Capítulo 3 – Pitéu – Invasão ao Apartamento 305

Iolanda e Carlos conheceram-se no primeiro dia dela na Academia de Polícia Civil do Rio de Janeiro. Isso foi no final do mês de julho de 1969, quatro dias depois de Neil Armstrong pisar na lua. Assim como o astronauta, ela também dava os primeiros passos em um terreno desconhecido e inóspito. Era a única mulher entre os vinte e sete homens que integravam aquela turma a qual se formaria onze meses depois.   

Assim que chegou, foi observada dos pés à cabeça pelos seus novos colegas, que a encaravam com desconfiança. Naquele tempo, era raro encontrar mulheres exercendo a função de investigadora da polícia e todos, sem exceção, acreditavam que ela não concluiria nem o primeiro mês do treinamento, inclusive o inspetor Carlos de Oliveira, que já havia se formado na turma três anos antes, mas estava ali como convidado, para participar das dinâmicas de boas-vindas na primeira semana dos novatos. 

Os alunos novos foram divididos em grupos liderados pelos veteranos. O fracionamento da turma era por sorteio e Iolanda acabou sendo selecionada para compor grupo do inspetor Carlos. 

A relação dos dois começou com o pé esquerdo. Carlos, de apenas vinte e três anos, era um homem arrogante e dono da verdade.  Já nas primeiras dinâmicas   de grupo, que tinham como objetivo exercitar o intelecto e a criatividade, bateu de frente com Iolanda, que não escondia suas opiniões contrárias.

No final da semana, quando em uma das atividades os participantes teriam que se enfrentar corpo a corpo, Carlos escolheu-a para ser a sua oponente. E, enquanto os dois se preparavam no centro de uma grande roda, formada por toda a turma, ele falou alto, para que todos escutassem: “Não é porque você é mulher que vou pegar leve contigo.”, e então sorriu maliciosamente. A turma mostrou-se eufórica com o confronto que estava prestes a assistir, e Iolanda, vendo que ele a desmerecia por seu gênero, irritou-se, respondendo à provocação ainda mais alto: “Não esperaria nada diferente disso!”.

Assim que deram o sinal para avançarem, os dois começaram a gingar na expectativa do ataque, e Carlos adiantou-se. Seu erro foi subestimá-la por seu porte físico, de modo que acabou surpreendido quando ela o driblou e o derrubou no chão, imobilizando-o com uma chave de perna. A turma enlouqueceu com a manobra da novata e todos se levantaram do chão, vibrando com o inesperado desfecho. 

Carlos levantou-se com destreza e pediu revanche. Iolanda via a fúria saltar de seus olhos como labaredas e sabia que ele não a perdoaria pela humilhação. Menos de quinze segundos depois quem estava no chão era ela. 

Com ela presa em seus braços, ele fez piadas machistas, tentando mudar a sua imagem ante as testemunhas. Seus colegas riam e se divertiam; Iolanda tentava se desvencilhar, mas Carlos a prendera com jeito, dominava a jovem policial e só a soltaria quando quisesse. Aquilo era um sinal claro de que a sua vida não seria fácil, mas quanto mais sentia dor e dormência no corpo, causadas pela compressão da luta, mais ela se convencia de que estava no caminho correto. Para finalizar a exibida apresentação, ao soltá-la ele lhe deu um beijo estalado no rosto e gritou: “Agora pode ir, pitéu!”.

Doze anos depois, ao levantar-se naquela manhã e escutar a mensagem do seu chefe, Iolanda não podia acreditar que seria obrigada a trabalhar com ele novamente. Depois da experiência no ringue de luta, eles voltaram a se encontrar em alguns eventos oficiais da polícia e também foram designados a trabalharem juntos em um caso quatro anos antes. Todos os colegas sabiam das faíscas que se desprendiam quando eles se encontravam, situação que chamou a atenção de seus supervisores, que um dia os chamaram para uma advertência formal. 

