Capítulo 5 – Trégua – Invasão ao Apartamento 305

A dor no ombro começou a incomodar assim que Iolanda percebeu que havia sido alvejada. “É psicológico”, ela pensou, querendo continuar as buscas pelo traficante, que por pouco não fora capturado. 

⏤ Você está louca? Seu ombro está ensanguentado, precisa ir para o hospital. ⏤ Carlos reagiu. 

⏤ Não seja exagerado. Foi de raspão. ⏤ Ela respondeu, com rispidez.

⏤ Não acho que tenha sido só raspão. Vamos, eu te ajudo a descer. ⏤ Carlos falou, se aproximando para que ela se apoiasse nele. 

⏤ Está bem! Está bem, eu vou! Mas vocês ficam aqui. Vão atrás do filho da puta. Estamos muito perto, não podemos falhar. Eu desço sozinha! 

Contrariando a sua vontade, um dos policiais que havia desembarcado do helicóptero com ela a acompanhou, enquanto Carlos e o outro agente seguiram na empreitada da captura do bandido. 

No caminho, enquanto desciam o morro, encontraram a equipe de solo, que subia correndo depois de conseguir se desvencilhar dos bandidos que haviam reagido contra eles, fazendo o trabalho de cobertura da fuga do traficante.

Enquanto parte dos policiais subiram para dar cobertura a Carlos, outros desceram para proteger Iolanda, que já não parecia tão forte quanto antes. A perda de sangue contribuiu para que se sentisse débil. 

Quinze minutos depois, ela chegou à viatura da polícia, que estava estacionada na parte baixa do morro, próxima a um supermercado na Estrada do Tambá. 

Assim que embarcou no veículo, foi levada ao Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon. Pelo rádio, o agente que a acompanhava avisava o Delegado Cardoso sobre o ocorrido e pedia para que ele comunicasse à família dela. Iolanda protestou, dizendo. 

⏤ Cara, não faz isso! ⏤ Isso aqui é bobagem. Minha mãe vai ter um “treco”. 

⏤ Inspetora! Você sabe que é procedimento interno. Ao menos na nossa DP. ⏤ O agente respondeu.

Iolanda revirou os olhos, já imaginando o sermão que tomaria dos pais, que sempre foram contra a sua escolha profissional e, mesmo depois de 12 anos, ainda não haviam se acostumado com o fato de a única filha viver diariamente em perigo. 

Desde que entrara para a corporação, Iolanda havia se ferido duas vezes em combate. Na primeira, quebrou a perna quando perseguia um suspeito e, ao pular de um muro de dois metros, caiu de mal jeito, fraturando a fíbula próxima ao encaixe com o tornozelo. Na ocasião, teve que ficar três semanas com a perna engessada e em licença médica, em casa. Assim que tirou o gesso, foi designada ao trabalho administrativo por seis meses, executando as mesmas funções que uma escrivã. Iolanda quase enlouqueceu nesse ano de 1978.

Sua segunda lesão foi no início de 1980, quando ela e outros agentes estavam a ponto de invadir um depósito de cigarros piratas. Houve troca de tiros, e ela foi alvejada por cacos de vidros que se desprenderam de uma janela atingida pelos disparos. Com esses ferimentos, precisou passar por uma limpeza no hospital, para garantir que já não tinha vidros fincados na pele. Devido a esse episódio, ela tinha dezenas de pequenas cicatrizes nos braços, que serviram de escudo da cabeça assim que escutou o barulho da janela se estilhaçando. 

Nesse momento, ao chegar ao hospital, foi imediatamente levada para fazer um Raio-X, pois precisavam se certificar de que a bala não havia se alojado em seu ombro. Por sorte, como imaginado, o tiro a atingiu de raspão. Foi feito um curativo, e ela ficaria algumas horas em observação antes de ser liberada. 

Assim que chegou à enfermaria para aguardar a sua alta, encontrou seus pais, que já haviam sido avisados e a esperavam. Não demorou para que a mãe começasse a chorar e pedir, mais uma vez, que ela abandonasse aquela vida. “Não vou suportar ter que te enterrar, filha!”, a mãe disse.

Seus pais ainda a acompanhavam quando Carlos chegou para visitá-la. Infelizmente, a operação não fora bem sucedida. Não conseguiram localizar o traficante, que se escondeu como um rato nas matas fechadas. Mesmo assim, os policiais insistiram por mais de duas horas, fazendo rondas pela região. 

Por todo o tempo, o helicóptero também sobrevoou o lugar, informando à equipe em terra a visão geral que tinham da área, mas Touro Bravo era um homem astuto e soube elaborar bem o plano de fuga. 

