar? ⏤ Carlos perguntou. 

⏤ Claro que sim! Já fui orientado para isso. A solicitação veio de dois graúdos. Acho que esse caso está começando a ter visibilidade. ⏤ O homem falou, olhando para os investigadores.

Enquanto a perícia finalizava o trabalho e liberava o corpo para o IML, Iolanda e Carlos foram até a sala de estar da casa, onde a patroa, ainda em trajes de dormir, estava em choque, sendo amparada pelo marido. 

⏤ Sentimos muito pelo ocorrido e entendemos se a senhora precisar de um tempo para prestar o seu depoimento, mas, considerando que já estamos aqui, gostaríamos de trocar algumas palavras para saber como tudo aconteceu. ⏤ Iolanda falou, passando tranquilidade à mulher. 

Apesar de abalada, ela concordou em falar naquele instante com a polícia. Queria que aquele inferno acabasse o quanto antes. Ter a sua casa invadida por policiais não era agradável e seu desejo era fazer de tudo para se livrar deles. 

Depois de contar para os policiais que havia estranhado os fatos de a mesa do café da manhã não estar posta e de não ter tido resposta ao chamá-la, a patroa entrou no cômodo de serviço e encontrou a jovem desacordada sobre a cama.

⏤ Quando a vi, percebi que ela estava morta pelo sangue que saía do seu nariz e também pela sua cor; ela estava muito pálida. Fiquei desesperada e gritei pelo meu marido, que chegou correndo para ver o que estava acontecendo. Como havíamos estado na delegacia na véspera, minha reação foi ligar direto para lá e pedir ajuda. ⏤ A mulher falou.

⏤ Ontem, depois que saímos daqui, ela reclamou de alguma dor ou disse que não se sentia bem? ⏤ Iolanda perguntou.

⏤ Não, não fez nenhum comentário. É verdade que estava mais calada, mas eu imaginava que era vergonha. Ela ficou abalada com o que aconteceu. Me pediu desculpas inúmeras vezes. 

⏤ A senhora parece ter um carinho grande por ela e, mais do que isso, acredita que ela não teve culpa por deixar o assaltante entrar. Minha percepção é correta ou estou enganada? ⏤ Iolanda voltou a questioná-la.

⏤ Eu confiava plenamente nela. Sua mãe foi a minha babá. Trabalhou para minha família por mais de trinta anos e há quase dez anos a filha trabalhava conosco, ela era de extrema confiança.  

⏤ Tudo indica que ela sofreu uma overdose pela ingestão de alguma substância química, e isso a levou a ter uma parada cardiorrespiratória. Mas até o momento não encontramos nenhum indício em seu quarto que nos leve a acreditar que ela tenha feito isso propositalmente. A senhora guarda todos os medicamentos em um único lugar? Será que podemos dar uma olhada neles e nos produtos de limpeza da casa também?  ⏤ Iolanda perguntou

Os investigadores seguiram a mulher, que os levou à despensa da casa, onde havia uma caixa com vários medicamentos, mas ela comentou que não via nada fora da normalidade. Ao vistoriarem os produtos de limpeza, a mulher disse não poder ajudar muito, pois não tinha conhecimento dos produtos existentes, já que era a própria empregada que os comprava à medida que precisava. 

Antes de deixarem o apartamento, os inspetores orientaram os policiais a vasculharem o lixo da casa e o do edifício em busca de algum rastro importante para o caso. 

⏤ O que quer que tenha causado a morte dela, nós descobriremos. Manteremos vocês informados.⏤ Iolanda disse ao se despedir do casal. 

  Horas mais tarde, na sala de espera do IML, os inspetores aguardavam os resultados de laboratório da vítima. Desde que ficaram sozinhos, eles pouco conversaram e, entre as palavras trocadas, nada foi dito sobre o encontro da noite anterior. Parecia que eles queriam esquecer o que havia acontecido, mesmo isso sendo impossível. O que Carlos gostaria de ter dito e o que Iolanda gostaria de ter escutado ainda eram lembranças vivas, mas escondidas por ambos. 

