No Topo do Mundo – Menção Honrosa ALMuB-2020

No início da década de 1920, Max Möller, um jovem órfão, subiu em um barco a vapor no porto de Copenhague para uma travessia transatlântica. Aos 13 anos e sem perspectivas de futuro, fugia de seus tormentos e traumas pós-guerra, aventurando-se em uma jornada desconhecida rumo a terras promissoras. Seu destino? Os Estados Unidos da América, para onde muitos europeus migraram naqueles dias.

Sem dinheiro suficiente para pagar sua passagem, o rapaz se ofereceu para trabalhar no barco, faria o que fosse necessário. A falta de clemência de quem comandava as operações, sem se importar com a pouca idade do rapaz, designou-lhe a trabalhar com outras dezenas de operários, alimentando as ardentes caldeiras em chamas que, naquele tempo, eram usadas como motor das embarcações. 

Era acordado, diariamente, antes das 5h da manhã e, após o desnutrido café da manhã, resumido a uma fatia de pão e uma xícara de chá, começava a sua rotina, abastecendo com carvão vegetal uma das 24 caldeiras do barco. No final de cada dia, depois de mais de 10h de trabalho, deixava seu posto com a pele preta, coberta com resquícios do combustível, e seguia para a ducha comunitária que a tripulação compartilhava. Seu banho era tão rápido quanto o seu tempo de descanso, pois sentia muita vergonha de seu corpo nu, em plena puberdade, diante de tantos homens mais velhos que ele.

À noite, depois de jantar uma sopa de legumes e pedaços de frango, ele se deitava na cama de cima de um beliche em um cubículo sem janela, onde outros três marinheiros também dormiam. Assim foi a sua rotina durante os nove dias do trajeto, até chegar à foz do Rio Hudson e avistar a Estátua da Liberdade, inaugurada há pouco mais de 30 anos, símbolo de liberdade e prosperidade. Atributos esses que atraíam pessoas sem perspectivas, assim como ele, do mundo todo. 

Apesar da ânsia de sair da embarcação, o processo de desembarque era moroso. Primeiro os passageiros da primeira classe, pessoas que também estiveram confinadas na estrutura de aço por mais de uma semana, mas em situação bastante dessemelhante. Estes puderam usufruir de jantares luxuosos, bailes, passeios ao final da tarde pelo deque com ripas de madeira polida, apreciando o tranquilo oceano que, anos antes, havia engolido, para a profundeza de suas águas, o majestoso Titanic. 

Enquanto esperava a sua vez, Max observava famílias inteiras em seus trajes elegantes, carregando, além de malas, animais de estimação com vestimentas melhores que as suas. Um a um, desciam a rampa de acesso à terra firme da Ilha Ellis. Via a enorme fila que os imigrantes faziam diante do posto de fiscalização, onde seus nomes eram registrados em grandes livros com capas de couro. Max, apesar de ansioso com as perspectivas que sua nova vida lhe traria, sentia-se só. Carregava um pequeno saco de pano, onde guardava poucas roupas e o seu registro de nascimento, expedido pela igreja de sua cidade natal. 

Quando finalmente conseguiu desembarcar, foi atendido pelo oficial de imigração e lhe entregou seu documento. O homem o encarou com desconfiança e lhe fez inúmeras perguntas. Ao se certificar de que o rapaz estava sozinho, negou a sua entrada ao país. Um destino incerto e preocupante para o jovem que, de uma hora para outra, perdeu as esperanças. Ele seria conduzido a um abrigo juvenil até que as autoridades resolvessem a sua situação. Mas, uma voz masculina gritou atrás dele, reacendendo a sua fé. 

Tratava-se de Tim Mozar, um homem de 34 anos, que havia trabalhado com Max no navio. “Deixe-o comigo”, ele repetiu. “Me responsabilizarei pelo rapaz”. Os oficiais aceitaram. Para eles era um problema a menos, e Max, agradecido, seguiu o homem que, oficialmente, tornava-se seu tutor. 

Estabeleceram-se no Brooklyn, em uma hospedaria para imigrantes europeus. O dono cobrava o aluguel adiantado, e Mozar o pagou com todo o dinheiro que tinha, garantindo aos dois um teto para dormir pelos próximos quinze dias. Precisavam encontrar um trabalho com urgência para conseguir manter-se no local. Mozar, que no momento exercia papel de pai, conversou duramente com Max, definindo as regras de convivência que teriam a partir de então. O jovem precisaria colaborar, dividindo o custo do quarto, caso contrário, seria obrigado a abandoná-lo e seguir a sua jornada sozinho. 

A cidade de Nova Iorque estava em plena expansão. Para onde quer que se olhasse, um edifício novo era erguido. Não faltavam oportunidades para quem quisesse trabalhar duro, e isso era o que Max desejava.  Não demorou para que eles encontrassem emprego: Mozar em uma obra no Brooklyn e Max em Manhattan, do outro lado da ponte. A vida não era fácil para nenhum dos dois, e todos os dias novos calos surgiam em seus pés e mãos. 

