Capítulo 7 – Aposta – Invasão ao Apartamento 305

A operação não saiu como o esperado, mas também não foi ruim. Não houve policiais feridos, e isso já era motivo de comemoração. Afinal, não era sempre que saiam ilesos de confrontos com bandidos. 

O objetivo de capturar Touro Bravo infelizmente não fora atingido, mas Iolanda e Carlos conseguiram, juntos, prender um dos homens de confiança do chefe do morro. Isso significava que, se conseguissem um depoimento contundente, avançariam nas investigações, possibilidade que era promissora. 

A pressão que vinham recebendo do gabinete do governador continuava alta, mas a operação daquela manhã havia conseguido acalmar os ânimos das autoridades, inclusive o do delegado Cardoso, que os recebeu com um sorriso estampado no rosto. Iolanda era a única que se mostrava frustrada. Perfeccionista por natureza, ela só conseguia enxergar que o objetivo da operação não havia sido concluído. 

Meia hora depois de entrarem na delegacia com o homem algemado, começou o interrogatório em uma sala pequena, sem ventilação, com uma iluminação fluorescente centrada na mesa retangular de 1,80 x 1,20m.

Primeiro entrou Iolanda para interrogá-lo. Ao vê-la, o bandido sorriu e a provocou, dizendo que, se ela topasse um programa em sua cela, ele colaboraria com o que ela quisesse. A inspetora estava acostumada com aquele tipo de comportamento e se impôs, como sempre, deixando claro que era ela quem estava no comando da situação. Na sala de testemunhas, apenas o delegado Cardoso e o inspetor Carlos a observavam, e assim que Iolanda tomou as rédeas do interrogatório o inspetor sorriu discretamente, aprovando a sua conduta.

Iolanda passou mais de uma hora com o bandido, mas ele não cedeu às suas perguntas, que não foram poucas, muito menos ineficientes. Ele era um homem de confiança de Touro Bravo e estava disposto a manter esse status. 

Frustrada, Iolanda saiu da sala e sentou-se em sua mesa com as mãos sobre a cabeça. Agora, era a vez do delegado, que entrou dez minutos depois de ela sair. Foram outros quarenta minutos jogados no lixo, pois o bandido continuava na defensiva e manteve-se calado. 

Já era noite quando o bandido foi levado para a cela. No dia seguinte pela manhã eles voltariam a insistir; uma noite no xadrez era sempre um bom conselheiro para fazer com que bandidos colaborassem.

Às sete e meia da manhã, Iolanda ingressou na rua da delegacia e viu que Carlos também chegava naquele momento. Ao vê-la, ele diminuiu o passo para entrarem juntos. 

⏤ Bom dia, Iolanda!  ⏤ Ele cumprimentou-a, com simpatia. 

⏤ Bom dia pra quem? ⏤ Ela respondeu seca, mas logo se arrependeu.

⏤ Desculpe, Carlos, você não tem culpa do meu mau humor matinal. ⏤ Então, ela esboçou um sorriso.

Por sua vez, ele, sempre bem humorado, reagiu com palavras motivadoras de que o dia prometia ser melhor. Sem acreditar que aquilo poderia ser realmente verdade, ela revirou os olhos e Carlos riu da sua negatividade.

Assim que entraram, eles se reuniram com o delegado em sua sala e ele informou que Carlos entraria para interrogar o preso. Iolanda protestou, pediu para tentar outra vez, disse que havia passado a noite acordada pensando em uma estratégia para conseguir as informações de que precisavam. 

Carlos não fez objeções e o delegado, mesmo contrariado, resolveu ceder. Lembrou-se da conversa que havia tido com Iolanda dias antes e sabia que o caso era importante para ela.

⏤ Você tem meia hora. Se não conseguir, o Carlos entra. ⏤ Cardoso falou.

⏤ Não preciso mais do que isso. ⏤ Ela respondeu, com segurança.

Ao deixarem a sala do delegado, ela voltou ao seu posto de trabalho para pegar as anotações que havia feito na madruga e foi seguida por Carlos, que se recostou na mesa ao seu lado. Enquanto ela revirava uns papéis em sua pasta de trabalho, ele falou.

⏤ Viu como não sou esse monstro que você pinta? 

⏤ Por que você está dizendo isso? Por ter permitido que eu o interrogasse novamente? ⏤ Ela falou com ironia e continuou. ⏤ Pois não faz mais do que a sua obrigação, já que está emprestado nesse caso e, se Deus quiser, por pouco tempo.

⏤ Você é mesmo uma ingrata, sabia? Já que você é a “fodona” da 12a. DP, quero fazer uma aposta: quem consegue “quebrar” o homem. 

Iolanda encarou-o com interesse, afinal a ideia de desafiá-lo se mostrou tentadora.

⏤ Se você conseguir, magicamente, que ele colabore, eu prometo que amanhã mesmo eu peço ao delegado que me libere e eu volto para a minha delegacia.  

⏤ E se eu não conseguir? ⏤ Ela perguntou, com petulância.

⏤ Se nenhum dos dois conseguir, ficamos na mesma e você me atura até o fim desse caso. Mas, se eu conseguir, você vai ligar ainda hoje para a sua mãe e dizer que me convidou para jantar na casa deles na sexta-feira.

Supresa, Iolanda levantou-se e encarou-o com revolta. 

⏤ Claro que não! Já disse que não, que você não vai pisar na casa dos meus pais. 

Carlos gargalhou e continuou.

⏤ Mas você não é a “boazona” da parada, não está certa de que conseguirá o que quer em menos de meia hora? Está com medinho? 

Suas palavras a deixaram furiosa e ela fez uma contraproposta.

⏤ Okay! Se você conseguir quebrá-lo, tomamos um chope na sexta.

⏤ Com os seus pais. ⏤ Ele completou. Ela revirou os olhos e respondeu. ⏤ Com os meus pais.

 Ele estendeu o braço e a mão direita, Iolanda fez o mesmo e eles selaram o acordo. Encaravam-se com seriedade enquanto apertavam as mãos. Iolanda sentiu a pele quente de Carlos e isso a perturbou.

A meia hora cedida pelo delegado havia se passado e Iolanda não conseguira nada. Ao sair da sala, Carlos já esperava para entrar e sustentava um sorriso malicioso nos lábios. 

⏤ Tira esse sorriso ridículo da cara, porque eu duvido que consiga alguma coisa diferente. 

⏤ Você não sabe do que eu sou capaz. ⏤ Ele a afastou delicadamente, piscando o olho e entrando na sala com pressa. 

Ela apressou-se para a sala de testemunhas. Queria acompanhar o interrogatório conduzido por Carlos e ficou atônita ao perceber que ele tinha uma carta escondida na manga. E então, aos vinte e sete minutos de interrogatório, o preso começou a falar.  

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