Hora da Xepa – Capítulo 3 – Verdureiro

Não foi difícil para Iolanda encontrar o edifício de Carlos. A verdade é que ele nunca escondera onde morava. Pelo contrário, quando trabalharam juntos no caso do traficante Touro Bravo, por duas vezes passaram em frente ao prédio e, em ambas as ocasiões, ele disse “é aqui que eu me escondo”, como se fizesse questão de que ela tomasse conhecimento daquilo.  

Próximo das nove horas da noite, Iolanda chegou ao endereço de Carlos. Não sabia o número do apartamento, mas se apresentou ao porteiro e esperou que ele a anunciasse pelo interfone.

O porteiro trocou algumas palavras com Carlos e escutou mais do que falou. Ao desligar a chamada, ele gaguejou ao repetir exatamente o que havia escutado do morador. “A senhora não pode subir porque ele está acompanhado e pelado”, ele falou, constrangido. 

⏤ Desculpe, dona, mas ele me mandou dizer exatamente isso pra senhora.  

Iolanda revirou os olhos, pensando em como Carlos era um idiota por mandar o porteiro falar aquilo para ela. Decepcionada por ter perdido seu tempo e também pelo comportamento imaturo dele, ela agradeceu com simpatia a presteza do porteiro, que não tinha culpa alguma da tolice do policial. Deu-lhe as costas e saiu, mas, antes de chegar à rua, o porteiro voltou a chamá-la.

⏤ Dona, o doutor Carlos na verdade disse que a senhora podia subir, só pediu para antes eu fazer essa brincadeira. 

Iolanda revirou os olhos pela segunda vez em menos de cinco minutos. Pensou que, se não estivesse tão desesperada para saber a opinião do policial sobre o caso de Margarida, teria efetivamente ido embora. Mas, ao contrário, ela retornou, trocou algumas palavras com o porteiro e entrou no elevador, deixando o homem com mais uma tarefa inusitada para realizar.  

Iolanda subiu ao sexto andar e procurou a porta do apartamento de Carlos entre as quatro no hall de entrada. Antes de tocar a campainha, respirou profundamente. Há dois meses não o via e, pela maneira como se despediram no último encontro, somada ao fato de ele ter recusado a transferência para ser seu parceiro, ela sabia que a relação entre eles já não era a mesma.  

 Tocou a campainha e aguardou alguns segundos antes de a porta ser aberta pelo policial, que usava uma calça de moletom surrada e uma camiseta Hering branca justa, salientando seu corpo atlético.

Antes de que qualquer palavra fosse dita, eles encararam um ao outro por alguns segundos, com tímidos sorrisos nos cantos dos lábios. Em seguida, ele quebrou o silêncio.

 ⏤ Ué, você não foi embora? O seu Gilson me ligou para dizer que a minha brincadeira havia saído pela culatra. ⏤ Perguntou, confuso.

 Iolanda sorriu e disse com voz divertida.

⏤ E desde quando só você tem permissão de passar um trote?  

Ele riu sem esconder o alívio que sentia e a convidou a entrar.

⏤ Você quer alguma coisa para beber? ⏤ Perguntou educadamente, enquanto se acomodavam no sofá. 

⏤ Não, obrigada, Carlos. Não quero atrapalhar a sua noite, só preciso de um conselho profissional e vou embora.

⏤ Iolanda, deixa de bobagem. Vou trazer uma cerveja para a gente. Quem sabe conseguimos finalizar essa. ⏤ Carlos falou, referindo-se às duas vezes em que tomaram cerveja juntos e acabaram deixando a bebida pela metade. A primeira, quando se encontraram com os pais dela, na Taberna Atlântica, no Leme, e a segunda no apartamento dela, quando a conversa tomou um rumo que nenhum dos dois esperava.   

Quem sabe”, ela pensou, enquanto ele seguia para a cozinha e ela o acompanhava com os olhos. 

Ao regressar, entregou uma das latas para ela e sentou-se à sua frente, na mesinha de centro, não muito longe dela. 

⏤ Então, depois de dois meses, é você quem me procura. Acho que estamos quites, com os sumiços e as visitas inesperadas. ⏤ Ele falou, enquanto encostava os lábios na lata gelada, fazendo Iolanda se desconcentrar por um momento.