Cardoso, sabendo do histórico dos dois, tentou evitar a situação, mas a transferência do inspetor Carlos para a 12ª DP de Copacabana fora ordem do governador, deixando o delegado de mãos atadas.    

Iolanda chegou à delegacia de cabeça erguida. Não pretendia demonstrar que a notícia a abalara, e assim que entrou viu que Carlos já havia chegado e conversava com o delegado em sua sala. Ela bufou e dirigiu-se ao seu posto de trabalho. Sentou-se e, antes de começar a revirar a papelada sobre a mesa, seu telefone tocou. Era o delegado Cardoso, que a chamava em seu escritório. 

Ela respirou fundo, passou as mãos pelos cabelos e os prendeu em um coque com a ajuda de um palito japonês, então caminhou sem pressa para a sala do chefe, sob os olhares daqueles que conheciam o passado. Deu três leves batidas na porta e recebeu ordem para entrar.

Ao abrir, Carlos movimentou a cabeça levemente para o lado, como se tentasse vê-la por sua visão periférica. Daquele ponto, ela viu o seu perfil e observou o nariz empinado. Respirou uma vez mais enquanto fechava a porta para, então, acomodar-se na cadeira vazia ao seu lado. 

⏤ Como vai, Iolanda? ⏤ Ele perguntou, quando ela se aproximou.

⏤ Bem, obrigada. ⏤ Respondeu, com indiferença.

Encararam-se por alguns segundos, acompanhados por um silêncio desagradável. Cardoso pigarreou, tratando de chamar a atenção de seus inspetores, e falou de imediato.

⏤ Eu sei que a situação não é agradável para ninguém, muito menos para mim, que vou ter que lidar com vocês diariamente, mas quero deixar claro que não aturarei comportamento infantil. Vocês são adultos e precisam saber trabalhar juntos. Se eu tiver que chamar a atenção, vou determinar o afastamento do caso, estão entendidos? ⏤ Cardoso falou como se estivesse repreendendo duas crianças do jardim de infância. 

Eles gesticularam as cabeças e concordaram. 

⏤ Pois bem! Vou deixá-los sozinhos, vocês têm cinco minutos para se entenderem e depois disso não quero mais voltar nesse assunto.  

Cardoso bateu a porta e Iolanda se levantou para sair. Ela não tinha nada a dizer, mas ele agarrou o seu pulso, encarando-a com veemência: 

⏤ O que foi, pitéu?! Você já vai?

Iolanda puxou o braço com força e, com Carlos ainda sentado, deu-lhe uma chave de pescoço, posicionando-se por trás, antes de dizer com os dentes trincados:

⏤ Não me chame de pitéu! E nunca mais encoste a sua mão em mim. 

⏤ Calma! Calma! Iolanda! Ele falou, dando-lhe tapinhas no braço para que ela o soltasse. 

⏤ Pô, Iolanda! Tô zombando contigo. Relaxa, não quero arrumar confusão. Foi uma brincadeira de mal gosto! Prometo que não vou repetir. ⏤ Ele se desculpou, beijando os dedos indicadores cruzados em seu rosto. 

⏤ Senta vai, vamos conversar! ⏤ Ele pediu.

⏤ Eu não tenho nada para falar com você, Carlos. Aliás, só estou aceitando trabalhar nessas condições porque não existe outra opção. Vamos ser sinceros, eu não te suporto e você não me atura, mas pelo bem da sociedade vamos ser adultos e tentar resolver esse caso o quanto antes, assim você volta logo pros quintos dos infernos de onde veio.

Carlos riu, divertindo-se da reação exagerada de Iolanda, e, antes que ela protestasse, a porta foi aberta repentinamente, assustando-os. Eles viraram-se e viram o delegado com uma cara animada. 

⏤ Já podemos trabalhar? Venham, recebemos uma ligação anônima. Temos uma pista quente de onde Touro está.   

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