Hora da Xepa – Capítulo 2 – Novo Parceiro

Há dois meses Iolanda vem trabalhando com seu novo parceiro. Ela não sabia que seria tão difícil aturá-lo. Seus dias passaram a ser mais longos do que o normal e todas as manhãs quando chega à delegacia, ainda do lado de fora, precisava inspirar profundamente para tomar fôlego, por saber que terá que enfrentar o sorriso irritante e malicioso do novo integrante da equipe.

Ela lembra o momento exato em que delegado Cardoso lhe deu a notícia oficial. Isso foi três dias depois da visita inesperada que recebeu de Carlos em seu apartamento, já tarde da noite.

Naquela manhã, assim que chegou, viu o delegado acenando para que ela fosse em sua sala e naquele instante imaginou o teor da conversa. Sentiu uma leve aceleração dos batimentos cardíacos e interpretou isso como um sinal positivo. Tivera três dias para digerir as palavras que trocara com Carlos em seu apartamento e sabia que muitas coisas não haviam sido ditas naquela noite. 

Assim que entrou em sua sala, o delegado, que estava ao telefone, gesticulou para que ela fechasse a porta e se sentasse. Enquanto aguardava, Iolanda mantinha a perna direita em um movimento ligeiro e contínuo, para cima e para baixo. Isso acontecia sempre quando estava nervosa. Ao perceber o olhar de reprovação do delegado, viu que a sua mesa vibrava pelo movimento que fazia. Imediatamente ela parou e manteve a mão na coxa para não repetir o gesto.  

⎯ Bom dia, inspetora! ⎯ O delegado falou, assim que desligou o telefone.

⎯ Bom dia, delegado. 

Os anos de convívio foram suficientes para ensiná-la que Cardoso somente a chamava de inspetora quando o assunto era sério. O que ela imaginava estar a ponto de escutar era motivo para deixá-lo tenso. Até onde ele sabia, ela e Carlos tinham uma rixa antiga, apesar da convivência pacífica que desempenharam enquanto trabalharam no caso de Touro Bravo. Sem dúvida, para ele, dar a notícia de que Carlos seria transferido para a delegacia de forma permanente era motivo de preocupação.

⎯ Bem, te chamei porque tenho um comunicado importante para fazer. Desde que o Figueira foi afastado estamos com um evidente déficit de agentes. A colaboração do inspetor Carlos no último caso de notoriedade pública só comprovou que precisamos suprir essa vaga o quanto antes. Por isso, o governador ordenou que resolvêssemos a situação antes que outro caso da mesma magnitude caia nas nossas cabeças, caso contrário será um prato feito para a mídia cair de pau nele. Então, te chamei aqui para dar a notícia em primeira mão, antes de contar aos outros, porque sei que você será a maior impactada com essa movimentação. 

A essa altura, o coração de Iolanda já estava em sua boca. Mesmo assim, ela fazia cara de paisagem para não levantar a suspeita de que Carlos já havia antecipado, confidencialmente, o assunto. Cada palavra dita pelo delegado gerava um sentimento de euforia na inspetora, sensação até pouco tempo desconhecidas por ela. 

⎯ Tivemos que correr para realizar a transferência dele e felizmente conseguimos. Então, quero te comunicar que, a partir de amanhã, o inspetor Rogério Nunes integrará a equipe da 12ª DP e, com a experiência e os anos de corporação que ele tem, ele será o seu novo parceiro.

Surpresa ao escutar o nome, que não era de Carlos, Iolanda quase derrubou o café que tomava e protestou. A sua reação causou estranheza ao delegado, e por pouco ela não revelou a sua decepção.

Desapontada, saiu da sala do delegado e conteve o impulso de ligar para Carlos para saber o que tinha acontecido para que a sua transferência não tivesse sido concluída, mas, no fundo, ela sabia exatamente o que havia acontecido. A sua personalidade durona, autossuficiente e rancorosa havia sabotado a relação que poderia ter com ele. 

No dia seguinte, Iolanda conheceu o seu parceiro, que instantaneamente foi rotulado como insuportável. Além de falastrão, era inconveniente e machista. Começaram a trabalhar juntos naquele mesmo dia, em uma investigação rápida que durou menos de uma semana, até encontrarem e prenderem o dono de um bar localizado na Rua Júlio de Castilhos. O preso, que estava escondido em um sítio em Campo Grande desde o dia do crime, confessou ter matado um cliente depois de uma briga por divergência sobre o valor cobrado na conta. Iolanda não fez nenhuma queixa ao delegado, mas sabia que o caso só havia sido resolvido por esforço dela. Uma semana depois da chegada de Rogério, a inspetora adicionava um novo rótulo ao parceiro, incompetência.

