Banho de Ternura

Um grupo de amigas se dirigia para a visita mensal ao orfanato que costumava ajudar. O local ficava afastado da cidade onde moravam, a aproximadamente 1h30min de carro. Era o mês de março, o final do inverno asiático. Um resquício de neve ainda cobria o pavimento, obrigando-as a dirigir com cautela, para evitar qualquer situação de risco. 

As mulheres se encontravam e partiam sempre em caravana. Normalmente, utilizavam de quatro a seis veículos e, a cada mês, elas se revezavam ao volante. Naquela ocasião, havia treze mulheres ansiosas para reencontrar os meninos e meninas que viviam na instituição. As idades dos pequenos variavam de um a sete anos. Quando completavam oito anos, eles eram encaminhados para uma outra instituição, a qual elas não conheciam por ser ainda mais distante.

Era a primeira visita que faziam depois de um rigoroso inverno. Com a aproximação da primavera, a neve começava a derreter e a temperatura subia gradativamente, alcançando patamares mais toleráveis. Com o clima mais ameno nessa época do ano, as visitas eram liberadas para a área externa e as crianças eram levadas ao pequeno parquinho nos fundos do edifício principal. 

O duro inverno, que costumava assegurar temperaturas abaixo dos -10º C por muitos meses seguidos, trancafiava as crianças por um longo período de tempo. As visitas realizadas entre os meses de novembro e fevereiro eram as mais duras, tanto para os visitados, que não podiam desfrutar das brincadeiras ao ar livre, quanto para os visitantes, que precisavam suportar o mau cheiro das instalações devido à falta de circulação de ar natural.  

O terreno da propriedade era bastante extenso. Ao sair da estrada principal, precisavam dirigir por cerca de um quilômetro até conseguirem avistar, de longe, o edifício principal, que a partir desse ponto estava a quinhentos metros de distância. O estacionamento localizava-se contíguo à construção e era lá onde os carros eram posicionados lado a lado.

Como todos os edifícios em estilo soviético, esse também se assemelhava a um grande caixote de concreto e, de longe, parecia um complexo penitenciário. Quando os carros se aproximavam, produziam barulho pelo atrito dos pneus sobre as pedras de cascalho. O som funcionava como uma campainha para as crianças, que, ao ouvi-lo, corriam com euforia e se aglomeravam nas janelas gradeadas, curvando-se para observar o movimento. Ainda do carro, as mulheres avistavam os preciosos sorrisos infantis que se amontoavam em uma tentativa frustrada de escapar da prisão na qual se encontravam.

Assim que estacionavam os carros e se aproximavam da entrada do edifício, viam as crianças, uma a uma, serem conduzidas ao parquinho, onde brincariam por cerca de 40 minutos. Com o piso de areia, elas podiam construir castelos e fortes com a ajuda de alguns baldes e pás que tinham disponíveis. Moldes em várias formas geométricas também eram ferramentas usadas para criar seus mundos imaginários.

No meio do pátio, havia uma grande estrutura de metal, incluindo um trepa-trepa, dois escorregadores e três balanços com assentos de madeira, garantia a brincadeira para aqueles que eram avessos à areia. As amigas já os visitavam há muitos anos e os conheciam por seus nomes. Elas se sentavam na areia, balançavam-se e lhes davam toda a atenção que os pequenos pareciam suplicar. 

Apesar de viverem naquela instituição, as crianças não eram órfãs. Todas elas tinham famílias, mas, todas, viviam com precariedade. Alguns dos pais eram presidiários, outros apenas não tinham recursos para criá-los, e essa situação familiar os impedia de serem adotados. O governo, por sua vez, era omisso, e sua ausência se refletia diretamente na administração do lugar, que era mantido por doações e fazia o impossível para proporcionar um ambiente saudável para as crianças. 

Depois de brincarem bastante, todos se reuniam para um lanche, organizado pelas visitantes, que levavam pães, bolos e sucos e comiam ali mesmo no pátio. Então, era difícil convencer os pequenos de que o horário da visita estava chegando ao fim. Eles sabiam por experiência que, quando o bolo era servido, assim como em qualquer outra festa, era sinal de que a farra estava por terminar.

A experiência de visitá-los ia muito além da ajuda financeira que era entregue à administração do lugar. As lembranças que essas mulheres proporcionavam a essas crianças eram como uma droga para tratar seus sentimentos de abandono. As poucas horas que dividiam eram muito especiais e as enchiam de prazer. Suas almas eram banhadas por ternura, e elas sabiam que suas visitas eram as únicas oportunidades que aquelas pequenas criaturas tinham para receber um pouco de afeto.

Quase na hora de partirem, quando ainda estavam finalizando o lanche comunitário, Jen, uma das mulheres mais antigas do grupo, observava pensativa as crianças finalizarem suas atividades. Incapaz de controlar sua emoção, uma solitária lágrima escorreu por seu rosto, enquanto apreciava a beleza do momento. E então ela falou para si mesma: “Se, no futuro, ao menos um desses pequenos se lembrar de que um dia nós os amamos, terão valido a pena todas essas nossas visitas”.

3 comentários em “Banho de Ternura

  1. Infelizmente é a realidade de muitos, trazida com uma grande emoção nas entre li has.
    Texto mto bom, nos levando a uma grande reflexão.
    Sim, valerá sempre a pena, se tratando de dar carinho aos que menos têm.

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