Hora da Xepa – Capítulo 1 – Visita

Iolanda estava esparramada no sofá da sala de seu apartamento. Vestia uma roupa confortável, era uma noite de temperatura amena, indício de que o inverno havia chegado. A janela semiaberta não a impedia de ouvir o ruído da rua, que adentrava o imóvel sem ser convidado. Mas ela morava há anos ali, e o barulho dos carros transitando pela Rua Tonelero já não a incomodava mais. 

Seu gato, Pingo, fazia-lhe companhia, ronronando em seu colo enquanto ela acarinhava seu corpo. No momento, a televisão transmitia um programa de comédia, mas ela pouca atenção prestava. Estava cansada e cochilava entre uma risada e outra que escutava. 

De repente, seu gato pulou de seu colo, assustando-a. Ele subiu no alto da prateleira que ficava acima da TV, no móvel da sala. O movimento repentino do felino significava apenas uma coisa: alguém estava do lado de fora do apartamento.  

Imediatamente voltou ao estado de alerta e, ainda sentada no sofá, olhou para a parte debaixo da porta de entrada, por onde viu a sombra de uma pessoa se movimentando do lado de fora do apartamento. A situação era suspeita. O indivíduo não fazia barulho algum, apenas caminhava lentamente de um lado para o outro, rente à sua porta, como se estivesse elaborando uma maneira de invadir o apartamento. 

Lentamente e sem desviar os olhos do alvo, ela tirou a sua arma do coldre que estava na mesa lateral e a destravou, deixando-a pronta para ação. Levantou-se e caminhou devagar, sem fazer ruído, acompanhando o movimento que vinha de fora. Pensou em olhar através do olho mágico, mas isso era arriscado: tomara conhecimento de casos de pessoas que levaram uma bala no olho por executar esse movimento tolo e não pretendia decorar as paredes de sua casa com seu próprio sangue. 

Os segundos foram passando e seu coração batia cada vez mais forte em seu peito, tinha a sensação de poder escutá-lo. Do alto da estante, seu gato miava discretamente, produzindo um som quase inaudível. Mas ela sabia que aquele era um sinal de que seu animal estava em alerta e com medo. Pingo não gostava de visitas, nem mesmo dos pais de Iolanda, que eram quem mais aparecia em seu território.

Iolanda precisava se defender da ameaça que a rondava, mas, ao mesmo tempo, tinha que ser responsável e não podia agir sem saber quem estava por detrás daquela porta. Por mais suspeita que fosse a situação, ela não arriscaria transformar o corredor de seu edifício em uma carnificina digna de filmes dirigidos por Francis Ford Coppola. 

Subitamente a sombra que via por debaixo da porta se afastou. Essa era a sua chance de correr e abri-la de supetão, enfrentando quem quer que fosse. Sem pensar duas vezes, em apenas alguns passos, ela alcançou a maçaneta e girou-a em um único movimento, mantendo a arma em punho e gritando palavras de ordem. Mas, quando o homem se virou, ela surpreendeu-se ao constatar que se tratava de Carlos. Ele encarava-a assustado, com as mãos para o alto, em posição de rendição. 

⏤ Porra, Carlos! Quer me matar do coração?! ⏤ Iolanda falou, com a respiração ofegante enquanto levava a mão esquerda ao peito. 

⏤ Foi mal, Iolanda. É que fiquei na dúvida se deveria ou não bater na sua porta, sem avisar. ⏤ Ele falou, com notório arrependimento por ter causado aquele estresse.

⏤ Posso me aproximar ou ainda corro risco de vida? ⏤ Carlos perguntou, com sarcasmo, ao ver que Iolanda ainda mantinha a arma apontada para seu peito. 

Ela revirou os olhos e a abaixou, convidando-o a entrar. No momento em que ingressavam, viram o gato assustado pular da estante, produzindo um miado agudo e correndo agilmente para o quarto.

⏤ Como você conseguiu entrar no prédio?

⏤ Fiquei vários minutos tocando a campainha da portaria, mas o porteiro não apareceu, até que uma senhora muito simpática chegou da rua com o cachorro e… não resistiu ao meu charme. 

⏤ Aposto que era a Denise, do 201. Ela é completamente irresponsável deixando estranhos entrarem no prédio. Essa não foi a primeira vez! Desculpa, Carlos, não foi nada pessoal, mas, convenhamos, como policial você tem que concordar comigo que isso é um perigo. ⏤ Iolanda falou, enquanto fechava a porta do apartamento, e continuou.

 ⏤ Você quer tomar alguma coisa? Tenho cerveja, refrigerante e água. ⏤ Ela perguntou, já caminhando em direção à cozinha.

