Hora da Xepa – Capítulo 6 – Vitrola

Assim que desligou o telefone, Iolanda seguiu para o quarto e trocou de roupa. Tirou a calça legging surrada e o camisão comprido que ia até a coxa. Vestiu um short jeans de cintura alta e uma camisa de malha preta com uma grande língua vermelha, a marca registrada da banda de rock Kiss. 

Seguiu para o banheiro, escovou os dentes e secou os cabelos compridos com o auxílio de uma escova redonda, para criar volume. A cabeleira, que ficava sempre escondida, ora em um rabo de cavalo, ora em um coque rente à nuca, agora chegava ao meio das costas, mudando por completo a fisionomia de Iolanda, deixando-a ainda mais atraente. 

Abriu a pequena valise onde guardava as maquiagens e tentou lembrar como usá-las para disfarçar as olheiras. Há tempos ela não utilizava os cosméticos, não tinha paciência para essas coisas. Aplicou base e um pouco de pó de arroz, um leve blush rosado para dar cor nas bochechas, um pouco de rímel para sobressair os longos cílios e finalizou com um batom sutil de cor nude. 

Foi até a sala e abriu o armário onde mantinha guardada a vitrola que ganhara dos pais em seu aniversário de 25 anos. Levou alguns minutos para escolher qual disco colocar. Carlos achava-a sisuda, e ela queria mostrar, através do seu gosto musical, que era uma mulher descolada, por isso acabou decidindo por “As Aventuras da Blitz”. E, assim que encostou a agulha no LP, a voz inconfundível de Evandro Mesquita foi projetada, interpretando a primeira faixa do álbum, “Blitz Cabeluda”. 

Iolanda sorriu e, contagiada com a melodia, simulou alguns passinhos até deparar-se com o seu reflexo ao espelho. Naquele momento, ela viu a própria imagem e não se reconheceu. Tinha a sensação de que sua vida era mais colorida quando estava perto dele e sabia exatamente o porquê disso. 

Era um sentimento bom, porém assustador. Nunca experimentara nada parecido e, por mais estimulante que a ideia fosse, eles eram parceiros e essa condição ela pretendia manter. 

Perturbada, ela acovardou-se. Desligou o toca-discos, lavou o rosto para tirar a maquiagem, trocou novamente a roupa e, por fim, prendeu os cabelos. Voltou a se encarar no espelho do banheiro e condenou-se ao perceber que se deixara seduzir por ele. 

Não demorou a escutar o interfone tocar. Carlos havia chegado, e imediatamente ela se arrependeu de tê-lo convidado. Quando a campainha tocou, Pingo correu para o quarto, enquanto ela respirou profundamente, antes de abrir a porta e se deparar com ele esboçando um sorriso sedutor no canto dos lábios. Trazia nas mãos uma embalagem de pizza e algumas cervejas. 

⏤ Sabendo que a noite pode ser longa, trouxe uma pizza para o caso de sentirmos fome. ⏤ Ele falou.

⏤ E a cerveja?! É para a matar a fome também? ⏤ Ela questionou, com ironia.

⏤ A cerveja é porque hoje é sexta-feira, e nós merecemos. ⏤ Carlos respondeu. 

Iolanda convidou-o a entrar e o levou à cozinha, para que guardassem a bebida na geladeira e a pizza do forno. Voltaram para a sala de jantar e sentaram um de frente para o outro, na mesa onde já estavam espalhados os documentos da investigação. A inspetora não queria cair na armadilha de se envolver com o charme dele, que, no momento, estava mais atrativo do que nunca. Por essa razão, mantinha um diálogo estritamente profissional, sem dar oportunidade alguma de aproximação, conduta que foi notada e respeitada pelo parceiro.

Os investigadores leram e releram os depoimentos de todos os processos. Discutiram, especularam e, por mais que concordassem que todas as vítimas compartilhavam o mesmo sentimento, eram incapazes de identificar os motivos que as levaram a se comportar daquela maneira. 

Margarida dizia que parecia estar drogada. A vítima da Tijuca definia seu estado como “anestesiada”. A do Grajaú chamou-se de “abobalhada”. E, no depoimento da última vítima, a empregada da socialite, a palavra “sonhando” fora mencionada diversas vezes. 

⏤ Preciso de um descanso. ⏤ Carlos levantou. ⏤ Além disso, estou faminto. ⏤ Ele sorriu.  

Iolanda seguiu seus passos e, ao levantar e se afastar da mesa, esbarrou em Carlos. Os dois ficaram a centímetros de distância e se encararam com constrangimento. Tentaram se desvencilhar um do outro com um passo para o lado, mas seguiram para a mesma direção, trombando novamente. Tímidos, eles voltaram a sorrir, e Carlos fez sinal para que ela passasse pela sua direita. 

Seguiram para a cozinha. Encorajado por Iolanda, Carlos abriu a geladeira e pegou uma cerveja para cada um, enquanto ela ligava o forno para esquentar a pizza. Durante o tempo de espera, jogaram conversa fora, ali mesmo na cozinha do apartamento. 

