O Ato de Confiar

Ainda busco achar alguma coisa que valha mais do que a palavra. Que tenha mais significado do que a confiança. Nos dias atuais, apesar de tantas desgraças e tantos acontecimentos ruins que nos são apresentados diariamente nos noticiários, precisamos acreditar que ainda uma grande maioria das pessoas preservam tais valores. Mas, infelizmente, atitudes que deveriam ser frequentes são as que viram manchete de jornal. Um taxista que acha uma mala de dinheiro no carro e a devolve, um gari que encontra uma carteira e não descansa enquanto não localiza o dono. Para nossa felicidade, existem “sites” especializados em boas notícias, que nos alimentam diariamente com casos que confirmam que ainda podemos acreditar na humanidade. 

Amigos, casais, irmãos, pais e filhos, colegas de trabalho, todas as relações existentes no mundo precisam deste importante atributo para poder funcionar bem. A confiança entre as pessoas pode ser conquistada através de uma simples ação e, normalmente, são essas atitudes corriqueiras que alcançam o patamar máximo da relação entre os indivíduos. Porém, uma vez conquistada, a confiança precisa ser preservada, através de ações e é exatamente nesse ponto em que muitas pessoas pecam. Cometem pequenos deslizes que, muitas vezes, podem até ser bem-intencionados, mas que acabam desestabilizando uma relação íntegra.

            A quebra de confiança mais habitual é a traição, e essa pode ser afetiva ou não. É quando um amigo, apesar de passar uma vida pregando uma coisa, é pego praticando outra. É quando o marido ou a esposa, mesmo tendo passado a vida se dedicando ao outro, é flagrado ou flagrada em uma relação extraconjugal. É quando o filho mente ao dizer que vai para um lugar e acaba indo para outro, mesmo sabendo que os pais reprovariam. Ou quando um colega de trabalho passa a perna no outro só para impressionar o chefe. 

Aos 16 anos, um episódio inusitado aconteceu comigo, resultando na consolidação da confiança que trabalhava dia a dia com a minha mãe e, felizmente, sem que a decepcionasse posteriormente, soube cultivar essa relação até os dias atuais. O fato aconteceu em uma viagem escolar, no ano de 1992. Na ocasião, uma de minhas melhores amigas (amizade que perdura até hoje), que já não estudava no mesmo colégio que eu, me convidou para participar de uma viagem com a sua turma. 

A programação era passar o final de semana em um hotel localizado em algum município perto de Piraí e Vassouras. Perdoem-me, mas com o passar dos anos, tal detalhe me falta à memória. Aceitei sem pensar duas vezes: um final de semana entre jovens, em um lugar imerso na natureza e com uma nova turma, era realmente tentador. Minha mãe, mesmo aquela não sendo uma excursão realizada pela minha escola, permitiu que eu fosse, confiando na organização da outra instituição, imaginando que seria segura, assim como aquelas de que estávamos acostumadas a participar. 

Nos encontramos na porta do colégio em Ipanema, ainda bem cedo, o ônibus que nos levaria sairia pontualmente às 7h da manhã. A viagem foi tranquila e animada, pois a turma musical havia ido preparada, munida de violões e gaitas, e antes das 10h da manhã já nos acomodávamos, um pouco chocadas, nos quartos designados. Assim como prometido pela organização do evento, as instalações eram cercadas pela verde mata atlântica, mas o edifício principal onde nos hospedamos aparentava ser um manicômio abandonado.

 Uma construção retangular com uma área central aberta. Os quartos, com portas em ripas de madeira em azul celeste, lado a lado, ocupavam os dois andares do “caixote” de concreto branco. Os estudantes, em duplas, foram destinados aos seus quartos para acomodar seus pertences. Teríamos a manhã livre, e o almoço estava programado para as 13h. Questionávamos sobre o que comeríamos, pois, além dos estudantes e dos dois coordenadores, não havia mais ninguém no local que fora vendido como “hotel”. Era difícil imaginar ficar ali até o dia seguinte; dormir então, era algo impensável. 

Sem ter outra saída, resolvemos fazer um passeio. Ao retornar, o susto! Uma roda com alunos e os dois coordenadores, que tranquilamente fumam maconha. Com medo do que poderia passar até o fim daquele dia, resolvemos voltar para casa. Simulamos que minha amiga não se sentia bem, que tinha uma dor de estômago insuportável e que inclusive havia provocado vômitos. Os coordenadores, comprovando que não eram dignos de confiança, nos conduziram até a rodoviária de cidade. Incomunicáveis pela inexistência dos celulares e pela má funcionalidade do “orelhão” disponível no local, aguardamos duas horas o ônibus que finalmente nos conduziu de volta ao Rio de Janeiro.

Às 4h da tarde, quando torci a maçaneta de casa, minha mãe, surpreendida, me observava com olhos arregalados. Após contar toda a saga daquele sábado, ela me abraçou, me parabenizou pela decisão tomada e, o mais importante, ratificou de uma vez por todas a confiança que tinha em mim. A partir daquele instante, tive a certeza de ter conseguido uma carta branca para o resto da minha vida, bastava saber cultivar a graça alcançada. 

   

      

4 comentários em “O Ato de Confiar

  1. Durante nossa vida estaremos sempre submetidos a situações contrangedoras. Essa história é um exemplo de como sair bem nessas situações e uma amostra de sua inteligência . Um abraço em todos de sua família.

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