⏤ Uma cerveja vai bem, obrigado.

Iolanda abriu a geladeira e pegou duas latas de Brahma Chopp. Jogou uma para ele, que estava apoiado no batente da porta da cozinha. Os dois abriram as latas em movimentos sincronizados, como se aquela situação fosse corriqueira. Mas, por mais que Iolanda tentasse manter a naturalidade, não conseguia parar de pensar naquela cena insólita e nos motivos que o levavam a procurá-la quase seis meses depois de eles concluírem o último caso em que trabalharam juntos. 

Eles voltaram para a sala tomando as suas cervejas. Sentaram-se no sofá, e segundos depois ela quebrou o silêncio.  

⏤ Quando você vai começar a dizer porque está aqui? Deve ter uma boa razão para isso, afinal somente agora você resolveu me procurar. ⏤ Iolanda falou, sem esconder a mágoa que sentia. 

⏤ Além disso, não me lembro de te falar onde eu morava, o que me leva a crer que você precisou fazer uma pequena investigação para descobrir. ⏤ Ela continuou, entre um gole e outro. 

⏤ Sim, você tem razão. Tem alguns motivos para eu estar aqui, mas vou por partes. Preciso te fazer uma pergunta e não dava para esperar até amanhã. ⏤ Ele falou sério.

⏤ Desembucha, o que houve? ⏤ Iolanda mostrava impaciência

⏤ Meu chefe me chamou hoje para conversar comigo em off. Disse que o delegado Cardoso ligou para ele para verificar a possibilidade de me transferirem para a 12a DP de forma definitiva.  Parece que a indicação partiu do gabinete do governador. Você sabe que, quando vem de cima, não é apenas uma indicação, é meio que mandatório. 

Iolanda escutava com atenção e tentava entender por que ele havia ido até o seu apartamento para antecipar aquela informação, da qual tomaria conhecimento em seguida. Ao mesmo tempo, questionava-se por que tinha sido a última a saber dessa possível movimentação. Cardoso havia tido inúmeras oportunidades para falar sobre o tema. Iolanda detestava ser deixada de lado, principalmente sobre um assunto que a envolvia.   

⏤ O fato é que, assim que ele me contou, fiquei preocupado e quis saber a sua opinião, afinal teríamos que trabalhar juntos em esquema permanente. Se você não estiver okay com isso eu vou entender e vou dar uma desculpa qualquer para recusar, mas, se você estiver de acordo…

Iolanda levantou-se e foi até a janela. De lá, virou-se para ele e disse.

⏤ Sinceramente, Carlos, não entendo o porquê de você estar preocupado com a minha opinião. Não nos vemos há quase seis meses. Durante esse tempo todo você não pareceu preocupado com o que eu pensava ou deixava de pensar. Aí hoje, sem mais nem menos, sem nenhuma explicação, você aparece para me perguntar o que eu acho da sua transferência? Me poupe, parece uma situação meio descabida. Isso não faz o menor sentido. ⏤ Ela falou, irritada.

Ele aproximou-se dela e disse. 

⏤ Você está puta pela iminência de ter que trabalhar comigo, ou porque eu não te procurei durante esse tempo todo?

Iolanda desviou os olhos de Carlos e voltou a olhar os carros na rua. 

⏤ Eu não estou puta, Carlos! Só não estou entendendo por que te importa o que eu penso ou deixo de pensar. Afinal, aparentemente você até o momento cagou para isso.

⏤ Iolanda, só quero saber se a minha transferência vai ser um complicador para você. Se você disser que sim, amanhã mesmo eu aviso ao meu chefe que não vou e o assunto morre antes mesmo de ser anunciado. ⏤ Carlos falou, com rispidez. 

⏤ Não, Carlos. Não será nenhum transtorno. Você é um policial competente e nós estamos precisando de reforço desde que o Figueira foi afastado. Se essa movimentação for boa para a sua carreira, fica tranquilo. Por mim não tem problema. ⏤ Iolanda falou, enquanto se dirigia à porta de saída. 

Abalado com a reação da inspetora, Carlos deixou a lata de cerveja, ainda pela metade, na mesa de centro e a seguiu. 

Antes que ela fechasse a porta, ele segurou-a e disse.

⏤ Esse era apenas um dos motivos de eu vir. A outra razão, pelo visto, perdeu a importância. 

Ele puxou a maçaneta com força, e a porta se fechou. Iolanda encostou a testa na madeira, tentando decifrar o que sentia. Era uma mistura de raiva, ressentimento e decepção que abalou a sua tranquila noite de folga.  

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