Capítulo 8 – Dois Chopinhos – Invasão ao Apartamento 305

Sim, Carlos havia passado a perna em Iolanda! Quando ele propôs a aposta, já sabia que ela perderia, afinal havia recebido carta branca do delegado para negociar um acordo com o bandido em troca das informações de que eles precisavam para avançar com as investigações e capturar Touro Bravo. 

Sim, Iolanda, ao perceber que havia sido feita de boba por ele, ficou enfurecida! Mas, ao mesmo tempo nem tanto… e esse era um sentimento novo para ela. 

Depois do interrogatório ela foi tirar satisfação com o delegado e descobriu que, na noite anterior, Carlos havia ligado para a sua casa, sugerindo a estratégia do acordo, oferecendo ao bandido benefícios para que ele colaborasse. Cardoso gostou da ideia e, depois de ser autorizado pelo chefe da polícia civil do estado, deu carta branca para que Carlos conduzisse o depoimento, mas sugeriu que, antes, deixasse a inspetora a par do assunto. Porém, aparentemente, ele aproveitou para usar o fato a seu favor. 

Naquela tarde, Iolanda só conseguiu ir embora após ligar para os pais combinando o programa para sexta feira, às sete da noite, logo depois do expediente na delegacia. 

A mãe de Iolanda recebeu o convite com surpresa e imensa alegria, pois, desde que conhecera Carlos, perturbava a filha perguntando sobre ele. Quando as duas se falavam, não havia uma única vez em que Regina não tocasse no assunto.

Na sexta-feira, Carlos passou o dia de bom humor e não escondia de ninguém a sua felicidade, apenas omitia a sua razão. Por outro lado, Iolanda passou o dia séria. Não pretendia dar esse gostinho a Carlos, por mais que ela também estivesse ansiosa. Nos dias prévios ao encontro, por vários momentos, ela se pegou pensando nele e percebeu que sua companhia não era tão repulsiva quanto antes. A experiência de passarem dez dias trancafiados em um quarto do hotel no Leme não fora tão desagradável: ainda existia um abismo enorme entre a relação que tinham e amizade, mas ela sabia que poderia ser o começo de uma parceria. 

Eram seis e meia da tarde quando ele veio todo sorridente à sua mesa. 

⏤ Vamos? ⏤ Ele perguntou. 

⏤ Você está louco? Acha que vou sair daqui contigo? Claro que não. Eu vou sair primeiro e depois você vai. Nos vemos lá. Isso não é um encontro, Carlos, é apenas o pagamento da aposta. 

Ele gargalhou e a deixou aprontar-se para sair.

O programa havia sido marcado perto da casa dos pais dela, na Taberna Atlântica, um restaurante em frente à praia do Leme e que não era distante da delegacia. Então, Iolanda caminhou até a Av. Atlântica e seguiu por ela os poucos quarteirões. Quando ela passava em frente à Praça do Lido, Carlos a alcançou e gritou o seu nome quando já estava a poucos metros dela. Ela se virou e o aguardou.

⏤ Você sabia que o seu comportamento dá muito mais bandeira do que se tivéssemos saído juntos da delegacia? Parece até que você está considerando isso como encontro. 

Ele tinha razão, e ela sabia disso. Não entendia por que se comportava daquele jeito. Por mais que tivesse dito que esse chope era o pagamento da aposta, no fundo ela sentia que não era bem assim. O fato é que estava desfrutando, e isso a apavorava. 

⏤ Por que você reluta tanto para que tenhamos uma relação mais próxima, Iolanda? Não consigo entender. ⏤ Ele perguntou, com sinceridade. 

Ela respondeu sem olhar para ele.

⏤ Lá atrás, começamos com o pé esquerdo e realmente nunca senti necessidade de me aproximar de você, Carlos. Só isso.

⏤ Eu sinto muito pelo modo como tudo começou. ⏤ Ele falou, segurando o seu braço para que ela parasse de andar e o encarasse, e continuou.

⏤ Em minha defesa, eu era um moleque e fui traído por minha autoconfiança e arrogância ao achar que você era uma oponente medíocre só por ser mulher. Mordi a minha língua e, quando percebi isso, já estava no chão, dominado por você. A turma toda riu de mim, e fiquei puto. Sei que não justifica, mas, porra, eu tinha 23 anos. E com minha imaturidade só consegui pensar em uma forma escrota de me vingar. Só percebi a merda que fiz no dia que nos reencontramos. Quando a chamei de pitéu, de piada, vi o quanto você se irritou. Por isso estou aqui formalmente pedindo desculpas.    

