Capítulo Final – Invasão ao Apartamento 305

No carro, a caminho do Leme, Iolanda mostrava-se apreensiva. Antes de deixar a delegacia, apesar da hora, ela havia telefonado para os pais, certificando-se de que estavam bem e em segurança no hotel, na Barra da Tijuca.
O acordo que a polícia havia feito com o comparsa do Touro Bravo, dias antes, fora crucial para a execução da operação que estavam a ponto de iniciar, mas era evidente que confiar nas informações do criminoso era arriscado.
Haviam desenhado minuciosamente a abordagem, e Iolanda, apesar do estresse com que sofria, estava confiante de que esse seria o dia de sua vingança.
Duas horas antes de saírem para o confronto, dois policiais haviam dado entrada no Hotel Luxor Continental, assim como Iolanda e Carlos tinham feito dias antes, simulando uma lua de mel. De lá, eles poderiam acompanhar a movimentação da principal saída do morro e orientar os colegas sobre a reação dos criminosos assim que a polícia chegasse.
Dessa vez, a polícia não usaria helicóptero, mas uma aeronave havia ficado de prontidão para dar apoio caso fosse necessário.
A inspetora Iolanda estava sentada no banco da frente, ao lado do motorista, um colega novato na corporação. No banco traseiro estavam Carlos e outro agente, que trabalhava há alguns anos com Iolanda. Além desse veículo, outros dois seguiam o mesmo percurso, levando mais oito homens para a operação.
Os carros deixaram a delegacia em horários diferentes, com diferença de cinco minutos entre eles. Mantinham as sirenes desligadas, para não chamar atenção. Quanto mais próximos do alvo chegassem sem ser notados, mais chances de captura do traficante teriam.
Estrategicamente, assim que chegaram ao bairro do Leme, o veículo que conduzia Iolanda e Carlos entrou pela Rua Gustavo Sampaio e, 400 metros adiante, virou à esquerda na Rua Antônio Vieira. Seguiram até a esquina da Av. Nossa Senhora de Copacabana, onde, por trás no edifício número 30, havia uma passagem não convencional para o alto do morro. Era por esse caminho que os quatro policiais seguiriam, assim chegariam perto do ponto de abordagem sem chamar atenção.
Carlos subia na frente, seguido de Iolanda e dos outros dois agentes. Com as pistolas em punho, eles corriam escadaria acima e não sentiam o cansaço que gradativamente se acumulava. Apesar de a subida ser a mais adequada para a operação, era também a mais longa. Daquele ponto até o local onde a comunidade estava estabelecida havia um percurso de pouco mais de 500 metros, que teria que ser feito o mais rápido possível, com os agentes correndo no meio da mata fechada e de piso irregular. Isso os obrigava a redobrar a atenção. Da última vez em que estiveram em uma situação similar, Iolanda levara um tiro de raspão e ela não pretendia repetir a dose.
Ao aproximarem-se da favela, escutaram tiros ao longe. Era um sinal de que as duas equipes que haviam seguido pela rota tradicional já haviam iniciado a ofensiva. Iolanda sugeriu que eles se separassem, assim conseguiriam abranger um raio maior da área, de modo que, se o bandido tentasse escapar dando a volta pelo morro, as chances de encontrá-lo seriam melhores.
A contragosto, Carlos aceitou a sugestão, mas o incomodava saber que ela seguiria pelo trajeto sozinha. Ele sabia que seu julgamento era tolo, Iolanda era completamente capaz de se defender. Mas seu envolvimento emocional com a inspetora interferia na análise racional da situação e, subitamente, ele sentiu medo de que algo acontecesse com ela.
Assim que se separaram, Iolanda subiu ainda mais o morro, chegando quase ao topo. Ela ia em direção à extremidade oposta àquela na qual iniciaram a perseguição. Enquanto isso, Carlos manteve a rota original, aproximando-se das casas que ficavam no alto da comunidade.
Eram sete e trinta da manhã quando, depois de quase meia hora de confronto, o delegado autorizou o reforço do helicóptero, que começou a sobrevoar a área, reportando o que via desde o alto. Tanto eles desde cima, quanto os policiais em terra não viam sinais da presença de Touro Bravo. Com exceção de Iolanda, Carlos e os dois policiais que os acompanhavam, todos os outros, além de confrontar os bandidos, que respondiam com armamento pesado, faziam vistoria em becos, ruelas e nas casas dos moradores, que não apresentavam resistência.
Enquanto Iolanda ainda corria, dando a volta pelo alto do morro, trombou com um homem, que fugia com agilidade, e ambos se assustaram quando se viram cara a cara. Tratava-se de Touro Bravo, que vestia trajes militares para se movimentar na mata sem ser visto pelos ocupantes do helicóptero, mas não imaginava que esbarraria com policiais a postos no alto do morro. A uma distância de menos de dois metros, vendo que ela estava com a arma em punho, ele enfrentou-a antes que ela tivesse tempo de reagir, dando-lhe um soco no rosto, o que fez a arma cair da sua mão e se perder no meio das folhagens no piso.
Imediatamente ela se recompôs e voltou para posição de ataque. Agora era ele quem tinha uma arma na mão, a que trazia presa à calça enquanto corria. Ele apontou em sua direção e ela colocou as mãos para o alto, sabendo que o bandido não a deixaria viva.
Ele gritou e ordenou que ela ajoelhasse e colocasse as mãos sobre a cabeça, mas ela se recusou. Não pretendia se humilhar em seus últimos minutos de vida.
