Capítulo 6 – Lua de Mel – Invasão ao Apartamento 305

Iolanda chegou à delegacia às oito e meia da manhã. Quase não havia dormido naquela noite. A causa da insônia não era dor no ombro, para isso havia tomado o analgésico prescrito pelo médico, mas sim a frustração de ter falhado na captura do bandido.

Ao entrar, viu que todos se reuniam na sala grande. O delegado Cardoso falava no momento em que ela apareceu, e o silêncio foi imediato.

⏤ O que você está fazendo aqui? ⏤ O delegado perguntou.

⏤ E onde mais eu estaria? ⏤ Ela respondeu, com petulância.   

O delegado suspirou e fez sinal para que ela o acompanhasse até a sua sala, mas, antes, dispensou os agentes da reunião que estavam realizando.

Assim que entraram, ele fechou a porta e se sentou, enquanto ela ficou de pé. Tinha muita adrenalina circulando em seu corpo para ficar sentada.

⏤ Quantos dias de repouso eles te deram? ⏤ Ele perguntou, em tom austero.

⏤ Não sei, joguei fora o atestado antes de sair do hospital.

⏤ Porra, inspetora! Você é muito teimosa! ⏤ Ele retrucou.

⏤ Vou considerar isso como um elogio.

Ele bufou e ela continuou.

⏤ Cardoso, a mesma corda que está no seu pescoço também está no meu. Não tenho como tirar dias de “férias” em um momento como esses. Preciso trabalhar na captura desse crápula, que me fez de idiota na frente de todo mundo. 

⏤ Ah! Então é isso! Você está com o ego ferido. Para seu governo, ele fez todos de bobo. 

⏤ Acontece, Cardoso, que eu sou a única mulher, e no fundo é isso que as pessoas lembram. Se você ligar agora, nesse minuto, para qualquer delegacia, ou emissora de rádio, ou gabinete do governador, ou até mesmo para o diabo no inferno e perguntar quem estava na delegacia na hora da fuga, tenho certeza absoluta de que a resposta vai ser: “a investigadora Iolanda Braga. E uns outros agentes também estavam lá”. Ninguém sabe o nome dos homens que estavam comigo aqui. 

Ele compreendeu a angústia da subordinada e aceitou que voltasse para o caso, com as condições de que ficaria de olho nela e que, se a visse fazer uma única cara de dor por conta do ferimento que tinha no ombro, ela seria mandada para casa. 

Iolanda não falou nada, mas essa condição imposta pelo delegado só o colocava no mesmo patamar que todos os outros policiais que a consideravam o sexo frágil na corporação. Essa era uma realidade que enfrentava diariamente, mas algumas vezes tal diferenciação lhe doía mais do que em outras. 

Voltou ao seu posto, sob os olhares atentos dos colegas que, apesar de não terem escutado o que havia sido dito na sala do delegado, testemunharam os gestos de ambos, suficientes para deduzir que a conversa não havia sido amistosa.

Carlos, que ocupava a mesa do Figueira por ele ainda estar afastado, acompanhou tudo também e se levantou assim que Iolanda se sentou. Ele caminhou até a sua mesa e se apoiou no arquivo ao lado.

⏤ O que foi? Também vai me encher o saco dizendo que tenho que ficar em casa?! ⏤ Ela provocou.

⏤ Claro que não! Acharia estranho se você não estivesse aqui. Não combinaria contigo.

Ela o encarou e esboçou um leve sorriso, que foi retribuído por ele. 

⏤ Ok! O que temos, então? Vamos trabalhar. ⏤ Ela falou.

 Os dias passaram e a equipe trabalhava intensamente, em turnos de quinze horas. A pressão dos superiores para a conclusão do caso era cada vez maior; enquanto isso, o prazo que tinham era menor.

Por dez dias, Carlos e Iolanda se revezaram em um quarto do oitavo andar do Hotel Luxor Continental, no Leme. O hotel, localizado na esquina das ruas Gustavo Sampaio e Aurelino Leal, tinha os quartos de número ímpar voltados para os fundos. Estes, rejeitados por turistas, eram os queridinhos da polícia, pois de lá eles conseguiam ter uma visão privilegiada da movimentação da principal entrada do morro, na Rua General Ribeiro da Costa.

