Um tiro ao céu

Há 18 dias que Rosa estava à deriva no mar. Já perdia as esperanças de ser resgatada com vida. Havia saído de casa para velejar como fazia há quase 20 anos, pelo menos duas vezes por semana.

Com apenas 30 anos de idade, era uma mulher amargurada por diferentes motivos que foram acumulados ao longo da vida. Descrente, estava certa de que Deus lhe havia abandonado. 

Morava sozinha em uma casa de frente para o mar, em um município pequeno em Santa Catarina. O imóvel era herança de seus pais, falecidos em um acidente de carro quando ela tinha 18 anos. Ali nasceu e viveu por toda a sua vida. Precisou amadurecer depressa para cuidar dos poucos bens que eles lhe deixaram.

  Rosa velejava desde os dez anos, quando viu na televisão a reportagem de uma família que havia dado a volta ao mundo em uma embarcação a velas. Apaixonada pela história e pelas possibilidades que a atividade lhe traria. Pediu aos pais que a colocassem em uma escola de vela que havia em um clube próximo a sua casa. 

Sua mãe fazia o percurso de dezessete quilômetros três vezes por semana, para que ela pudesse aprender os segredos da navegação. Aguardava com paciência o fim dos treinos. A duração de cada aula variava entre 45 e 90 minutos. Tudo dependia do vento. Sua mãe se acostumou à rotina da filha. As vezes levava livros, as vezes bordados para passar o tempo e aguardar por ela. 

No dia em que seus pais morreram, ela estava em alto mar, com um grupo de amigos. Mesmo longe, sentiu um aperto estranho no peito e tinha certeza de que algo passara em terra firme. Ao regressar, soube do acidente e sentiu um remorso imperdoável por não ter estado por perto. Por mais de seis meses brigou com o mar, distanciando-se, como uma espécie de luto. Sentia um amargo na boca sempre que pensava em velejar. 

Quase dois anos após o acidente dos pais ela deu um basta nessa sensação . Estava cansada de culpar-se por algo fora de seu controle e fez as pazes com aquele que sempre havia sido o seu maior companheiro. Inscreveu-se em um evento náutico e conheceu um rapaz. Apaixonaram-se de forma avassaladora, paixão só vista em novela. E menos de um ano depois ele a pediu em casamento. Assim como foi a rapidez da união, também se deu a separação, e de um dia para o outro, ela se desencantou dele e ele, dela.     

A separação foi um gatilho para tornar o que era hobby uma profissão. Participava de campeonatos estaduais e nacionais. Destacou-se dos demais com sua técnica e eficiência no manuseio das cordas e com seu aproveitamento do vento. Sua carreira, literalmente, ia de vento em popa. Tinha planos de atravessar o atlântico, sonhava alto e se especializou na navegação de alto mar.  

Em uma manhã, ela saiu bem cedo. Entrou no mar subestimando o poder da natureza, ignorou os sinais de mudança de tempo e foi surpreendida por uma tempestade destrutiva que, por pouco mais de uma hora, assolou-a, com ondas volumosas causando visíveis danos na embarcação. 

Após a tormenta, Rosa havia perdido a vela e outros importantes equipamentos de navegação. Para sua sorte, o kit de sobrevivência se manteve intacto, garantindo medicamentos, água potável e alimentos por alguns dias até ser resgatada. As horas foram passando e a noite se apressou em chegar. A escuridão assombrava a sua sanidade. O silêncio dominava o ambiente, e raramente era quebrado por um imperceptível ruído que algumas marolas provocavam ao se chocarem contra o barco. Tentou ficar acordada, mas acabou vencida pelo cansaço e dormiu em posição fetal.

Com os primeiros raios de sol, o medo se dissipou, dando lugar ao sentimento de esperança.  Sabia que com a claridade as chances de ser encontrada eram maiores, mas para onde quer que olhasse ela só via água. Com o passar das horas, mesmo o dia ainda claro, o medo voltou a rondá-la, ignorando a presença do sol. 

Atravessou mais uma longa noite e, sozinha, tentava sobreviver ao mar de lamentos que dominava o seu estado de ânimo. 

Haviam se passado dois dias desde a tempestade e, aos poucos, ela perdia as esperanças de ser encontrada. Gradativamente se desorientava com o tempo e o espaço. Não sabia para qual direção a maré a levava. Contava com um único sinalizador. Mas de nada servia, se não avistava nenhum movimento no céu ou no mar. Sentia na pele, mais uma vez, o abandono divino. 

Os dias e as noites foram passando em sequência; seus mantimentos, que, até o momento, garantiam a sua sobrevivência, pouco a pouco, foram se esgotando. Já não tinha comida, muito menos água, mas lhe sobravam queimaduras na pele pela exposição ao sol. 

Podia perceber que seu tempo estava se esgotando. Seu último suspiro se aproximava e mesmo sem avistar uma única aeronave no céu ou embarcação no mar, alcançou com dificuldades o sinalizador que, há dias, já se encontrava preparado para o disparo. Apontou-o para o alto e com um último esforço, apertou o gatilho antes de se render. 

Enquanto Rosa fechava seus olhos, prostrada no piso do barco, um piloto a quilômetros de distância, avisava a guarda costeira sobre o disparo que avistara no meio do oceano.   

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4 comentários em “Um tiro ao céu

  1. Um lindo conto inacabado mas completo. Muito bom. Ótima leitura para um fim de tarde chuvoso e frio. Aquece a esperança! Muito frio em Belo Horizonte!

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