Mas a relação dos dois se complicou de vez quando, em uma tarde de sexta-feira, uma mulher de 55 anos entrou na delegacia para prestar uma queixa. Em seu depoimento, ela disse que havia sido roubada em sua casa, depois de permitir espontaneamente a entrada do assaltante. 

Iolanda soube do caso no dia seguinte, pois, na hora em que a mulher chegou para fazer a denúncia, ela estava em campo, investigando outro assunto junto com Rogério. Ao tomar conhecimento do caso e ler o depoimento da vítima, ela não entendia os motivos que a levaram a convidar um desconhecido para entrar em sua casa. Por dias Iolanda ficou lendo e relendo esse interrogatório para descobrir algum motivo que justificasse sua atitude.

Rogério, ao perceber que a inspetora ainda trabalhava no depoimento da mulher, debochou e insistiu que não havia o que investigar, dizendo: “Porra, inspetora, para de tentar achar cabelo em ovo! Tá na cara que a coroa tava carente, queria dar uma trepada e convidou o cara. Mereceu, a piranha”.

Abismada com o absurdo que escutara do policial, a inspetora precisou se controlar para não puxar a arma e estourar a cabeça doentia do parceiro. Mas, em vez disso, deu-lhe um sermão, que foi recebido com desdém. 

Apesar dos outros policiais não admitirem, Iolanda percebia que o entendimento sobre o caso era unânime. Nenhum de seus colegas acreditava na mulher que sofrera o golpe. 

Tinha menos de uma semana que a vítima fora prestar queixa, e Iolanda, percebendo que não teria respaldo da corporação, resolveu investigar o caso sozinha. Naquele mesmo dia, às quatro horas da tarde, pediu dispensa ao delegado, dando a desculpa de que precisava resolver um problema familiar, e saiu da delegacia carregando um envelope com a cópia do depoimento da senhora Margarida, além dos seus dados pessoais. Estava determinada a visitar a mulher e a entender o que de fato havia acontecido. 

Margarida morava perto da delegacia, mas, antes de ir à sua casa, a inspetora, que ainda não tinha almoçado, deu uma rápida parada para comprar um sanduíche no McDonald´s na Rua Hilário de Gouveia. Prestes a completar quatro anos da inauguração, a loja ainda ostentava na entrada a placa indicativa que aquela fora a primeira loja da rede na América Latina.  

Na fila a sua frente, três jovens treinavam entusiasmadamente o jingle que tornara popular por garantir um sanduíche extra a quem o cantasse em menos de dez segundos. É claro que todos que tentavam conseguiam realizar a tarefa proposta para ganhar a oferta, mas isso não desmerecia a estratégia de marketing adotada para fazer com que milhares de pessoas decorassem os ingredientes do famoso Big Mac, o carro chefe da multinacional. 

 Assim que acabou de comer, Iolanda foi ao orelhão que havia na esquina da mesma rua e ligou para a senhora Margarida, que atendeu ao segundo toque. Após identificar-se, Iolanda precisou implorar para que ela não desligasse o telefone e aceitasse recebê-la. Quinze minutos depois, a inspetora chegava ao edifício número 120 da Av. Nossa Senhora de Copacabana. 

Ao abrir a porta de casa, a senhora recebeu-a com frieza e educação e a convidou a sentar-se. A inspetora tirou o bloco de notas da bolsa e manteve o depoimento no envelope. A verdade é que ela já havia decorado todas as palavras daquelas cinco páginas, mas resolvera levar a cópia do documento para a casa de Margarida com o objetivo de confrontá-lo com a versão que conseguiria naquele fim de tarde. 

Por mais de uma hora Margarida lhe contou o que de fato havia acontecido. Iolanda percebeu que existiam vários pontos que não tinham sido mencionados no depoimento realizado na delegacia, e ela justificou o fato devido ao constrangimento provocado pelos policiais, que nitidamente não acreditavam em nenhuma palavra que dizia.  

⎯ A única coisa que eu queria era sair dali. Eles me julgaram antes mesmo de eu terminar o depoimento. Me senti imunda e de alguma maneira comecei a acreditar que eu era a culpada por ter aberto a porta para aquele sujeito. Mas eu sou a única pessoa que sei o que realmente sentia no momento. ⎯ Ela justificou.

Iolanda saiu de lá ainda mais intrigada com o caso, mas não tinha o menor interesse em compartilhar seus pensamentos com seu novo parceiro. Enquanto regressava para casa, pensava em uma maneira de conduzir aquele caso e teve uma ideia animadora. Mudou o seu trajeto e resolveu retribuir a visita que Carlos havia feito para ela dois meses antes. 

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