Hora da Xepa – Capítulo 4 – Retrato Falado

Iolanda acordou com Pingo ronronando junto ao seu rosto. O gato transitava com movimentos leves e precisos sobre os seus travesseiros. Eram seis e meia da manhã de uma segunda-feira. Na noite anterior, a investigadora havia trabalhado até tarde buscando, em documentos sigilosos da polícia e em recortes de jornais antigos, algum caso semelhante ao que investigava no momento.

Infelizmente, ela não havia conseguido encontrar nada que explicasse o estado de ausência consciente comentado por Margarida ao descrever que executava os comandos recebidos pelo assaltante, mas que não conseguia reagir a eles.

O material de sua pesquisa da véspera ainda estava espalhado por cima da pequena mesa de jantar, junto com um prato com restos de sanduíche e uma lata de Coca-Cola que ela não havia finalizado.

Iolanda saiu da cama se espreguiçando, tomou um banho rápido e se arrumou para o trabalho. Limpou a areia de Pingo e trocou a sua comida e a sua água, para que ele tivesse o necessário para enfrentar mais um dia de solidão.

No caminho para a delegacia, passou em uma padaria e pediu um pão na chapa e uma média, suas opções prediletas desde pequena, e enquanto finalizava seu café da manhã, pensava que aquele seria um dia especial. Era o dia em que Carlos assumiria oficialmente o seu novo posto de trabalho na 12ª DP de Copacabana.

Após a conversa que tiveram em seu apartamento, quase quinze dias antes, Iolanda seguiu as suas recomendações e no dia seguinte chamou o delegado Cardoso para almoçar, com a desculpa de que precisava tratar de assuntos confidenciais, motivo pelo qual o fez arquear uma das sobrancelhas.

Na ocasião, mesmo ciente de que ele sabia de tudo, Iolanda fez questão de contar os detalhes dos fatos. O depoimento frustrado da vítima, as suspeitas de que aquele não era um caso comum, o descrédito a Margarida e o preconceito cometido não só por Nunes, mas também por grande parte dos colegas policiais e a visita que fizera a vítima foram os temas da conversa.

Cardoso, apesar de achar que tudo não passava de mais um assalto residencial no bairro, deu uma chance para ela, por saber que seu instinto nunca a deixara na mão. Com o aval do seu chefe, Iolanda pediu um segundo favor: queria trabalhar sozinha neste caso; se possível, em sigilo. Precisava concentração e não queria receber críticas de seu parceiro. Aproveitou ainda o fato de Cardoso estar de bom humor e receptivo para falar sobre a sua insatisfação com a postura do Nunes.

Durante a conversa com o delegado, ela omitiu o encontro que tivera com Carlos, bem como a intenção de ele substituir Nunes. Não pretendia se envolver com as negociações de sua transferência. Lembrava-se de que, quando estava deixando a sua casa, perguntara como ele faria para reverter a situação e ele apenas sorrira. Quando a abraçou para se despedir, aproveitou o momento para sussurrar em seu ouvido: “Tenho uma carta na manga. Guardei porque sabia que você não aguentaria ficar longe de mim por muito tempo”. Suas palavras foram seguidas de protestos seus, já que estava enfurecida pela petulância dele, mas lembrar esse momento a fazia sorrir, por saber que no fundo ele tinha razão.

Ao chegar à delegacia, deparou-se com Carlos no meio do salão principal, rodeado pelos outros policiais, que comemoravam o seu retorno. Tornara-se o centro das atenções daquela manhã, exatamente como gostava. A cena que a fizera revirar os olhos, no passado, nesse dia trouxe satisfação, pois sabia que finalmente teria um parceiro em quem podia confiar.

Assim que o primeiro policial notou a chegada de Iolanda, pigarreou forte, chamando a atenção dos outros colegas, que, ao notarem a sua presença, afastaram-se de Carlos, como se aquela harmonia fosse proibida.

A reação dos colegas refletia os anos de desentendimento entre os dois, em razão da inesquecível história em que ele a apelidou de Pitéu por muitos anos. Mas estava na hora de deixar tudo isso no passado. Foi então que, com um tom de voz firme, porém tranquilo, Iolanda disse para que todos escutassem.