⏤ Não vou morrer de joelhos, seu escroto. Se quer me matar, faça feito homem, olhando na minha cara, babaca. ⏤ Iolanda falou, com fúria.
Touro Bravo ficou furioso e, quando estava a ponto de apertar o gatilho, um outro estampido foi ouvido por eles. Iolanda percebeu que o bandido fora atingido na parte posterior da coxa direita. Quando o bandido foi ao chão, Iolanda viu o rosto de Carlos a poucos metros deles. Consciente, Touro Bravo virou-se e atirou em direção a ele, mas acertá-lo seria uma tarefa difícil, considerando o ângulo em que estava. De imediato, antes que o criminoso tivesse tempo de atacar, a inspetora subiu em suas costas, imobilizando-o. Agarrou a arma que estava em sua mão e jogou-a para perto de Carlos. Enquanto algemava o bandido, encarava seu parceiro com o olhar agradecido por estar ali.
Horas mais tarde, o delegado Cardoso e a inspetora enfrentavam os flashes das dezenas de máquinas fotográficas durante a coletiva de imprensa. Respondiam aos questionamentos dos repórteres de diversas emissoras, que ansiavam por detalhes da operação que havia, por fim, capturado o bandido Touro Bravo, depois de ele ficar foragido por quase dois meses.
⏤ Investigadora Iolanda, sou Antônio, do Jornal da Hora. Como a senhora está se sentindo ao ser a responsável pela prisão do bandido, depois da fuga cinematográfica que aconteceu sob seu comando?
⏤ Assim como a fuga dele não pode ser colocada somente sobre meus ombros, como a imprensa fez, a prisão dele também não é uma conquista exclusivamente minha. Foi um trabalho em equipe, e gostaria de pedir para que os senhores deem os créditos aos demais colegas, principalmente ao inspetor Carlos de Oliveira, que salvou a minha vida nessa manhã.
Imediatamente, todos os repórteres olharam para o inspetor, que estava no canto esquerdo da sala. Ao final da primeira coletiva, Carlos não escapou de uma sabatina de perguntas.
No dia seguinte, antes de ir para a delegacia, Iolanda foi bem cedo ao hotel onde os pais estavam hospedados. Ali ficariam uns dias mais, até que as coisas se acalmassem. Touro Bravo fora o mandante da invasão do apartamento deles, mas seus comparsas continuavam soltos, e a inspetora não queria arriscar.
No caminho de regresso à delegacia, percebeu seu rosto estampado nas páginas dos jornais que eram expostos nas bancas em praticamente todas as esquinas da cidade. Ao lado dela, a foto de Carlos e, nas entrelinhas da reportagem do Jornal da Hora, o repórter enfatizava a parceria dos dois quando, em momentos distintos, salvaram suas vidas. Iolanda suspirou, pensando que aquele seria o último dia de trabalho de Carlos na 12ª DP de Copacabana. Ele voltaria para a sua delegacia e assim passariam outros tantos anos sem se ver.
Eram dez horas da manhã quando ela entrou na delegacia, Carlos estava na sala do delegado Cardoso, que, ao vê-la chegar, fez sinal para que fosse até a sua sala. Antes de ingressar, ela sentiu seus batimentos cardíacos acelerados. Eles cumprimentaram-se e ela sentou na cadeira vazia ao lado dele. Sutilmente se encararam e, segundos depois, voltaram a prestar atenção ao que o delegado dizia.
Ele agradeceu o trabalho dos dois e elogiou a maturidade que tiveram ao longo das semanas. Enquanto o delegado falava, eles entreolhavam-se sem fazer comentários.
⏤ Então, Carlos, quero te agradecer mais uma vez e dizer que você está oficialmente liberado para regressar ao seu posto. E agora, falando por mim, você fará falta por aqui. ⏤ Cardoso falou isso olhando para Iolanda, que se manteve calada.
Quando foram dispensados, Iolanda foi para sua mesa e, pouco tempo depois, Carlos seguiu-a, posicionando-se a sua frente.
⏤ Então, está feliz? Já posso voltar para o quinto dos infernos, para onde você gosta de me mandar. ⏤ Ele falou, rindo, mas Iolanda não achou graça e revirou os olhos.
⏤ Você sabe que eu não penso mais assim, acho que me acostumei com você. ⏤ Ela falou, esboçando um risinho.
⏤ Você ainda está me devendo um chope. ⏤ Ele falou, com um sorriso maroto.
⏤ Até onde sei, já paguei a aposta e não te devo mais nada. ⏤ Ela retrucou.
⏤ Sim, a aposta foi paga, o que prova que você é uma mulher de palavra, mas o desfecho da noite não foi como queríamos. ⏤ Ele falou, olhando diretamente em seus olhos.
⏤ Talvez tenha sido um alerta, para nos lembrar de que estávamos avançando o sinal. ⏤ Ela falou.
Antes de se despedir, ele encarou-a por um momento, como se precisasse dizer outras coisas para ela. Mas, sentindo que não havia reciprocidade, desencostou-se da mesa da inspetora e disse adeus. Antes de ele partir, porém, ela segurou a sua mão e falou:
⏤ Obrigada, Carlos. De verdade, obrigada por me ajudar nesse caso e por me salvar.
⏤ Estamos quites. Você também salvou a minha vida. E não estou me referindo ao episódio do Vidigal.
Iolanda sentiu as maçãs do rosto queimarem. Carlos riu, e deu um beijo carinhoso em seu rosto. Surpresa com a reação dele, a inspetora o viu partir, enquanto sentia um formigamento incomum no estômago.

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