Para não chamarem atenção, já que muitos funcionários do hotel moravam na favela, os investigadores ingressaram como turistas e com identidades falsas. Iolanda e Carlos, agora recém-casados, fizeram o check-in na tarde do dia sete de dezembro de 1981. O prestativo funcionário, sabendo que se tratava de um casal em lua de mel, ofereceu-lhes um upgrade para uma suíte de frente e em um andar mais alto, de onde conseguiriam ver o mar, mas Carlos recusou a cortesia dizendo não pretendiam abrir as cortinas.

⏤ Se é que você me entende? ⏤ Carlos, com voz maliciosa, falou ao funcionário. 

O homem pigarreou e Iolanda, que externava um sorriso sem graça, no fundo, queria matá-lo pela situação constrangedora que ele provocara.

Com a chave do quarto na mão, Carlos olhou para Iolanda e, com um sorriso travesso, perguntou.

⏤ Quer que eu te carregue no colo, Iuiú?

Iolanda não se deu ao trabalho de responder, apenas revirou os olhos e empurrou a porta com força, deixando Carlos, que gargalhava sozinho, para trás. 

Munidos de binóculos e rádios, para se comunicarem com a delegacia e com o resto da equipe, que estava em solo, eles passavam os dias e as noites se revezando na janela. Observavam e anotavam o movimento de entra e sai do morro e, pelo que constataram, tudo levava a crer que Touro Bravo estava de volta à área e no comando do tráfico. 

Então, a operação para subir o morro foi agendada. Os investigadores já haviam finalizado a farsa da lua de mel; tinham dados suficientes para a execução da ação tática, agora era questão de tempo para concluírem os trabalhos. 

No dia da operação, quando estavam a caminho do Leme, Carlos, que se sentava ao lado de Iolanda, disse. 

⏤ Se conseguirmos capturar esse filho da puta, para comemorar ligarei para a sua mãe e aceitarei o jantar. 

Ela olhou sem entender de onde ele havia tirado aquela ideia e protestou, dizendo com desprezo.

Iolanda chegou à delegacia às oito e meia da manhã. Quase não havia dormido naquela noite. A causa da insônia não era dor no ombro, para isso havia tomado o analgésico prescrito pelo médico, mas sim a frustração de ter falhado na captura do bandido. 

Ao entrar, viu que todos se reuniam na sala grande. O delegado Cardoso falava no momento em que ela apareceu, e o silêncio foi imediato.

⏤ O que você está fazendo aqui? ⏤ O delegado perguntou.

⏤ E onde mais eu estaria? ⏤ Ela respondeu, com petulância.   

O delegado suspirou e fez sinal para que ela o acompanhasse até a sua sala, mas, antes, dispensou os agentes da reunião que estavam realizando.

Assim que entraram, ele fechou a porta e se sentou, enquanto ela ficou de pé. Tinha muita adrenalina circulando em seu corpo para ficar sentada.

⏤ Quantos dias de repouso eles te deram? ⏤ Ele perguntou, em tom austero.

⏤ Não sei, joguei fora o atestado antes de sair do hospital.

⏤ Porra, inspetora! Você é muito teimosa! ⏤ Ele retrucou.

⏤ Vou considerar isso como um elogio.

Ele bufou e ela continuou.

⏤ Cardoso, a mesma corda que está no seu pescoço também está no meu. Não tenho como tirar dias de “férias” em um momento como esses. Preciso trabalhar na captura desse crápula, que me fez de idiota na frente de todo mundo. 

⏤ Ah! Então é isso! Você está com o ego ferido. Para seu governo, ele fez todos de bobo. 

⏤ Acontece, Cardoso, que eu sou a única mulher, e no fundo é isso que as pessoas lembram. Se você ligar agora, nesse minuto, para qualquer delegacia, ou emissora de rádio, ou gabinete do governador, ou até mesmo para o diabo no inferno e perguntar quem estava na delegacia na hora da fuga, tenho certeza absoluta de que a resposta vai ser: “a investigadora Iolanda Braga. E uns outros agentes também estavam lá”. Ninguém sabe o nome dos homens que estavam comigo aqui. 

