E Agora, mamãe?

A equipe da maternidade nunca havia presenciado tal cena. Já acompanhara centenas de famílias deixando o hospital após o parto. Algumas saíam felizes por terem os filhos saudáveis em seus braços. Outras deixavam as instalações arrasadas, sofrendo a perda do recém-nascido, que desafortunadamente não conseguira sobreviver à sua primeira batalha na vida. Mas a verdade é que nunca haviam testemunhado uma família dar alta do hospital ao mesmo tempo desmantelada e com um bebê saudável no colo. 

É preciso voltar um pouco no tempo para contar essa história. Nove meses antes, para ser exata, quando o casal, que já havia passado dos 40 anos, foi surpreendido pela notícia de que estava grávido. Eles eram casados há 18 anos e não pretendiam ter outro filho. Como se diz por aí, já haviam encerrado a fábrica depois de terem três filhos praticamente criados.

Ao confirmarem a inesperada gestação e após se recuperarem do susto, começaram a curtir a ideia de começar tudo de novo e, pouco a pouco, foram se acostumando ao fato de tornarem-se pais em idades nas quais muitas pessoas se tornam avós. Foram nove meses de preparativos, arrumando o apartamento de três quartos na zona sul de São Paulo. 

Quando a mulher entrou na trigésima nona semana, em sua consulta de rotina, sem que houvesse sinais de evolução do trabalho de parto, a obstetra aconselhou aguardar apenas mais alguns dias; caso não houvesse alteração, agendaria a cesariana. Não era aconselhado na idade da mãe aguardar muito tempo pelo parto natural. Antes de deixar o consultório, a médica aconselhou-a a se relacionar intimamente com o marido, pois em muitos casos o coito era um ótimo estopim para o início das contrações. 

Seguindo as orientações médicas, o casal se animou naquela mesma noite. Apesar da gigante barriga, conseguiram encontrar uma posição que fosse confortável tanto para ela quanto para ele e, no ápice do prazer, sentiram a enxurrada de líquido amniótico que se desprendia de sua intimidade. Nervosos com a chegada do momento, mas ao mesmo tempo ansiosos, eles partiram para o hospital. No caminho para a maternidade, o pai, que se encontrava mais nervoso do que a mãe, fazia chamadas telefônicas para avisar a família sobre a chegada do menino. 

Enquanto a mulher recebia os primeiros cuidados para entrar em cirurgia, familiares e amigos do casal chegavam para acompanhar tudo de perto. Não demorou muito tempo para que a criança nascesse. Após as primeiras avaliações do pediatra, veio a confirmação de que o bebê era perfeitamente saudável. Ao escutar a boa notícia, de que estava tudo bem com a mãe e com a criança, o casal segurou o filho para primeira vez, posicionando-se para a primeira fotografia do trio, ainda sobre o leito cirúrgico. 

Horas mais tarde, os três voltaram a se reencontrar no quarto, quando a mãe recebeu o filho para sua primeira mamada. Era madrugada e os familiares que haviam ido prestigiar o nascimento do mais novo membro do clã já haviam deixado o hospital, após conhecerem o bebê através do vidro do berçário.

No dia seguinte, à primeira hora, o pai resolveu ir para casa tomar um banho e se preparar para enfrentar o longo dia de visitas que seguramente o casal teria. Por isso, a mãe estava sozinha quando o médico plantonista entrou para visitá-la e deu-lhe a notícia que ela não queria escutar. O seu filho, aquele que acabara de parir, não era filho do seu marido. De início ela tentou negar, dizendo ser impossível e questionando como ele ousava dizer tamanha insensatez. Com paciência, o médico explicou que refez o teste, mais de uma vez, para ter certeza do tipo sanguíneo do bebê.

“A senhora tem certeza de que o seu marido é tipo O”? Assustada e de cabeça baixa ela disse que sim. “Pois bem, nesse caso, se o pai é O e a senhora é A, não é possível gerarem uma criança AB”. Ao perceber o desespero da mulher, o médico tentou acalmá-la, mas não havia muito que pudesse ser feito. O hospital não poderia forjar um documento para encobrir a sua infidelidade, e ela acabou confessando ter dormido com o melhor amigo do marido, meses antes, em uma noite de desfecho imprudente.

Horas mais tarde, o quarto entrou em “pé de guerra”. Os irmãos do ex-pai tentavam segurá-lo para que não partisse para cima do ex-amigo, que, sem saber de nada, entrava no quarto com flores na mão, para visitá-los, sem imaginar que aquele menino, na verdade, era o seu filho legítimo. O circo havia sido armado. No quarto do hospital havia um ex-pai descontrolado, uma mãe envergonhada e um novo pai em choque. A gritaria podia ser escutada pelos corredores do hospital e despertava o interesse do corpo médico e de pacientes que lá estavam. 

Muitas pessoas se mostravam perplexas, outras tantas se divertiam com a tragédia alheia e, para um grupo pequeno mulheres, era uma advertência, um alerta de que precisavam se certificar do tipo sanguíneo de seus amantes antes que fosse tarde demais.

6 comentários em “E Agora, mamãe?

  1. Acho que todos ficam querendo saber o final dessa história. Você fica devendo! Quem sabe em um próximo conto? Será uma comédia ou uma tragédia?

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