Lembranças Coloridas

É sexta-feira fim de tarde e estou na sala de embarque, aguardando o meu voo que está 2h atrasado devido ao mau tempo na cidade de Vitória. Retorno à casa, depois de uma semana de trabalho na capital capixaba. Sinto-me exausta e aproveito o atraso para tentar ler o tedioso livro que já vive na minha bolsa por diversas semanas.

Uma movimentação me chama atenção e desvio meus olhos. Vejo algumas pessoas acomodando seus pertences ao perceberem a aproximação da aeronave que por fim chegou. É reconfortante saber que em mais alguns minutos o nosso embarque será autorizado.

Os primeiros passageiros começam a desembarcar. Pouco a pouco vão liberando o avião para os procedimentos prévios da minha viagem. Fecho o livro mais uma vez e me concentro no movimento que é grande. Sempre gostei de observar as pessoas nos aeroportos, pensar em suas histórias e o que as levam ali. Quais seriam as suas origens e quais os seus destinos. Esse vai e vem é curioso e fascinante.

Ainda atenta ao desembarque, vejo um rosto familiar. Uma amiga de infância que estudou comigo no primário há mais de 30 anos e ainda tem a mesma aparência de quando éramos pequenas. Adriana ela se chama. Meu primeiro impulso é gritar o seu nome, mas de que adiantaria berrar se há um vidro que nos separa. Minha empolgação é enorme ao revê-la depois de todos esses anos sem contato. Em tempos de mundo conectado e de tantas redes sociais é surpreendente não saber seu paradeiro.

Em poucos instantes sou transportada ao passado, ao pátio da escola onde estudei do maternal ao vestibular. Com Adriana estive por 4 anos na mesma sala e éramos grudadas, o que a geração de hoje chama de “BFF” (best friend forever). Me perco em minhas lembranças e me recordo de duas meninas arteiras que estavam sempre aprontando, se metendo em confusão, e que constantemente eram encaminhadas para a coordenação. 

De todas as histórias que compartimos, uma em particular guardo com carinho em minha memória. Foi quando estávamos na quinta série e, por motivos óbvios, durante as classes permanecíamos afastadas. Eu acomodada em uma extremidade e ela na outra. Com essa distância era impossível perturbar o bom andamento das aulas, mas mesmo assim, nossa sintonia era grande e somente o fato de nos olharmos já nos dava motivos suficientes para rirmos à toa.

Faltava pouco para o fim da aula de ciências e seríamos liberadas para o recreio de 20 minutos. Inesperadamente recebi um bilhete do menino sentado atrás de mim. Olhei para ele com desconfiança e ele levantou os ombros sem saber o que se tratava. Era evidente que ele era apenas um mensageiro. Me entregou o papel com inúmeras dobras e com um pequeno pedaço de durex que garantia a confidencialidade. O abri discretamente em meu colo, embaixo da carteira, e reconheci a letra da Adriana. A nota dizia: “Quando tocar o sinal, aproveita a confusão e dá um jeito de ficar na sala.”

Achei sua ideia audaciosa e ao mesmo tempo excitante, já que era proibido a permanência de alunos na sala de aula durante o recreio. Eu a encarei de longe e, por suas expressões, vi que planejava algo que nunca havíamos feito antes. Meu coração acelerou e já não conseguia prestar atenção nas palavras da professora que se esforçava em manter a turma sob controle nos últimos segundos de aula.

O sinal tocou e o estrondoso barulho de cadeiras e mesas sendo arrastadas abafava as últimas recomendações sobre o dever de casa. O cenário era perfeito. Vinte e seis crianças querendo deixar a sala de aula ao mesmo tempo, brigando por um espaço nos 70 cm de largura da porta. Eu me escondi atrás da estante de livros encostada à parede, enquanto Adriana permaneceu embaixo de sua carteira. Pouco tempo depois escutamos a porta ser trancada e o silêncio era absoluto. Olhei de relance para ver se estávamos em segurança. “Já podemos sair”, sussurrei.

Ela se levantou rindo, antes mesmo de falar o que tinha em mente. Olhou para o quadro negro e apontou para o ventilador de teto. Já sabia o que ela pretendia. Esvaziamos a caixa de giz colorido e os trituramos com a ajuda do apagador. Em cada pá do ventilador colocamos uma cor diferente; azul, amarelo e vermelho. Terminamos de elaborar a travessura com tempo para comermos os nossos lanches, com as mãos ainda abarrotadas de evidências. Gargalhávamos imaginando o desfecho de nossa traquinagem, mas havia um detalhe que nos preocupava, a próxima aula era de matemática e nossa professora era a mais brava de todas.

Faltava pouco tempo para que nossos amigos regressassem do intervalo. Normalmente a porta era destrancada pelo inspetor, e já estávamos posicionadas atrás dela, aguardando para nos juntarmos a turma que entraria fazendo algazarra. No momento certo nos camuflamos entre eles e nos sentamos com rapidez. Prometemos que durante o processo não poderíamos de maneira alguma nos encarar pois, caso o fizéssemos, estaríamos assumindo a culpa de algo que juramos negar até a morte.

A professora chegou e para nossa surpresa vestia um traje branco. Ao ligar o ventilador, todos olharam com perplexidade a chuva colorida que se desprendia do alto, mas depois surpresa vieram as incontroláveis risadas. Irritada a docente nos encarou e sem poder identificar os autores da façanha, resolveu aplicar um teste surpresa como punição.

O anúncio da proximidade do embarque trouxe de volta a minha atenção, e me deu a chance de vê-la mais uma vez, pouco antes de desaparecer pelo corredor do aeroporto. Cativada pelas memórias nostálgicas, penso se algum dia ainda terei a chance de reencontrá-la para recordarmos nossas molecagens de infância. 

11 comentários em “Lembranças Coloridas

  1. Que traquinagem! Como era saudável a busca da alegria naqueles tempos. Condenável à epoca, porém apenas uma comédia pastelão, ao estilo Laurel & Hardy, também conhecidos como O Gordo e o Magro. Bem mais pueril do que é visto hoje. Parabéns por nos remeter àquela época.

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  2. Interessante esse conto. Cria várias expectativas no leitor e como na vida deixa o pensamento vagar por possibilidades que poderiam ser mas não foram. Assim é a vida!

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  3. Não sei dizer se gostei mais da ambientação, do livro nunca lido na bolsa ou do excelente flashback. Muito boa história! Aguardo por mais 😊👏

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