Iolanda olhava e escutava com atenção. Há doze anos esperava por isso, e sua sinceridade a pegou de surpresa. Em um mundo predominantemente machista, ela havia sido treinada a estar sempre na defensiva e, agora, não sabia como reagir. Assim que ele terminou, ela apenas falou.

     ⏤ Vamos, meus pais estão esperando.

Eles voltaram a caminhar apressadamente, como se estivessem atrasados, mas o que Iolanda precisava era sentar e tomar um chope bem gelado para relaxar. Ela estava tensa e sentia as pernas trêmulas. O pedido de desculpas de Carlos a havia nocauteado. 

Ao aproximarem-se da Taberna Atlântica, Iolanda viu que seus pais já estavam sentados à mesa cativa e eram atendidos pelo Jorge, garçom há mais de vinte anos na casa.

⏤ Ei, dona Iolanda! Minha cliente predileta! ⏤ Jorge falou.

⏤ Boa noite, seu Jorge! Não se declare assim, senão o senhor vai perder esses dois fregueses mais assíduos do que eu. ⏤ Ela falou, apontando para os pais. 

⏤ Que isso, dona Iolanda, a família toda mora no meu coração. Vão dois chopinhos aí? ⏤ Ele perguntou para ela, já que seus pais já tinham os seus na mesa. 

O garçom saiu e começaram os cumprimentos. Abraços, tapinhas nas costas, beijos no rosto, e os quatro se sentaram. A conversa fluía bem, assim como a primeira tulipa de chope, que, com o calor, desceu mais rápido do que de costume. 

Iolanda já se sentia relaxada e notou como Carlos interagia bem com seus pais, que, ao mesmo tempo, pareciam estar adorando a companhia dele. Como Iolanda pouco conversava com eles sobre trabalho, até para não os preocupar, Regina e Gilson fizeram muitas perguntas para Carlos, que contava com empolgação os bastidores do dia a dia da polícia. Além disso, dizia-lhes como sua filha era durona e boa de briga, enchendo os pais de orgulho a cada palavra positiva que ele pronunciava. 

Iolanda até achou graça, já que em diversos momentos percebeu um certo exagero de Carlos nas histórias que contava, talvez para torná-las mais engraçada ou dramáticas. Passadas duas horas, seus pais se levantaram e Iolanda também se mexeu na cadeira para ir embora, mas sua mãe protestou.

⏤ Não, não, não! Nós estamos indo porque somos coroas. Vocês fiquem mais um pouco e aproveitem a noite. 

⏤ Pode deixar, dona Regina. Vou prender a sua filha aqui, nem que para isso eu precise usar algemas. 

Regina piscou o olho para ele, riu e, saindo junto com Gilson, deixou-os a sós. 

⏤ É! Parece que você conquistou meus velhos! ⏤ Iolanda falou, enquanto tomava um gole de chope. 

⏤ Eu sou um cara maneiro, Iuiú. Só você que não quer enxergar. 

Ela revirou os olhos quando ele a chamou pelo apelido com que os pais a chamavam, afinal haviam feito isso a noite toda.

⏤ Olha, Carlos, vou ser sincera com você! Isso é tudo muito novo para mim. 

⏤ Isso o quê? ⏤ Ele perguntou, passando por desentendido.

⏤ Nós! Essa relação amistosa. Até há pouco tempo nos odiávamos. 

⏤ Iolanda, eu nunca te odiei. Não sei de onde você tirou essa ideia. 

Ela olhou para ele e levantou uma das sobrancelhas. 

⏤ Ok! Eu sei de onde você tirou essa ideia, mas será que o meu pedido de desculpas não serve de nada?

Nessa hora, eles conversavam com mais intimidade. Olhavam-se com intensidade, possivelmente resultado dos chopes que já haviam tomado. O clima entre os dois foi interrompido por Jorge, o garçom, que trazia um envelope em uma das mãos e, na outra, uma bandeja repleta de tulipas cheias de chopes, que seriam distribuídas por várias mesas. 

⏤ Dona Iolanda!  Um rapaz pediu para eu entregar isso para a senhora. 

E antes que ela o questionasse quem solicitara, o garçom já havia partido apressado para continuar o seu trabalho. 

Iolanda abriu o envelope e notou que dentro dele havia algumas fotografias. A primeira era a imagem de uma porta, de um apartamento 305, lugar que conhecia bem. Iolanda gelou ao folhear as outras fotografias e encontrar imagens de seus pais em diversos lugares de suas rotinas no bairro. 

Iolanda olhou assustada para Carlos e falou.

⏤ Eles estão no apartamento dos meus pais.   

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