Capítulo 9 – Invasão – Invasão ao Apartamento 305

Com os olhos arregalados, Iolanda não perdeu tempo e levantou-se em um único movimento. Carlos seguiu-a, entendendo o que se passava. Depois de se desvencilharem dos clientes que tomavam o espaço entre as mesas na calçada, os inspetores correram pela Rua Antônio Vieira.

Era uma noite quente de fim de primavera e, apesar do horário, o movimento era maior do que o normal. Carlos seguia Iolanda, ele não sabia para onde ir. Ao chegarem à esquina da Rua Gustavo Sampaio, viraram à direita e ela avistou a portaria do prédio onde os pais viviam, o edifício que competia em altura com o Hotel Le Meridien. Era um dos prédios residenciais mais altos da cidade, com 28 andares e quase 140 apartamentos. O acesso a ele demorava, já que era necessários pegar dois elevadores para chegar ao andar desejado. 

Seus pais moravam no apartamento 305. O imóvel era nos fundos do prédio e tinha vista para uma grande área verde do condomínio, mas essa vegetação dividia terreno com a favela que há semanas estava sendo vigiada pelos inspetores. 

Antes mesmo de chegarem à portaria, Iolanda viu a sua mãe sair do prédio, assustada. Seguia em direção a ela. 

 ⏤ Entraram no apartamento, e seu pai está lá! ⏤ Regina exclamou.

O coração da inspetora descompassou, como se isso fosse possível, uma vez que já estava acelerado desde quando recebera o envelope. Mas a possibilidade de seu pai estar rendido por bandidos a apavorava. 

Ao chegarem à portaria, Iolanda pediu para a mãe aguardar ali e, se possível, ligar para a delegacia, explicando a situação e pedindo reforço imediato. 

A inspetora perguntou ao porteiro se alguém havia entrado no prédio de forma suspeita. 

⏤ Não, dona Iolanda. Tudo na paz. ⏤ Ele respondeu. 

Iolanda e Carlos entraram no primeiro elevador, sozinhos, tiraram suas armas do coldre e, em um movimento quase simultâneo, checaram as pistolas, preparando-as para ação. 

⏤ Não acho que eles entraram pela portaria, Carlos. Tem um acesso pelo bosque, nos fundos do prédio. Eu vou para lá e você vistoria o apartamento. ⏤ Ela falou

⏤ É o apartamento 305? ⏤ Ele perguntou somente para confirmar, já que havia visto a foto recebida no restaurante. 

Ela confirmou, com o olhar preocupado, enquanto corriam pelo longo corredor que dava acesso ao segundo elevador. 

⏤ Onde estão as escadas? ⏤ Carlos perguntou, ao perceber que os três elevadores estavam longe do térreo.

⏤ Por aquela porta vermelha no fundo. Ao chegar ao andar, sai para a direita e vai até o final. ⏤ Ela falou isso enquanto corria por um corredor estreito e escuro, que dava acesso ao bosque do condomínio, um lugar que raramente era utilizado pelos moradores.  

Ao chegar ao terceiro piso, Carlos saiu para a área de acesso aos apartamentos e seguiu para a direita, como Iolanda havia dito. Percebeu que o apartamento 305 ficava no final de um corredor sem ventilação e pouco iluminado. A porta estava semiaberta e, com cautela, ele foi se aproximando sem fazer barulho. 

Tentava escutar algum ruído ou movimento vindo de dentro do imóvel, mas tudo estava silencioso.

Enquanto isso, Iolanda corria pelos corredores, que pareciam labirintos. Subia os degraus que levavam à área externa do prédio. Ao chegar próxima à porta de acesso, percebeu que ela estava trancada com cadeado. Não havia tempo para solicitar a chave ao vigia, ela então apontou a sua pistola e deu um tiro para liberar a trava. 

Ao escutar o estampido, mesmo distante, Carlos sabia que se tratava de tiro e, sem saber o motivo do disparo, acelerou o passou para ingressar no apartamento. Com a arma em punho, entrou de supetão, apontando a pistola, que já estava pronta para entrar em ação. A sala estava vazia.

