Hora da Xepa – Capítulo 5 – Próxima Vítima

⏤ Não é ele. ⏤ Margarida falou.

Iolanda virou-se frustrada para Carlos, que compartilhava do mesmo sentimento. 

⏤ Obrigada por vir aqui, Margarida. Sei que é difícil para você voltar aqui, mas era necessário que você o visse pessoalmente. ⏤ A inspetora falou, enquanto levava a mulher até a porta da delegacia. 

O rapaz que fora detido por eles horas antes não era o homem que procuravam. Apesar da semelhança com o retrato falado, não havia nada que justificasse a sua detenção. Nem mesmo fora reconhecido pela vítima como o autor do crime.

Sentada em sua mesa, Iolanda virou a cadeira giratória, encarou Carlos, que ocupava a mesa ao lado, e disse: 

⏤ A gente tem muita pinta de polícia, né? 

Sua conclusão foi pelo fato de o homem justificar a fuga por ter medo de polícia. “Pô, dona, pobre quando vê polícia treme nas bases. Me caguei todo quando vi vocês me encarando”. 

O fato é que haviam voltado à estaca a zero e precisavam descobrir uma outra maneira de atuar. 

 Durante o resto do dia, passaram reunidos discutindo os detalhes da ação do criminoso e chegaram a uma conclusão: o suspeito não agia no mesmo local. 

⏤ Ele deve ter um modus operandi e possivelmente muda o cenário para não correr o risco de ser identificado. São centenas de feiras livres na cidade, sem contar a área metropolitana. ⏤ Iolanda falou.

⏤ Niterói seguramente é alvo do sujeito também.  ⏤ Carlos completou.

Com aquela conclusão, passaram o resto do dia ao telefone com outras delegacias, buscando informações sobre casos similares. De todas as que chamaram, apenas as da Tijuca e do Grajaú reportaram casos semelhantes, mas que, assim como ocorreu em Copacabana, haviam sido arquivados por falta de provas. 

Os inspetores saíram em uma viatura e foram até as duas delegacias. Pediram os dossiês dos casos, precisavam estudá-los para encontrar similaridades. Com os documentos em mãos, Iolanda ligou para as duas mulheres, que, apesar da demora da polícia em se interessar por seus casos, concordaram em conversar. 

Marcaram os encontros para os dias subsequentes. A primeira, a vítima da Tijuca, era uma mulher de 42 anos, dona de casa, casada e com dois filhos pequenos. A segunda tinha 64 anos, era viúva e aposentada.   

No final da semana, Iolanda e Carlos reuniram-se com Cardoso para conversarem sobre as semelhanças dos três casos. O do Grajaú havia acontecido há quase um ano. O da Tijuca há pouco mais de quatro meses. E o de Copacabana há algumas semanas. 

⏤ Apesar de não termos conseguido identificar nenhum outro caso, imagino que haja outras vítimas. É um crime bem planejado, não deixa rastros. O cara é praticamente um fantasma. ⏤ Carlos falou.

⏤ O que mais me intriga é a unanimidade das vítimas ao descreverem a condição abobalhada em que se encontram quando são abordadas pelo sujeito. ⏤ Iolanda completou e continuou. 

⏤ Por isso, estou quase segura de que muitas mulheres devem ter caído no mesmo golpe, mas, por vergonha, não denunciaram. Talvez por não entenderem o que de fato aconteceu com elas… Talvez se sintam culpadas por terem sido permissivas. São muitos os talvezes que justificam a omissão. 

⏤ Estava pensando enquanto vocês falavam. ⏤ Cardoso disse. ⏤ Se abrirmos esse caso para a imprensa, quem sabe conseguimos chamar a atenção de outras vítimas, que, percebendo que não foram as únicas, possam se animar a procurar a gente.

⏤ Gosto da ideia, Cardoso. Mas tenho receio de que a exposição do caso iniba o canalha e ele suma do mapa. ⏤ Iolanda completou.

⏤ É um risco que corremos. ⏤ Ele concluiu.   

⏤ Mas podemos, sim, usar a imprensa a nosso favor. ⏤ Sugeriu Carlos. ⏤ Se divulgarmos somente uma pequena nota no jornal impresso, no Jornal do Brasil ou no Globo, as chances de o bandido ver são baixas. Já as vítimas devem ver!

⏤ Engano seu, Carlos! De onde você tirou que bandido não lê jornal? Agora só falta concluir também que todo mundo que lê jornal é gente do bem! ⏤ Ela completou, irritada e com sarcasmo. 

E antes de Carlos responder-lhe, Cardoso interveio. Não queria que a sua sala fosse cenário da primeira briga da dupla, na primeira semana em que trabalhavam juntos. 

⏤ Por mais que não seja a melhor das opções, não vejo outra alternativa, inspetora. Se queremos chamar a atenção das vítimas, precisamos da imprensa. E concordo com o Carlos quando diz que as chances de um bandido que rouba uma senhora de 67 anos no Grajaú ler uma notinha na página interna do Jornal do Brasil são bem reduzidas. Mas também concordo com você ao dizer que isso não é uma verdade absoluta. O fato é que temos que buscar uma alternativa para seguir adiante nessa investigação. 