Às vezes seus olhares se cruzavam e imediatamente eram desviados em sincronia. Sem conseguir disfarçar o constrangimento que sentia, Iolanda afastou-se de Carlos, com a desculpa de que pegaria um café, e somente retornou para junto dele quando viu o perito se aproximar com os resultados dos exames nas mãos.

⏤ Encontramos altas doses de escopolamina em seu corpo. Como se ela tivesse tomado grande quantidade de Buscopan. ⏤ O homem falou, sob os olhares dos investigadores. 

⏤ Mas não achamos nenhum frasco desse medicamento no apartamento. Como isso é possível? ⏤Carlos perguntou.   

⏤ A resposta para a sua pergunta, inspetor Carlos, ainda é desconhecida, mas o que podemos afirmar é que a ingestão da substância, nas doses encontradas no organismo da vítima, são suspeitas. 

Iolanda olhou para Carlos com um sorriso embebido em expectativas. Sentia que a morte da jovem, por fim, nortearia a sua ação para solucionar o caso que há semanas lhe tirava o sono. Embriagada por essa possibilidade, ela escutou o que o perito ainda tinha a dizer. 

⏤ O que quero dizer é que o uso medicinal da escopolamina é inferior a 330 microgramas e serve para tratar enjoos, para dilatar as pupilas em exames de fundo de olho, ou como analgésico. Mas, como se trata de uma substância sem cheiro e sem sabor, o composto acabou caindo no agrado de bandidos, que aproveitam o seu princípio ativo para misturar outras substâncias químicas, produzindo uma variação da droga que causa efeitos anestésicos e inibidores na vítima. 

⏤ Mas como nunca ouvi falar disso antes? ⏤ Iolanda questionou-se, com indignação. 

⏤ Realmente essa droga não é muito comum aqui no Brasil, mas antes de vir falar com vocês dei alguns telefonemas e conversei com alguns colegas que já ouviram falar dela, por ser bastante conhecida na Bolívia, no Equador e na Colômbia. 

Passavam das três horas da tarde quando os inspetores deixaram o prédio do IML, no centro do Rio. Sentiam-se no escuro com as informações sobre essa substância que poucos conheciam; precisavam desvendá-la, pois tudo indicava que as vítimas dos roubos também haviam sido expostas a ela. 

Voltaram para a delegacia e reuniram os dossiês de todos os quatro casos até então conhecidos. Juntaram tudo e, mesmo sendo sábado, dirigiram-se para o prédio da ABI – Associação Brasileira de Imprensa – na Rua Araújo Porto Alegre, no centro do Rio. 

Assim que chegaram, apresentaram uma ordem judicial para o segurança da instituição, que, sem saber como proceder, liberou a entrada para os inspetores e foi orientado a chamar o responsável da instituição para que este auxiliasse as buscas da polícia. 

Enquanto o funcionário não chegava para dar acesso aos arquivos, os inspetores organizavam os documentos de cada caso sobre uma grande mesa. Agora, sabendo sobre a existência da escopolamina, analisariam novamente os casos sob uma nova perspectiva. Eles fariam uma varredura no acervo da imprensa e sabiam que ficariam lá até conseguir esclarecer todas as dúvidas relacionadas à droga.

⏤ Iolanda! ⏤ Carlos chamou-a enquanto estavam debruçados sobre os papéis, e disse. ⏤ Sobre ontem à noite!     

Iolanda olhou em seus olhos e respondeu.

⏤ Eu sei! Precisamos falar sobre ontem à noite, mas esse não é o momento. Precisamos focar nessa investigação. Quando solucionarmos esse caso voltamos a esse assunto, está bem? ⏤ Ela respondeu, com a voz suave. 

Ele sorriu e fez um movimento positivo com a cabeça. Eles voltaram a encarar os papéis e, a partir daí, tinham uma motivação a mais para finalizar o caso. 

4 comentários em “Hora da Xepa – Capítulo 7 – Autópsia

  1. Muito bom Lu! Gosto muito da forma que você vai conduzido o tema policial e intercalando o romance que surge entre os inspetores.
    Bjs

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