Assim que rompeu o cadeado, Iolanda forçou a porta e avançou para a área externa. Estava escuro e ela não tinha lanterna para iluminar seus passos. Era uma operação arriscada, mas necessária. 

Dentro do apartamento, Carlos entrou no corredor que levava aos dois quartos. O primeiro estava com a porta aberta e ele percebeu que, assim como a sala, o cômodo também estava vazio. O segundo quarto ficava ao lado deste e estava com a porta fechada; ao forçar a maçaneta, viu que estava trancada. 

Não demorou a que ele escutasse ruídos de dentro do quarto e gritou palavras de ordem para que os bandidos se detivessem. Forçou a porta com um pontapé, mas foram necessárias duas tentativas para que o batente cedesse e ele entrasse. 

Iolanda já havia subido mais alguns degraus bosque acima, estando praticamente ao mesmo nível do apartamento quando escutou os gritos do parceiro. Ela olhou para o imóvel, que estava iluminado, e viu quando um dos bandidos saiu pela janela que ficava próxima ao muro que separava o condomínio do prédio vizinho. Ela correu para se aproximar e gritou para que Carlos a escutasse.

⏤ Está fugindo pela janela!

Ele correu, mas, nesse momento, já havia perdido o criminoso. Ao perceber que o pai de Iolanda não estava no apartamento, seguiu os passos do bandido, que havia serrado a grade de alumínio que protegia o imóvel. 

Ele, então, debruçou-se pelo lado de fora e apoiou o pé no muro, que tinha uma largura de 15 centímetros. Do lado do condomínio, ele podia ver o piso a uma distância de dez metros. Mas, para o outro terreno, devido ao desnível do solo, a altura era muito maior e uma queda para o lado errado seria fatal. 

Iolanda viu-o passando pelo muro e sabia o que havia do outro lado. No passado, quando seus pais resolveram comprar o apartamento, ela havia subido ali para se certificar da segurança do lugar. Seu coração acelerou ao ver o colega arriscar-se daquela maneira e, assim que ele desceu para um local seguro, ela foi ao seu encontro. 

⏤ O cara subiu por ali, precisamos ir atrás dele. ⏤ Ela falou, mas Carlos a deteve, segurando firmemente o seu braço. 

⏤ Não! Você está louca… Estamos sem reforços e sem lanternas. Como você acha que vamos conseguir persegui-lo?

⏤ Você encontrou o meu pai? ⏤ Ela perguntou, apreensiva.

⏤ Ele não estava no apartamento. Deve ter saído antes que eu chegasse.  

Surpresa, ela o encarou. Mas ao mesmo tempo se sentia aliviada.

⏤ Carlos, isso foi coisa do Touro Bravo, não foi uma invasão normal. As fotos comprovam que foi planejado. ⏤ Ela falou e ele concordou. 

Iolanda olhou para o breu. Por mais frustrante que fosse, Carlos tinha razão, não tinham como seguir sozinhos naquela escuridão. Precisavam de reforços. 

Voltaram ao edifício e encontraram os pais dela na portaria. Gilson contou que, assim que chegaram em casa, ele percebeu que o apartamento havia sido invadido, e ambos saíram correndo. Pediu que a esposa fosse chamá-la, enquanto ele foi à casa do síndico ligar para a polícia.

Momentos depois, o apartamento 305 foi invadido por policiais colegas de Iolanda, que buscavam pistas dos bandidos. Enquanto isso, Iolanda e Carlos levaram os pais dela para um hotel, longe dali, para que passassem alguns dias. Apesar de todos estarem nervosos, Iolanda omitiu que a invasão havia sido uma retaliação ao trabalho que haviam realizado, pois não queria preocupá-los ainda mais. 

Depois de acomodá-los, os inspetores voltaram para a delegacia, onde o delegado já os aguardava. Era uma e meia da manhã, mas eles sabiam que não havia tempo a perder. Com a vantagem de terem as informações sigilosas recebidas no depoimento do homem de confiança de Touro Bravo, eles tinham planejado uma nova operação tática.

Sairiam às seis horas da manhã em direção ao Leme e, dessa vez, Iolanda pretendia voltar com Touro Bravo na caçamba da polícia.   

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