Ramificações Reconfortantes

Em uma cidadezinha de 30 mil habitantes no interior de Minas Gerais havia uma árvore. Essa pode parecer uma observação tola, já que árvores existem em todos os lugares. Mas essa era uma árvore diferente e, por isso, tão especial. 

Reza a lenda que a história dessa árvore começa no início da década de 1940, quando uma família de agricultores se mudou para o pequeno vilarejo a 250 quilômetros de Belo Horizonte. Por pouco, o pequeno tronco de menos de dois metros de altura não foi cortado quando a família se acomodou no terreno. 

O jovem casal, beirando os 30 anos, conseguiu comprar o lote e para lá se mudou carregando seus três filhos: de quatro, sete e nove anos. Além do quarto filho, que estava a caminho, podendo ser notado na saliente barriga de sua mãe ao sexto mês de gestação.

Já nos primeiros dias, Oswaldo implicou com a árvore da propriedade, que, naquele momento, possuía apenas o caule e dois ramos sem folhas. Seu desejo era cortá-la, já que, de acordo com ele, a árvore ocupava um espaço importante do terreno; além do mais, era feia, não sendo útil nem para enfeitar o jardim. Queria arrancá-la a todo custo, mas sua esposa implorou para que não o fizesse. Cedendo ao desejo de sua mulher grávida, ele aceitou a permanência da árvore no local. 

Para surpresa da família, alguns meses depois, quando Maria sentiu as primeiras contrações, a árvore finalmente floresceu e por uma única semana se encheu de folhas verdes em tons de verde-bandeira, esmeralda e lima. Além das folhas, dezenas de flores cor grená trouxeram vida ao quintal, assim como o pequeno menino, que iluminou a vida familiar quando nasceu, 23 horas depois de um doloroso parto. A mulher, debilitada pelo esforço feito para trazer seu filho ao mundo, foi obrigada a prostrar-se por dois dias e não pôde testemunhar a bela árvore que florescera em sua casa. Quando finalmente pode se levantar, a árvore havia voltado ao seu estado normal; somente um caule e dois ramos pelados. 

Pouco tempo depois, Oswaldo voltou a questionar a utilidade da tal planta, que por 51 semanas do ano era apenas um estorvo para seus negócios, impedindo que pudesse ampliar as atividades agrícolas da família. Justificava que, agora com mais um “bruguelo”, precisava produzir mais. A mulher se desesperou. Ela relacionava o florescimento da árvore ao nascimento de seu quarto filho e, sem que pudesse ter visto tamanha beleza, queria esperar o ano seguinte para ver, com seus próprios olhos, a maravilha que todos comentavam.

Ele então aceitou os apelos da mulher, mas não havia um só dia no qual ele não xingasse a árvore pelos nomes mais estapafúrdios de seu limitado vocabulário, sem saber que as duras palavras que pronunciava atingiam pouco a pouco a vida da planta. O tempo foi passando e se aproximando do período do ano que Maria tanto esperava. Concomitantemente, o marido seguia com sua rotina diária de insultos contra a pobre e inofensiva árvore.  

Faltavam poucos dias para o seu filho completar um ano de vida e Maria fazia vigília junto à árvore, que até o momento não dava nenhum sinal de que fosse florescer e, ao contrário, no dia do aniversário de seu filho, a árvore amanheceu murcha, seca e sem vida. Maria chorou ao pé de seu tronco e suas lágrimas penetraram em sua raiz. De joelhos, ela abraçava seu caule e repetia centenas de vezes que ela se recuperaria. A árvore passou a ser o seu quinto filho e, assim como zelava pelos outros quatro, ela dedicava parte de seu tempo para cuidar da árvore também.

Todos os dias a visitava; pela manhã e no fim da tarde. Trazia uma xícara de café quente e se sentava em uma cadeira de ferro, de “fios de espaguete” de plástico colorido. Elas “conversavam” e Maria sentia uma verdadeira conexão com a planta que pouco a pouco se recuperava, dando sinais de estar viva. Seu caule mudou de cor, tornando-se bronze como ouro. 

Por muitos anos, Maria foi fiel aos seus encontros diários, mas nunca conseguiu testemunhar a beleza exibida na semana do nascimento do filho. A planta nunca mais floresceu Oswaldo, sensibilizado pelo ritual criado por sua mulher, desistiu dos insultos que proferia e acabou colocando uma cadeira igual à sua ao pé da árvore para acompanhar a esposa nos encontros no fim da tarde. 

Décadas se passaram e, no início dos anos 70, Maria e Oswaldo faleceram. Os filhos, que já não viviam lá, venderam a propriedade, que havia se valorizado devido ao crescimento e desenvolvimento da cidade.  Curiosamente, logo após o falecimento de Maria, algumas novas ramificações no tronco começaram a nascer, para surpresa dos mais antigos, que conheciam a história de amor entre Maria e a árvore. Outros tantos anos passaram para os galhos crescerem e, surpreendentemente, eles se entrelaçaram como um abraço apertado, o mesmo que Maria lhe dera anos antes, quando percebeu seu definhar no dia do aniversário de um ano de seu caçula.

O poder das amáveis palavras proferidas por tantos anos por Maria salvou a árvore, que em um gesto natural se abraçou, eternizando a amizade que um dia existiu entre elas.   

Posfácio:

O filme indiano Como Estrelas na Terra, baseado no livro Tudo que Eu Devia Saber Aprendi no Jardim de Infância (1986), de Robert Fulghum, narra uma passagem segundo a qual nativos das Ilhas Salomão, país localizado no Oceano Pacífico, costumavam gritar ofensas para que as árvores secassem e morressem. Questionado sobre a veracidade da narrativa, o autor justificou que havia lido essa informação em algum jornal, mas que não se lembrava mais da fonte…

6 comentários em “Ramificações Reconfortantes

  1. Fiquei curioso. Sabendo do seu prazer em fotografar e vendo a qualidade das fotos gostaria de saber se são de sua autoria. No mais, fico feliz de constatar como o inesperado pode enriquecer nossas vidas .

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  2. Lindo conto, simbolizando a força de uma leal amizade. A imaginação fica aguçada e dá vida aos personagens.
    Gostei bastante!

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