Frustrado, Carlos entrou, aproximou-se deles e, quando a mãe de Iolanda o viu, se animou. Ela imaginou que ele fosse namorado da filha, que, até o momento, ainda não havia se interessado por ninguém. 

Regina Braga, uma mulher de 56 anos, ficava indignada por Iolanda ser solteira. “Na sua idade, eu já era casada, e você já tinha nascido, minha filha”, a mãe repetia, sempre que o assunto vinha à tona. 

Carlos era um homem bonito, moreno, com 1,88m de altura. Chamava a atenção onde quer que fosse. Assim também aconteceu com a mãe dela, que sorriu entusiasmada quando ele se apresentou. 

Ao vê-lo, Iolanda se contorceu na poltrona em que se sentava. Sua mãe e seu pai estavam sendo extremamente simpáticos com ele e isso a incomodava. Os três conversavam como se fossem grandes amigos, mesmo sendo aquela a primeira vez em que se viam. 

    ⏤ Que alegria, finalmente conhecer um amigo do trabalho da Iuiú. ⏤ Iolanda fitou a mãe, por tê-la chamado pelo apelido familiar. Seguramente Carlos usaria isso contra ela e, ao pensar nessa possibilidade, se irritou.

Por outro lado, ao escutar o nome gracioso com o qual a senhora se referia a Iolanda, ele a encarou sorrindo, dando sinais de que havia adorado saber esse detalhe da sua intimidade.

Depois de trocarem mais algumas palavras, Regina falou, tendo o respaldo do marido.

⏤ Carlos, você precisa jantar lá em casa qualquer dia desses.

Nessa hora, Iolanda se levantou de supetão, interferindo no diálogo, que até o momento deixava acontecer com naturalidade.

⏤ Está bem, mãe! Não é para tanto, né. Não seja inconveniente. Tenho certeza de que o inspetor Carlos tem mais o que fazer. 

⏤ Não tenho, não! Será uma grande honra poder acompanhá-los para jantar. ⏤ Ele respondeu, para a euforia dos pais da inspetora.

⏤ Está bem, depois vemos isso! ⏤ Iolanda cortou a conversa constrangedora que tinham. ⏤ Mãe! Pai! Será que vocês poderiam nos dar licença? Temos uns assuntos de trabalho para discutir. ⏤ Iolanda falou, já os expulsando. 

Assim que eles saíram, a inspetora perguntou.

⏤ Conseguiram pegá-lo?

⏤ Calma, aí! Você acha que me despenquei até aqui para falar de trabalho? Quero saber primeiro de você. Como você está? ⏤ Ele falou. 

Cismada, Iolanda não conseguia identificar se suas palavras eram sinceras ou se eram deboche, afinal, Carlos sempre foi um enigma para ela.

⏤ Ah tá! Vai dizer que você se preocupa com a minha saúde agora? ⏤ Ela falou, com ironia.

⏤ Ué, Iolanda, como não?! Você levou um tiro para salvar a minha pele. Acha que eu sou tão insensível assim?

⏤ Não pense que a minha conduta foi pessoal, Carlos. Faria isso por qualquer pessoa que estivesse em perigo. Fui treinada assim. ⏤ Ela respondeu secamente.

⏤ Sendo ou não sendo pessoal, o fato é que você me salvou, e eu estou apenas querendo ser gentil.

⏤ Está bem! Desculpa a minha grosseria. É que estou puta da vida que esse pilantra conseguiu fugir, ele estava nas nossas mãos. Que merda! ⏤ Iolanda falou, enquanto apertava ambas as mãos e travava os dentes. 

⏤ Vamos conseguir, paciência. Mais cedo ou mais tarde, ele estará atrás das grades novamente. Bem, já vou indo. Fico feliz em saber que o seu ferimento não foi grave. ⏤ Ele concluiu.

⏤ Obrigada por ter vindo. ⏤ Iolanda falou, em sinal de trégua. 

Antes de sair pela porta, ele se virou para encará-la, levantou uma das sobrancelhas e falou: 

⏤ Gostei de conhecer o seu apelido, Iuiú!

Iolanda o fitou com raiva e respondeu. 

⏤ Vai à merda, Carlos! Sabia que meu sossego contigo tinha prazo de validade. 

E antes que ele saísse ela completou. 

⏤ Ah! Só para saber! Sabe quando você vai jantar na casa dos meus pais? Nunca! ⏤ Ela disse.

Ele partiu sem que ela visse o sorriso em seus lábios.

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