Roupas limpas por favor

A expectativa de mudança da família Oliveira para uma terra desconhecida era muito alta. A proposta de trabalho no exterior os pegou de surpresa e, pela primeira vez, faria uma viagem dessa magnitude carregando, além de malas, os dois filhos pequenos.

Eles decolaram em um domingo a tarde, e a jornada só terminaria na terça-feira de manhã. O destino era distante, o itinerário para chegar até lá seria exaustivo, e teriam que enfrentar dezenove horas de voo e uma demorada conexão no meio do caminho.

Viajar com crianças era sempre uma aventura, qualquer que fosse o percurso. Na mala de mão tinha que ter fraldas, roupas extras, mamadeiras e várias opções de entretenimento, fazendo com que o volume fosse grande e pesado. E para a mãe? Nada! Pois nunca havia espaço para suas roupas extras.

Tudo seguia sob controle, e já estavam no último trecho do longo caminho. Apesar do evidente cansaço de todos, as crianças permaneciam tranquilas e se comportavam bem. “Verdadeiros tesouros de Deus.” – Os pais pensavam. 

Faltava apenas uma hora para aterrissarem, quando o pai se levantou para levar o filho mais velho de apenas 5 anos ao minúsculo banheiro, que depois da longa viagem já se encontrava a ponto de ser interditado pela defesa sanitária.

“Coloque os sapatos para não emporcalhar as meias!  Levante a tampa do vaso com os pés! Não encoste em nada! Em nada mesmo!”  

O pai revirava os olhos enquanto a mãe dava, com histeria, as recomendações aos dois, mesmo sabendo que as chances de executarem suas orientações eram mínimas devido ao limitado espaço do cubículo.

Enquanto os dois testavam a teoria da impenetrabilidade, onde dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, o filho mais novo de apenas 1 ano de idade, começou a ter o seu previsível ataque de tédio. A mãe não o recriminou, afinal já estavam há mais de vinte horas viajando e sabia que era uma questão de tempo até que a paciência do menino caducasse.

Ela buscou distraí-lo; manuseava seus carrinhos, recolocava a chupeta em sua boca, fazia brincadeiras de se esconder atrás das mãos, mas nada funcionava. Sem ter mais nenhuma ideia de como ajudá-lo, resolveu fazer o que ele mais gostava. Posicionou-o de frente para si e sacolejava-o com leveza enquanto o projetava ligeiramente para o alto. Tudo era válido para melhorar o humor do pequeno. 

A técnica funcionou, e ele soltava deliciosas gargalhadas cada vez que era arremessado para cima, mas não demorou muito para que o riso se transformasse em enjoo, seguido do primeiro jato de vômito que atingiu em cheio o peito da mãe. Em seguida veio o segundo jato, e logo depois o terceiro, e assim continuou até que ela os parou de contar.

A comissária de bordo que passava ao seu lado no momento da terrível circunstância, a encarou com uma expressão que misturava nojo e pena, e lhe perguntou pausadamente: “O que posso fazer por você?”

 Com desânimo e segurando o filho pelas axilas, a mãe respondeu: “Não tenho a menor ideia.”

Sensibilizada com a sua agonia, a aeromoça se prontificou a trazer uma dúzia de toalhinhas húmidas e quentes, as mesmas que são utilizadas antes das refeições, mas o que a mãe realmente queria naquele momento, era uma muda de roupas limpas, aquelas que ela não pôde levar por falta de espaço na mala de mão. 

Ao retornar do banheiro com o filho e encontrá-la naquela situação, o esposo não escondeu o espanto, e com os olhos arregalados e o maxilar aberto ele a fitou com empatia. 

Alguns segundos foram necessários para que ela se animasse a se mover. Com cuidado, tiraram a roupa imunda do bebê e o limparam com todas as toalhas húmidas disponíveis. Depois de higienizado, o menino se acalmou e adormeceu sossegado no colo enxuto do pai, enquanto a mãe, seguiu para o banheiro para tentar melhorar a sua deplorável condição. 

Pouco tempo depois eles pousavam em segurança no destino final, e enquanto o piloto taxiava a aeronave até o local para o desembarque, o casal refletia que aquela fora apenas a primeira aventura de suas novas vidas, mas que a partir daquele momento, carregar roupas limpas para todos, tornara-se mandatório para a família Oliveira.

12 comentários em “Roupas limpas por favor

  1. Muito boa leitura
    Lí sem parar, de uma sentada.
    Fiquei curioso pra saber o Destino, a la Hitchcock.
    Manoelino de Andrade

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