Iolanda odiava a estratégia morcego ⏤ morde e assopra ⏤ que Cardoso usava sempre que não tinha uma ideia melhor em um impasse: concordava com um, sem discordar do outro. 

⏤ Positivo, chefe, mas hoje é sexta feira. Antes de soltar para a imprensa me dá o fim de semana para estudar os três casos. Estamos falhando em alguma coisa.

Cardoso concordou com ela, dando-lhe o tempo solicitado, e os inspetores deixaram a sua sala. 

Eles voltaram para as suas mesas, e Iolanda permanecia emburrada com a colocação do parceiro, que se irritou com ela e esbravejou.

⏤ Cacete, Iolanda, você é muito difícil. Tenho que ficar pisando em ovos contigo para não ferir os seus sentimentos ou o seu ego, sei lá! Você está sempre na defensiva e acha que qualquer pessoa, independentemente de quem seja, quer sempre te atacar. 

⏤ Desculpe te fazer encarar a realidade, querido. Esse é o meu mundo feminino nessa sociedade machista e injusta. ⏤ Ela respondeu com ironia.

⏤ Está vendo como você é maluca, Iolanda?! Que mundo machista? A onde você está vendo machismo no que eu falei? Você está puta porque disse que o merda do bandido não lê jornal de elite e você me chamou de preconceituoso. Porra, racionaliza! Você acha mesmo que ladrão de galinha tem como bancar 100 Cruzeiros em jornal de bacana. Me poupe, Iolanda.  ⏤ Ele finalizou, com o tom de voz alterado.

⏤ Ok, ok! Foi mal! Você tem razão, Carlos. Sei que tenho essa mania de estar sempre na defensiva. Mas… putz, criei essa blindagem naturalmente, cacete. Nunca foi fácil conviver com um monte de homem machista que queria comer meu coro o tempo todo. Você é o primeiro parceiro que tenho que me trata de igual para igual. Não estou acostumada com isso. 

Carlos aproximou-se dela e falou baixo, para que ninguém o escutasse. 

⏤ Vai se acostumando, então, parceira. Eu não quero e nunca vou te prejudicar. Você precisa confiar em mim. Somos uma dupla agora. Valeu?!

O telefone de Iolanda tocou, interrompendo o clima harmônico que voltava a rondar os dois. 

⏤ 12ª DP de Copacabana, inspetora Iolanda falando.

Carlos tentava acompanhar a conversa, mas era difícil compreender qualquer coisa a partir de uma sequência de respostas monossilábicas que ela dava a quem quer que estivesse do outro lado da linha. Ao desligar o telefone, ela levantou, pegou a sua bolsa e disse. 

⏤ Vamos! A DP do Leblon acabou de reportar um caso similar. 

A vítima fora a empregada doméstica de uma socialite, e, se eles não agissem rápido, a impressa toda saberia e divulgaria o caso bem antes do que eles planejavam. 

Chegaram à delegacia no Leblon e se reuniram com o delegado e com o inspetor responsável. Escutaram o que eles tinham a dizer sobre a mulher que fora levada pela socialite naquela mesma manhã para prestar depoimento. As características do caso eram as mesmas, o que animou a dupla.

Acertaram que, como a DP de Copacabana já estava trabalhando no caso, a denúncia seria transferida para lá. Assim que fecharam o acordo, Iolanda e Carlos deixaram a delegacia com o envelope do depoimento nas mãos. De lá, resolveram fazer uma visita à patroa da vítima, que precisava saber que a polícia estava na cola do bandido, mas que, para isso, necessitavam da sua colaboração para manter a imprensa afastada do caso, ao menos por um tempo. 

Saíram de lá às oito horas da noite. Iolanda despediu-se de Carlos, que disse ter um compromisso naquela noite. Enquanto isso, a inspetora seguiu para casa, mas, antes, passou na delegacia para pegar o restante dos documentos da investigação. Aqueles envelopes eram o seu compromisso de sexta-feira à noite. Há tempos que não fazia um programa que fosse diferente de trabalho. Invejou Carlos por isso, por ele conseguir conciliar uma vida social com a de policial. 

Depois de cuidar de Pingo e de tomar um banho quente, ela pegou uma cerveja na geladeira e organizou os papéis por cima da mesa da sala. Momentos depois, o telefone tocou. Ao atender, esboçou um sorriso ao reconhecer a voz de Carlos.

⏤ Aposto como você está com a papelada toda espalhada em cima da mesa sem saber por onde começar. ⏤ Ele falou.

⏤ Resolveu me espionar agora? ⏤ Ela respondeu, com simpatia. 

⏤ Queria saber se você chegou bem em casa e se precisa de ajuda para enfrentar essa longa noite. 

⏤ Ué, você não tinha um compromisso? ⏤ Iolanda perguntou, curiosa. 

⏤ Tinha, mas foi cancelado. ⏤ Ele respondeu, cauteloso, e continuou.

⏤ Pensei em dar uma passada aí, te dar uma mão, se você quiser, ou achar que vai precisar de… ⏤ Iolanda interrompeu, percebendo que ele se enrolava ao procurar uma justificativa plausível para ir a sua casa. 

⏤ Sua ajuda será bem-vinda, Carlos! Pode vir. ⏤ Ela respondeu. 

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