Capítulo 4 – Parceiros – Invasão ao Apartamento 305

A inexistência de um sistema unificado da polícia comprometia a eficácia das ligações anônimas recebidas pela corporação, e isso era o principal motivador para chamadas falsas e de baixa credibilidade. 

As informações sobre a localização do bandido Touro Bravo, recebidas pela ligação anônima naquela manhã, precisavam ser verificadas, mas não havia outra maneira de fazê-lo a não ser através de operativo real. Muitas vezes, essas denúncias levavam apenas a informações infundadas, gastando tempo e dinheiro da polícia.

Há tempos, a inspetora Iolanda insistia com a ideia de que a polícia precisava investir em um sistema confiável para receber chamadas anônimas. Precisavam encontrar uma maneira de identificar a procedência das ligações, mantendo sempre o anonimato dos colaboradores. Só assim conseguiriam coibir as fraudes. 

Iolanda saiu da sala do delegado acompanhada do inspetor Carlos e, enquanto vestiam os coletes à prova de balas e verificavam as armas, escutavam as coordenadas da operação.

⏤ Touro Bravo foi visto no Vidigal. De acordo com as informações, está escondido em um casebre no alto do morro. Não será uma operação fácil. Só temos um acesso e assim que embicarmos os carros na rua principal os olheiros já farão o trabalho de avisar o bandido. ⏤ Cardoso falou.

⏤ Por isso teremos apoio do voador e quero Iolanda nele. 

Ela protestou. Iolanda não gostava de participar das operações estando no helicóptero da polícia. Sentia-se de mãos atadas, apesar de, nesses casos, portar um fuzil de maior precisão e alcance. Mas ela realmente gostava era de estar em campo, correndo atrás dos bandidos. Do alto, muitas vezes não tinha como ajudar, limitando-se à assistir a operação que acontecia debaixo de seus pés. 

 Carlos sorriu quando o delegado confirmou que o operativo já estava decidido. Enquanto ela coordenaria a operação do alto, ele seguiria com a equipe em solo. Ao vê-lo se divertir com a sua insatisfação, ela revirou os olhos e mostrou-lhe o dedo do meio. 

O grupo foi dividido, e Iolanda seguiu para o heliponto do Batalhão da Polícia no centro da cidade. A coordenação das equipes precisava ser exata. Não poderiam falhar nos tempos ao acessar a favela, caso contrário perderiam um grande aliado, o efeito surpresa.

Meia hora depois de deixar a delegacia, Iolanda decolou na aeronave da polícia em direção ao Morro do Vidigal. Ao mesmo tempo, o operativo terrestre mantinha-se em contato para ingressar na avenida principal da favela, no exato momento em que os primeiros ruídos do helicóptero fossem escutados. 

As três viaturas blindadas entraram em alta velocidade pela rua principal, e os agentes saíram apressados dos carros no momento em que a topografia do local não permitiu mais o avanço dos veículos.

A movimentação na base do morro, assim como esperado, chamou a atenção dos traficantes, que, surpresos, reagiram com tiros, enquanto parte do bando fugia. Carlos, com seu excelente condicionamento físico, não tinha dificuldades para subir correndo as ruelas da favela. O inspetor era seguido por outros onze agentes que, em um determinado momento, dividiram-se em grupos de três para cobrir uma maior área do local. 

Do alto, pelo rádio, Iolanda passava as coordenadas: para onde os bandidos fugiam e de onde atiravam. Os bandidos, acuados, voltaram seus armamentos para o helicóptero, mesmo sabendo que o verdadeiro interesse daquele operativo não eram eles mesmos, e sim o ilustre visitante que acobertavam. 

Com o auxílio de um binóculo, Iolanda observava atenta a movimentação dos bandidos, que agiam com rapidez, enquanto um policial a encobria, efetuando disparos em direção ao bando sempre que necessário.

A inspetora viu quando Touro Bravo saiu de uma casa, correndo por guetos em direção à mata fechada. O bandido era escoltado por três colegas armados que o ajudavam a chegar ao local de pouca visibilidade. 

 Ao mesmo tempo, ela percebeu que o operativo de terra não chegaria a tempo para conseguir capturá-lo. A visão desde o helicóptero era limitada e obstruía as chances de alvejar os alvos em movimento. A única alternativa, então, era o desembarque do grupo, para continuar a perseguição a pé. 

Para isso, o piloto precisaria sobrevoar o mais rente possível da montanha, para que, com o auxílio de uma corda, ela e os outros dois agentes pudessem descer em segurança.

Apesar de ser arriscada a manobra, o delegado, por rádio, autorizou a sua execução, já que o piloto era experiente. O vento forte atrapalhava o procedimento e foram necessárias duas tentativas para que os policiais conseguissem descer. Assim que pisou em terra firme, Iolanda correu em direção ao local onde Touro Bravo se localizava. A inspetora era acompanhada por dois policiais, que seguiam seus passos, ao mesmo tempo em que ela recebia as informações do copiloto, que monitorava tudo de cima. 

Enquanto isso, a equipe de terra enfrentava a recepção hostil dos bandidos e tinha dificuldades em avançar para o alto do morro, mas Carlos, assim que escutou que Iolanda havia desembarcado da aeronave, se enfureceu e seguiu por um atalho, mandando que os outros policiais ficassem onde estavam para encobri-lo. 

Carlos subiu as escadarias irritado; queria chegar a tempo de ajudar na captura do traficante e não demorou para perceber que se aproximava do local do confronto. Do alto, o copiloto informava que tanto a equipe da inspetora Iolanda, quanto o inspetor Carlos estavam próximos do alvo, e seguia dando as coordenadas do posicionamento de Touro Bravo. 

Em pouco tempo, ele deixou para trás as últimas casas e encontrou a inspetora, passando a correr ao seu lado. Desviavam de galhos e troncos e pela primeira vez tinham um objetivo em comum, capturar o bandido. 

A aproximação com o bando fez com que começassem a atirar contra os policiais, que revidavam enquanto corriam. Iolanda percebeu um vulto camuflado na mata fechada e viu um dos bandidos apontando uma pistola para o inspetor. Antecipando-se ao seu movimento, ela se jogou na direção de Carlos, derrubando-o no chão antes que o projétil o atingisse.

Os policiais que estavam atrás dela perceberam a ação e um deles desviou o trajeto original para alcançar o bandido que acabara de atirar nos colegas. O outro seguiu em frente tentando concluir a captura, enquanto Iolanda e Carlos se levantavam do chão, com ele ainda atordoado, sem saber ao certo o que havia acontecido. 

⏤ Perdemos o alvo! Repito. Perdemos o alvo! ⏤ O copiloto falou enquanto dava voltas no alto do morro para tentar localizar o bandido foragido. 

Frustrados com a operação malsucedida, os quatro agentes vasculhavam as imediações tentando concluir o trabalho do dia, mas os minutos passavam e percebiam que aquela era uma batalha perdida. 

Iolanda sentiu uma ardência no ombro. A adrenalina da operação camuflou a dor do impacto, mas ela havia sido atingida de raspão e só percebeu quando um policial chamou a atenção para o sangue que escorria em seu braço. Isso para espanto de Carlos, que constatou que ela fora alvejada ao protegê-lo.

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