Ele compreendeu a angústia da subordinada e aceitou que voltasse para o caso, com as condições de que ficaria de olho nela e que, se a visse fazer uma única cara de dor por conta do ferimento que tinha no ombro, ela seria mandada para casa. 

Iolanda não falou nada, mas essa condição imposta pelo delegado só o colocava no mesmo patamar que todos os outros policiais que a consideravam o sexo frágil na corporação. Essa era uma realidade que enfrentava diariamente, mas algumas vezes tal diferenciação lhe doía mais do que em outras. 

Voltou ao seu posto, sob os olhares atentos dos colegas que, apesar de não terem escutado o que havia sido dito na sala do delegado, testemunharam os gestos de ambos, suficientes para deduzir que a conversa não havia sido amistosa.

Carlos, que ocupava a mesa do Figueira por ele ainda estar afastado, acompanhou tudo também e se levantou assim que Iolanda se sentou. Ele caminhou até a sua mesa e se apoiou no arquivo ao lado.

⏤ O que foi? Também vai me encher o saco dizendo que tenho que ficar em casa?! ⏤ Ela provocou.

⏤ Claro que não! Acharia estranho se você não estivesse aqui. Não combinaria contigo.

Ela o encarou e esboçou um leve sorriso, que foi retribuído por ele. 

⏤ Ok! O que temos, então? Vamos trabalhar. ⏤ Ela falou.

 Os dias passaram e a equipe trabalhava intensamente, em turnos de quinze horas. A pressão dos superiores para a conclusão do caso era cada vez maior; enquanto isso, o prazo que tinham era menor.

Por dez dias, Carlos e Iolanda se revezaram em um quarto do oitavo andar do Hotel Luxor Continental, no Leme. O hotel, localizado na esquina das ruas Gustavo Sampaio e Aurelino Leal, tinha os quartos de número ímpar voltados para os fundos. Estes, rejeitados por turistas, eram os queridinhos da polícia, pois de lá eles conseguiam ter uma visão privilegiada da movimentação da principal entrada do morro, na Rua General Ribeiro da Costa.

Para não chamarem atenção, já que muitos funcionários do hotel moravam na favela, os investigadores ingressaram como turistas e com identidades falsas. Iolanda e Carlos, agora recém-casados, fizeram o check-in na tarde do dia sete de dezembro de 1981. O prestativo funcionário, sabendo que se tratava de um casal em lua de mel, ofereceu-lhes um upgrade para uma suíte de frente e em um andar mais alto, de onde conseguiriam ver o mar, mas Carlos recusou a cortesia dizendo não pretendiam abrir as cortinas.

⏤ Se é que você me entende? ⏤ Carlos, com voz maliciosa, falou ao funcionário. 

O homem pigarreou e Iolanda, que externava um sorriso sem graça, no fundo, queria matá-lo pela situação constrangedora que ele provocara.

Com a chave do quarto na mão, Carlos olhou para Iolanda e, com um sorriso travesso, perguntou.

⏤ Quer que eu te carregue no colo, Iuiú?

Iolanda não se deu ao trabalho de responder, apenas revirou os olhos e empurrou a porta com força, deixando Carlos, que gargalhava sozinho, para trás. 

Munidos de binóculos e rádios, para se comunicarem com a delegacia e com o resto da equipe, que estava em solo, eles passavam os dias e as noites se revezando na janela. Observavam e anotavam o movimento de entra e sai do morro e, pelo que constataram, tudo levava a crer que Touro Bravo estava de volta à área e no comando do tráfico. 

Então, a operação para subir o morro foi agendada. Os investigadores já haviam finalizado a farsa da lua de mel; tinham dados suficientes para a execução da ação tática, agora era questão de tempo para concluírem os trabalhos. 

No dia da operação, quando estavam a caminho do Leme, Carlos, que se sentava ao lado de Iolanda, disse. 

⏤ Se conseguirmos capturar esse filho da puta, para comemorar ligarei para a sua mãe e aceitarei o jantar. 

Ela olhou sem entender de onde ele havia tirado aquela ideia e protestou, dizendo com desprezo.

⏤ A captura desse bandido não é mais do que a nossa obrigação. Além disso, vou repetir o que disse no hospital: você nunca pisará na casa dos meus pais.  

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