Realidades Divergentes

Era o primeiro ano de Júlia morando no acampamento de uma organização não governamental americana com base no Quênia. Assistente social há dez anos, deixara sua vida em São Paulo para viver novas experiências pelo mundo. Conhecera o trabalho da ONG através de sua amiga Mihaela, uma romena que foi sua companheira de turma em um curso de inglês que frequentaram em uma universidade nos arredores de Boston há cerca de oito anos. 

As duas mantiveram contato desde então e, apesar de a química entre elas ter sido evidente durante os dois meses de curso, quando retornaram a seus países suas vidas se distanciaram, limitando-se a felicitações em seus aniversários através das redes sociais. 

Aos 32 anos, Júlia perdeu o emprego ao qual se dedicara por cinco anos. Sentia-se sem rumo e por alguns meses tentou se recolocar, sem sucesso, no mercado de trabalho. Um dia, navegando pelo Facebook, ela viu uma postagem de Mihaela. Achou isso curioso, pois já fazia algum tempo que não aparecia nada sobre sua amiga em sua linha do tempo. Então, resolveu entrar no perfil da amiga e viu que ela estava de mudança para o Quênia, acompanhando seu marido, que era médico e trabalharia por dois anos para a mesma organização – cuja missão era levar assistência médica a diferentes comunidades quenianas. 

Júlia resolveu enviar-lhe uma mensagem e, para sua surpresa, recebeu uma resposta logo em seguida. Interessada pela aventura de Mihaela, ela ofereceu-se como voluntária para ajudar também no acampamento e, (em) menos de três meses (depois), as duas reencontravam-se em solo africano.  

No acampamento itinerante viviam, além de Júlia e Mihaela, outras sete famílias, que se dedicavam a atender a população das comunidades próximas. Dentre os estrangeiros, as amigas conheceram Erika Tsarnovska, uma ucraniana com idade similar a das duas e que também acompanhava o marido, um médico. Erika tinha dois filhos pequenos, assim como Mihaela, e as duas, com tantos assuntos afins, tornaram-se inseparáveis. 

Diariamente, quando Júlia saía do trabalho, se reunia com as amigas, que estavam sempre uma na casa da outra. Conversavam bastante e tomavam um refresco enquanto as quatro crianças brincavam. Ela se sentia um peixe fora d´água, as duas só falavam de suas rotinas maternais, mas elas lhe faziam companhia nessa terra distante. 

Em junho, iniciava a temporada seca e, apesar de a temperatura ser estável e amena, elas sabiam que pelos próximos cinco meses não veriam chuva. Era uma dura temporada de muito sol e proliferação de doenças respiratórias causadas pela secura. 

Já nas primeiras semanas Júlia notou como as amigas descuidavam de seus filhos, permitindo que eles passassem o dia brincando ao sol sem nenhum tipo de proteção. A despreocupação das duas começou a incomodá-la, pois ela sabia dos malefícios da exposição excessiva ao sol; mas como abordar o assunto com elas? Por mais que fossem amigas, Júlia não se sentia confortável para levantar o tema, principalmente sendo elas esposas de médicos.

Em uma tarde de domingo, quando a organização estava de folga, os seus colaboradores faziam um almoço comunitário em uma churrasqueira improvisada nos fundos do acampamento. A área era bastante grande e as pessoas conversavam em pequenos grupos. Júlia, Mihaela e Erika acomodaram-se em cadeiras de acampamento perto da piscina portátil onde as quatro crianças se refrescavam. 

Júlia notara que as crianças já estavam bastante queimadas e buscava a chance certa para poder dar a sua opinião sobre o que considerava uma verdadeira negligência das mães, afinal como poderiam ser tão irresponsáveis ao deixarem seus filhos sem proteção solar, em uma época na qual há tantas informações a respeito de câncer de pele? A cada minuto que passava ela ficava mais intrigada com a falta de atenção das amigas europeias, mas, infelizmente, sentia-se de mãos atadas, sem ter coragem de repreendê-las. 

“É…!” – falou Mihaela. – “Amanhã preciso começar a passar protetor solar nas crianças.”

Ao escutá-la pronunciar essas palavras, Júlia animou-se. Estava diante da oportunidade pela qual ansiava há vários dias e isso desencadeou um discurso moralista sobre a importância de proteger a pele das crianças contra os malefícios do sol. As amigas escutavam com paciência o desabafo da brasileira, que não lhes dava oportunidade de defesa.  

Enquanto falava, ela se sentia empoderada. E percebia que as amigas a encaravam com admiração por seu vasto conhecimento sobre o tema, mas tudo não passava de ilusão. Quando ela finalizou, Erika suspirou e disse:

– Júlia! Para quem cresceu aos arredores de Chernobyl, o Sol é inofensivo.       

A brasileira pouco lembrava Chernobyl. Para ela, era apenas uma narrativa que escutara quando ainda era criança e que em algum momento em sua jornada estudantil estudara em alguma aula de história, mas que fazia parte de uma realidade bem distante da sua. Já Erika e Mihaela, que viveram e cresceram bem perto do acidente nuclear mais devastador da história, precisaram lidar com as consequências da radiação durante todas as suas vidas.

As poucas palavras de Erika atingiram Júlia em cheio, fazendo-a se sentir culpada por seu preconceito e por sua intolerância, percebendo as distantes realidades e o choque cultural existente entre elas. Entendeu, assim, que cada uma carregava diferentes bagagens de vida e que nenhuma era melhor do que a outra. 

Luciana de Gnone

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