⏤ Sei que temos algumas coisas engasgadas para dizer um pro outro, mas não sei se devemos, e sinceramente espero que isso não seja um empecilho que atrapalhe o assunto que vim tratar com você hoje. Está bem? ⏤ Ela falou, enquanto ele a observava. Por fim, ele gesticulou com a cabeça em sinal afirmativo.

Iolanda explicou o que havia acontecido no caso de Margarida. O tratamento que a mulher havia recebido na delegacia, o que ela contara e, principalmente, o que deixara de contar por ter sido julgada pelo policial que a atendia. 

Falou sobre encontro que as duas tiveram horas antes e comentou o que havia descoberto sobre o roubo sofrido por Margarida. Enquanto a inspetora falava, Carlos observava como se estivesse criando conexões em sua cabeça. 

⏤ Margarida me contou que foi à feira, como todas as semanas. A mulher segue a mesma rotina há anos, frequenta os mesmos feirantes, compra as mesmas coisas, mas, dessa vez, assim que saiu de lá, foi abordada por um rapaz que dizia ser o sobrinho do dono da barraca de verduras. Ela disse que achou estranho, porque nunca tinha visto aquele rapaz antes, mas ele era simpático e, mesmo sabendo que não devia, aceitou a oferta dele de ajudá-la a levar as compras até a sua casa. 

⏤ Peraí! ⏤ Carlos interrompeu. ⏤ Ela disse que achou estranho, que tinha consciência de que não deveria aceitar, mas mesmo assim aceitou? ⏤ Ele perguntou, confuso.

⏤ Exato. Carlos, eu sei que em um primeiro momento parece uma história descabida, mas eu conversei com ela. Sua voz era de desespero, de alguém que sabia que estava fazendo uma coisa errada, mas que, ao mesmo tempo, não tinha forças para dizer não. Me chamou atenção quando ela, ao relatar o passo a passo daquela tarde, usou a expressão “era como se eu estivesse drogada”.   

  ⏤ O fato é que não quero trabalhar esse caso com o babaca do Nunes. Ele é um ser desprezível, que falou coisas horríveis sobre a vítima, chamou ela de coroa no cio e, pode ser impressão minha, mas senti que todos na delegacia pensam igual a ele, inclusive o Cardoso, que, apesar de não ter sido grosseiro como o Nunes, me aconselhou a esquecer o caso e gastar a minha energia com algo mais produtivo. Estou me sentindo de mão atadas, porque a verdade é que Margarida saiu tão decepcionada da delegacia que acabou não assinando o boletim de ocorrência, ou seja, não tenho nem o caso, oficialmente. O depoimento dela acabou sendo arquivado. 

⏤ Preciso da sua opinião. Preciso saber se realmente estou procurando cabelo em ovo ou se você também acha que há alguma coisa esquisita na história que te contei.

Carlos levantou, ele apresentava um olhar sério, pensativo. Andou de um lado para o outro da sala de estar. Mantinha a mão esquerda massageando lentamente o queixo, até que subitamente perguntou. 

⏤ Você acha que ela voltaria à delegacia para prestar um novo depoimento, sabendo que agora você é a policial responsável? ⏤ Carlos perguntou.

⏤ Sem chance! Antes de sair de lá, ela deixou claro que não voltaria a pisar na DP. ⏤ Iolanda respondeu. 

⏤ Acho arriscado você conduzir qualquer investigação sem o conhecimento do Cardoso. Vocês sempre tiveram uma relação amistosa, não é bom que você arrisque a confiança que ele tem por você. Mas concordo, existe algo estranho sim. 

Carlos voltou a sentar, dessa vez mais próximo dela, e, olhando fixamente em seus olhos, continuou a aconselhá-la.

⏤ Por que você não chama Cardoso para uma conversa fora da delegacia, para que não sejam interrompidos pelo Nunes. Você conta tudo isso pra ele e tenta convencê-lo de que existe um caso a ser investigado. Se ele concordar, você pode organizar um desenhista para ir à casa da Margarida fazer um retrato falado do homem que a abordou e, como o desenho nas mãos, vamos à feira ter uma conversa com o verdureiro para saber que história de sobrinho. 

⏤ Vamos… como nós vamos? ⏤ Iolanda perguntou, curiosa. 

⏤ Se você quiser se livrar do babaca do Nunes e me aceitar como seu novo parceiro, acho que consigo mexer uns pauzinhos.

Ela sorriu. 

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