⏤ Pessoal, nossas desavenças ficaram para trás. O Carlos é um dos nossos agora, trabalhará lado a lado conosco, e eu estou muito feliz de finalmente ter um parceiro em que confio.

Todos se entreolharam e bateram palmas em apoio à inspetora, enquanto ela se dirigia à sua mesa. Não demorou para Carlos se aproximar e pedir um abraço de boas-vindas, assim como tinha recebido de todos os outros policiais.

⏤ Não força a barra, Carlos! ⏤ Iolanda falou, olhando de rabo de olho enquanto arrumava as pastas com o material de sua investigação.

⏤ Pessoal! A atenção de todos, por favor. ⏤ Carlos falou alto, olhando para toda a equipe. ⏤ A inspetora Iolanda Braga, depois de se gabar anunciando que as nossas desavenças ficaram para trás, está se recusando a me dar um abraço de boas-vindas.

Iolanda surpreendeu-se e o fuzilou com um olhar gélido. Todos os policiais protestaram, e ela, sem saída, diante dos amigos que a incentivavam, abraçou Carlos e disse baixinho, para que somente ele escutasse.

⏤ Você continua sendo um babaca, sabia?! ⏤ Ele gargalhou.

No mesmo dia, os investigadores seguiram para o primeiro trabalho em parceria. Foram à casa de Margarida na companhia de um desenhista que fizesse um retrato falado do sujeito que a roubara.

Iolanda já havia adiantado por telefone que estava assumindo o caso dela e que contava com a ajuda de um policial experiente e que também acreditava na sua versão. Após três horas no apartamento da vítima, eles saíram de lá com um esboço do rosto do suspeito e tinham planos de levá-lo à feira naquela mesma semana.

Na quarta, Iolanda e Carlos chegaram antes das sete horas da manhã na feira. Fizeram perguntas despretensiosas aos feirantes, zanzaram entre as barracas, mas não conseguiram que ninguém reconhecesse o homem desenhado na folha de papel A4. Estavam à paisana e resolveram ficar de tocaia em um bar próximo da barraca de verduras, afinal o meliante havia se apresentado como parente do mesmo.

Aproximava-se do meio dia. O cheiro de hortaliças apodrecendo impregnava a redondeza. Os investigadores preparavam-se para regressar à delegacia e estudar uma nova tática para localizar o bandido, mas, antes de deixarem a rua da feira, enquanto caminhavam pela calçada tomada pelas caixas de produtos dos feirantes, Iolanda viu do outro lado da rua um rapaz que batia com a descrição do retrato falado.

Ela tirou a folha de papel do bolso traseiro da calça jeans e olhou o desenho novamente, para se certificar de que não estava equivocada. Com discrição, cutucou Carlos para que ele fizesse o mesmo e confirmasse as suas suspeitas e, quando eles se entreolharam, sem que fosse necessário dizer uma única palavra, caminharam em direção ao sujeito, que, até o momento, não havia notado a presença dos policiais. Mas, quando estavam a poucos metros de distância, já não conseguiram passar despercebidos, e o homem correu.

Iolanda e Carlos saíram em disparada, não podiam deixá-lo escapar. O fugitivo, por estar em um lugar menos movimentado da feira, conseguiu se distanciar dos policiais, mas Iolanda era ágil e se desvencilhou das pessoas que ainda transitavam pelo comércio em busca de descontos especiais na hora da xepa.

O suspeito entrou em uma rua transversal e foi em direção à Rua Barata Ribeiro. A distância entre ele e Iolanda diminuía a cada metro percorrido e, um pouco mais atrás, Carlos dava cobertura.

A perseguição chamou atenção dos pedestres que transitavam, os quais, com medo e receio, davam passagem para que a policial se aproximasse cada vez mais do sujeito, que nesse momento já aparentava exaustão.

Quando estava perto o suficiente, Iolanda puxou a sua pistola e deu ordem para ele parar, caso contrário ela atiraria. O rapaz imediatamente colocou as mãos sobre a cabeça e se ajoelhou, repetindo incessantemente que não havia feito nada.

A inspetora algemou-o enquanto ele ainda estava de joelhos e aguardou Carlos chegar para que os três seguissem para a delegacia, que ficava a poucas quadras dali. 

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