Carlos perguntou sobre seus pais. Iolanda respondeu vagamente, omitindo o fato de que os pais sempre perguntavam por ele, desde quando haviam se conhecido, meses antes. 

   Assim que a pizza ficou pronta, levaram-na para a sala e, antes de sentar no chão, junto à mesa de centro da sala de estar, Carlos perguntou?

⏤ Você tem toca-discos?

⏤ Tenho, sim, está dentro desse móvel. ⏤ Ela respondeu, apontando para a estante, onde também havia uma televisão de 28”.

⏤ Uau! ⏤ Ele exclamou, impressionado com a quantidade de LP’s que ela tinha. 

⏤ É! Eu gosto bastante de música. ⏤ Ela respondeu, enquanto tomava um gole da cerveja e pegava um pedaço da pizza de calabresa.

⏤ Blitz?! ⏤ Ele indagou, surpreso.

⏤ Por que não?! Você me acha careta para gostar de Blitz? 

⏤ Não te acho careta, apenas séria. ⏤ Carlos respondeu, já ligando a vitrola. E, em lugar de colocar a agulha na faixa número um do disco, virou o lado do álbum e foi direto para a faixa número nove. A música “Mais uma de amor” ⏤ popularizada como “Geme, Geme” ⏤ começou a tocar, e somente então ele se sentou.  

⏤ Há muitas coisas que você não sabe sobre mim, Carlos! ⏤ Ela falou, rindo.

⏤ Tenho certeza disso e adoro te descobrir aos poucos, cada dia uma surpresa. ⏤ Carlos falou, com um sorriso maroto nos lábios, deixando-a corada. 

 Com o tempo, o álbum da Blitz foi virado de lado, em seguida foi trocado por um do Duran Duran, e não demorou para Iolanda perceber que a conversa descontraída, somada às cervejas tomadas, deixara-a bastante relaxada. 

Eles conversaram, riram e contaram histórias hilárias de suas experiências na polícia. Iolanda não viu o tempo passar. Percebeu isso somente quando olhou para a mesa e notou que, além da caixa da pizza, havia seis latas de cerveja, igualmente vazias.

Quando Iolanda se mexeu, indicando que se levantaria, Carlos impediu-a, segurando o seu braço, e disse.

⏤ Preciso te dizer uma coisa que há tempos venho pensado. 

Apreensiva, ela respondeu de imediato olhando em seus olhos.  

⏤ Carlos… o que quer que seja, se for mudar a nossa relação profissional, acho melhor você guardar para você. 

Ele aproximou-se e segurou a sua mão, ficando de frente para ela. Eles se observaram em silêncio. Iolanda sentia o corpo queimar, era quase incontrolável o desejo que sentia, mas sabia que, se cruzasse a linha e cedesse à tentação, colocaria a parceria em xeque-mate. E isso ela não permitiria, não naquele momento, não no meio de uma investigação.

⏤ Acho melhor você ir embora, Carlos. ⏤ Ela falou, desviando os olhos. 

⏤ É isso o que você quer?  ⏤ Ele perguntou, movimentando seu rosto delicadamente para que voltasse a encará-lo.

⏤ É isso o que precisa ser feito. ⏤ Ela respondeu, com a voz embargada. 

Imóvel, ele manteve-se por alguns segundos mais olhando para ela. Ainda segurando a sua mão, ele levou-a aos lábios e a beijou carinhosamente. Iolanda sentiu um arrepio percorrer seu corpo e fechou os olhos na esperança de registrar a sensação, pois sabia que aquela era a demonstração de carinho mais ousada que poderiam ter. 

Às oito e trinta da manhã de sábado, o telefone de Iolanda tocou. Deitada na cama, ela ainda pensava em Carlos. Não havia dormido, pensando na despedida melancólica da madrugada anterior. Sentia-se vazia, solitária e desanimada com tudo o que havia acontecido. 

O receio que tinha de ter o relacionamento profissional afetado por alguma coisa que ele pudesse dizer havia sido em vão, pois, naquele momento, ela sabia que eles não seriam os mesmos. 

A insistência da chamada obrigou-a a levantar da cama, e ela seguiu arrastando-se desanimadamente até a sala, onde o aparelho telefônico estava instalado. Ao atender, escutou a voz alerta do delegado Cardoso. 

⏤ A empregada está morta!

⏤ Como morta?! ⏤ Iolanda perguntou, intrigada.

⏤ Morreu dormindo. A patroa não sabe o que aconteceu. Essa manhã, ela não havia aparecido para colocar a mesa do café e, quando foram verificar em seu quarto, encontraram-na sem vida, deitada na cama. A perícia está a caminho de lá. Quero você e Carlos o quanto antes acompanhando tudo de perto. 

E, sem que ela tivesse tempo de se preparar para reencontrá-lo, os inspetores estavam novamente juntos, no quarto de serviço onde o corpo da vítima jazia, no apartamento de luxo da socialite, no Leblon.  

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