O pagamento recebido semanalmente garantia a Max custear o aluguel e a sua alimentação e ainda sobravam alguns trocados que ele, sabiamente, escondia em uma caixa de ferro em um assoalho solto por trás da cômoda do quarto. Nos primeiros anos, Mozar fazia o mesmo, guardando suas economias de forma regular, até se deparar com os prazeres proporcionados pelos jogos de azar e pelo álcool. 

O vício iniciou de forma sutil, e Max não percebia que seu companheiro estava embarcando em uma viagem sem volta. Regressava cada vez mais tarde, empesteando o quarto com cheiro de bebida e tabaco: falava alto, acordava-o e perturbava seu sossego. Em seguida, atrasou por primeira vez o pagamento do aluguel. Max, sentindo-se em dívida com ele, por sua consideração no início da vida nova-iorquina, honrando a sua parte, que foi tirada de suas economias. 

O fato se repetiu tempos depois, uma segunda e uma terceira vez. Tentou aconselhar Mozar, buscava uma forma de ajudá-lo a sair do buraco em que se metia. Mas a tentativa era em vão, o homem se afundava cada vez mais, sem parecer se importar com as consequências de seus atos. Então, Max resolveu buscar outro lugar para viver. No dia de sua partida, invertendo os papéis, teve uma conversa tensa com Mozar em seus raros momentos de lucidez. Aos 17 anos, pronunciava palavras duras de serem ouvidas por alguém que sabia que estava vivendo fora dos trilhos, deixando claro que a partir daquele momento ele estaria por conta própria. Max deixou a hospedaria com o coração apertado e com o sentimento de que estava abandonando seu parceiro, o homem que tornara possível sua vida na América, mas ele não pretendia se afundar junto com ele. 

Seu novo lar, na ilha de Manhattan, era próximo à obra em que trabalhava. Já não precisava dividir o quarto com ninguém, conseguia arcar sozinho com as despesas. Estava progredindo. O atual engenheiro chefe das construções atuais gostava dele. Considerava-o esforçado, dedicado e eficiente, qualidades que chamavam a atenção. 

No final da década, começaram rumores de que um novo empreendimento seria iniciado na cidade. Algo inédito, de proporções ainda inexistentes. Muita mão de obra seria necessária, mas somente os melhores operários seriam escolhidos. O salário era um pouco maior, assim como os riscos. Tal oportunidade aguçou o desejo de toda a classe operária, inclusive de Max, que se mostrava ansioso com a chance de prosperar ainda mais. Seu chefe lhe falou: “Não se preocupe, você é qualificado, já está dentro”.

No dia 17 de março de 1930, apesar de o país ainda sofrer as consequências da grande crise financeira que assolava a população, as obras do edifício que ultrapassaria a altura da Torre Eiffel foram iniciadas e Max batia ponto, religiosamente, todos os dias às 5h30 da manhã. O trabalho era duro, com folgas somente a cada 15 dias. No início, o serviço era similar aos que já havia exercido em outras construções, mas com o passar dos meses, com a impressionante velocidade da construção, passou a trabalhar em alturas cada vez maiores. Isso o impressionava pela beleza, mas também pelo medo. 

Cinco meses após o início da edificação, ele já havia se acostumado com a dimensão do trabalho e se sentia cômodo ao se arriscar entre os cabos e as vigas de aço no arranha-céu que, em breve, se tornaria o mais alto do mundo. Em um determinado dia, Max e seus companheiros se sentaram em uma dessas vigas para almoçar, assim como faziam rotineiramente, sem imaginar que o registro daquele instante ficaria eternizado nos acervos fotográficos da cidade de Nova Iorque. O céu estava claro, a temperatura era amena, quase fria. Mesmo assim, seus corpos ainda estavam aquecidos devido ao esforço do árduo trabalho daquela manhã e todos eles mantinham vestes leves. 

Max, que fumava um cigarro após o almoço, avistava o horizonte do alto dos 347 metros. A altura era tamanha que tinha a sensação de poder ver a sua cidade natal, local que havia abandonado há oito anos, mas que parecia ter deixado há muito mais tempo. Sem participar da conversa de seus companheiros, pensava na trajetória de sua vida e em como essa jornada o havia levado àquele lugar, que ele considerava ser o topo do mundo. 

9 comentários em “No Topo do Mundo – Menção Honrosa ALMuB-2020

  1. Parabéns Luciana! Eu sempre ficava me perguntando sobre a história dos operários que levantaram esses arranha-céus! Seu conto atendeu e muito, minhas expectativas!!! Adorei!!!!

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  2. Este conto nos faz sentir parte da história novaiorquina junto com um aventureiro que ajudou a construir o sonho americano. Muito merecido o prêmio que ganhou com este trabalho.

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